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Brigitte Nielsen e Red Sonja: “Não sou atriz, desculpem”

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Brigitte Nielsen e Red Sonja: “Não sou atriz, desculpem”

Mensagem por Siegfried em Seg Jul 07, 2014 2:55 am

Transcrevo aqui uma interessante matéria sobre a Brigitte Nielsen do blog de David Furtado, publicada em Janeiro deste ano, contando a rotina do set, bastidores e como a atriz se envolveu com o projeto do filme Red Sonja



Brigitte Nielsen e Red Sonja: “Não sou atriz, desculpem”

Está desculpada. Nielsen foi a melhor Red Sonja, numa época em que os super-heróis são às catadupas no cinema e se trabalha num remake da heroína da Marvel. É curiosa a história de como esta mulher a quem chamavam “girafa” na escola conseguiu o seu primeiro papel. E poucos saberão o quanto se dedicou a este filme de 1985.



Red Sonja Brigitte Nielsen sword

No início dos anos 80, Gitte Nielsen era uma modelo conhecida pelo profissionalismo. Os bastidores do mundo da moda eram e são desconhecidos da maioria do público. Pelos clubes noturnos frequentados por raparigas de 17, 18 anos que ambicionavam ser estrelas da moda, deambulavam playboys de carreira, pagos secretamente pelas agências. Prestavam “serviços” às jovens modelos, mantendo-as ocupadas quando se sentiam solitárias ou pressionadas devido à procura constante de trabalho e tentavam descontrair.

Pelas zonas exclusivas dos clubes e discotecas de Milão, circulava muito champanhe e cocaína. Segundo Nielsen, as raparigas depois de “serem usadas durante dois ou três anos, desapareciam por completo. As mais vulneráveis eram as de fora de Itália, não falavam o idioma, estavam em terra estranha, talvez a sua casa fosse noutro continente, e não eram capazes de julgar apropriadamente em quem confiar. Era um lado da indústria sobre o qual não se escrevia nos editoriais de moda”.



Chegar, ver e vencer: Escolhida quase de imediato entre 90 candidatas.

São apenas alguns dos aspectos podres do mundo da moda – que frequentemente trata as mulheres como gado – e que fizeram Nielsen manter a distância. Estava semi-afastada da profissão quando recebeu um telefonema em Copenhaga. Era um antigo contacto da Elite Models de Milão. Informou-a de que havia um casting para um filme de Hollywood.

A ideia não agradou a Nielsen. Acabara de ser mãe e a sua profissão era modelo, não atriz. Após uma conferência familiar, foi incentivada pelos pais e pelo companheiro. “Porque não?” Apanhou um voo para Milão, sentindo-se constrangida e a pensar, “que raio estou a fazer?” Ao chegar, deram-lhe um traje de Viking “com uma espada que parecia ter vindo de uma loja de brinquedos, seis páginas de diálogo para decorar em 40 minutos” e puseram-na ao lado de 90 candidatas. Sentia-se ridícula.
Com "o tipo dos músculos" de quem nunca ouvira falar.

Com “o tipo dos músculos” de quem nunca ouvira falar.

“O PAPEL É SEU”



Explicaram à candidata de 21 anos que o filme se chamava Red Sonja e era a adaptação de uma banda desenhada da Marvel. A modelo nunca ouvira falar de nenhum dos nomes. Outra coisa que achou diferente em relação aos castings para modelos foi a atmosfera: “Eu já fora a milhares destas audições, mas aqui as raparigas eram muito mais competitivas. Todas queriam o papel principal a todo o custo; até se cheirava a inveja.” As candidatas a modelos conversavam com as rivais, algumas partilhavam apartamentos. Nada disso sucedia aqui.

Apresentaram-na ao realizador Richard Fleischer “sentado com outros dois homens atrás de uma extensa mesa”. “‘Por favor, comece’, disse ele. Exibi o mais rasgado e franco sorriso dinamarquês e disse-lhes que não me lembrava de uma única palavra do guião. ‘Não sou atriz, desculpem’.”

O realizador não se importou e informou-a de que a orientariam na audição, dizendo-lhe para se mostrar feliz, confusa… “com isto não havia problema”, refere Nielsen e com “sedutora” também não. Testaram-na para ver se conseguia chorar por pedido. Nielsen conseguiu. “Muito obrigado, mantemo-nos em contacto”, disse Fleischer. “Ele deve ter-me achado uma palerma. Mas que merda estou a fazer aqui, afinal?”, pensou, saindo com a fatiota de Viking. Quando a tirava, no camarim, uma assistente italiana veio chamá-la.



Fleischer queria vê-la no escritório do produtor Dino De Laurentiis. Em cima da secretária, estavam duas pilhas de papéis. O produtor simpatizou com Nielsen, até porque esta falava algum italiano. “Saiu-se muito bem. Aqui está o argumento e o contrato. O papel é seu. O que quer fazer?” A candidata ficou boquiaberta. “Tenho de telefonar ao meu pai”, disse. De Laurentiis empurrou serenamente o telefone na sua direção.    

Após a aprovação paternal, o realizador comunicou-lhe que iria contracenar com Arnold Schwarzenegger. “O nome não me diz nada.” “O tipo dos músculos”, acrescentou Fleischer. “Continua a não me dizer nada e, de qualquer forma, não aprecio grandes músculos.” Riram-se dela. E a atriz admite que deveria “fazer ideia” de quem era, uma vez que já filmara Conan the Barbarian e The Terminator.

Há um remake ou reboot de Red Sonja na forja há uns cinco anos. Falou-se em vários nomes, diz-se que Amber Heard irá desempenhar a guerreira da Marvel. E comenta-se também que Brigitte Nielsen não é uma atriz (Heard é?) e nem sabia manejar uma espada. Não é bem assim…

O ESPÍRITO DA GUERREIRA



As filmagens começariam em Setembro seguinte, nos arredores de Roma. Antes disso, Nielsen sujeitou-se a um período de treino em Londres. Pretendia-se que fosse convincente. Montar a cavalo, Gitte Nielsen já sabia e bem, era uma das suas paixões. Aprendeu a lutar com uma espada a cavalo, como cair de um cavalo. Durante dois meses, viveu num apartamento em Londres, treinando na Armstrong Farm com um perito em combate japonês. “A pouco e pouco, transformei-me em Red Sonja. Estava totalmente dedicada ao papel e, como sempre, fui profissional.”

Os serões eram passados com um especialista em diálogos, sendo o principal problema minimizar o acentuado sotaque dinamarquês de Nielsen, tornando-o no que poderia remotamente soar a Red Sonja. Espantou os treinadores com a destreza física, perícia com cavalos, a facilidade com que aprendia as coreografias dos combates com espada, acabando por fazer as cenas de duplos quase todas.

Além do plano físico, Nielsen interessou-se pela personagem, tentou descobrir quem era, o que a motivava: “Apaixonei-me por ela. Tinha dois lados: A destemida super-heroína que vemos primeiro, e a mulher doce inteligente e justa que acabamos por conhecer.”

“As personagens de fantasia apresentam dificuldades específicas para um ator”, ponderou Nielsen. “Têm de construir uma moldura para o papel e tirá-lo do domínio do cartoon, mas, quanto mais eu conhecia Sonja, mais me identificava com certos aspetos de mim própria enquanto mulher. Ter sido mãe, facilitou-me a identificação com ela e como tinha de equilibrar o amor com o poder; o privado com o público – para mim, foi essa a ideia.”



NOVOS AMBIENTES

No set, Nielsen sentiu-se confortável. No mundo da moda, encorajavam-na a ser inexpressiva, aqui incentivavam-na a ser expressiva. “Ter um ar bonito e um belo corpo eram apenas atributos físicos sobre os quais eu possuía um controlo limitado. Ao filmar, nada disso importava se não conseguíssemos uma atuação convincente. Era muito mais criativo.”

Agora, não a tratavam por “Gitte”, era “Miss Nielsen”, e a dinamarquesa apreciou as atenções apesar do magro salário de 15 mil dólares por sete meses, nada de comparável ao salário de modelo. Mas divertiu-se tanto que provavelmente “o teria feito de borla”. Outro aspeto que apreciou foi o trabalho de equipa, “do realizador ao tipo que varria ao chão; todos tínhamos de fazer um esforço enorme para que o filme acontecesse.”

Custou-lhe ficar afastada do filho durante sete meses de rodagem. A amadora tinha muito com que se ocupar. “No set de um filme, há uma sensação de caos e uma insanidade prestes a rebentar, os realizadores ficam furiosos, todos os dias é um constante torvelinho criativo, criam-se ligações pessoais intensas.”

Terá sido, em parte, isto que motivou o caso com o seu coprotagonista. Nielsen admite que, com 21 anos, não tinha maturidade para equilibrar o mundo do cinema e o mundo familiar ou mesmo ter uma família. Eram dias de 16 horas de trabalho com 143 pessoas envolvidas. Nielsen explica que é-se “atirado durante um breve período para a companhia de alguém que achamos atraente e depois, infelizmente, temos de regressar à realidade. Foi isso que aconteceu. Ambos sabíamos que, quando o filme estivesse acabado, o mesmo nos aconteceria.”


Brigitte Nielsen e Arnold Schwarzenegger.

NATUREZA SUPERFICIAL

A fase de promoção de Red Sonja foi o conto de fadas agridoce e a chamada à realidade. “Tive de o fazer sem o meu primeiro filho, o meu marido e também sem o meu nome. Dizerem-me que Gitte soava ridículo não tinha grande importância, mas alterar a identidade que os meus pais me tinham dado não favoreceu a minha auto-estima nessa época.”

Para Dino De Laurentiis, “Gitte” não era “suficientemente Hollywood”. “Que tal Brigitte?” A atriz achou… bem. Talvez assim pusesse definitivamente para trás os tempos em que a perseguiam cruelmente na escola, troçando dela e chamando-lhe “Gitte, a girafa”. Aceitou com alguma tristeza.

Desde a mudança de nome, Brigitte Nielsen reflete que houve uma divisão de personalidade: “Sempre me vi como uma mulher com esses dois lados distintos que nem sempre se entendem. Gitte sempre foi mais disposta a perdoar a natureza superficial de Brigitte e consegue rir-se dos seus excessos, ao passo que Brigitte tem menos paciência com a timidez de Gitte e o modo como insiste em seguir as regras. Acho que o conflito entre as duas nunca se resolverá, mas, à medida que o tempo passa, tem sido muito mais fácil para mim viver com ambas.”

David Furtado

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Re: Brigitte Nielsen e Red Sonja: “Não sou atriz, desculpem”

Mensagem por Josey Wales em Seg Jul 07, 2014 6:46 am

Nossa... Que materia legal! E super agradável de se ler!! Belissimo achado siegfried!! E, que revolucao na vida da gitte!! Pra sempre em nossas memorias hiborianas!!! :-)

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Re: Brigitte Nielsen e Red Sonja: “Não sou atriz, desculpem”

Mensagem por Siegfried em Seg Jul 07, 2014 12:34 pm

Mas veja como a vida é injusta... esses dias assisti BARBARIAN QUEEN II, e avaliei ao final do filme, o quanto a Lana Clarkson havia se dedicado ao papel, enquanto o resto do elenco parecia sequer levar muito a sério o filme, Red Sonja foi assim: Brigitte "levou nas costas" um péssimo filme com um desempenho cênico bastante superior ao seus colegas de set. Holywood nessa época "fabricou" muitos ídolos, e Arnold no início, com tanto talento em cena quanto um cameraman, foi um privilegiado: pegou papéis em produções excelentes que pouca entrega exigiam de seus protagonistas. De fato, Holywood foi ingrata com o talento de uma jovem giganta que só conseguiu pegar papéis secundários depois de sofrer os efeitos da mesma fórmula falida que havia trazido Conan novamente ás telas em um filme tão equivocado, mas quem sabe se RED SONJA não tivesse recebido tal indiferença, ela poderia ter sido uma bem sucedida "Sigourney Weaver"...

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Re: Brigitte Nielsen e Red Sonja: “Não sou atriz, desculpem”

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