Conan, o Cimério
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Contos de Howard - Espadas para a França

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Contos de Howard - Espadas para a França

Mensagem por Rogerio Rocha em Ter Jan 10, 2012 9:38 pm

1) Quem Encontrei: Homens Usando Máscaras

- RAPAZINHO, o que faz com uma espada? Há, por Saint Denis, é uma mulher! Uma mulher com espada e elmo!

E o grande velhaco de barba negra parou, com a mão no cabo da lâmina, e ficou boquiaberto e espantado ao me ver.

E eu lhe devolvi o olhar fixo sem me embaraçar. Uma mulher, sim, e era um lugar solitário, uma sombria clareira de floresta, distante de habitações humanas. Mas eu não usava gibão, largos calções curtos e botas espanholas meramente para me exibir; e o capacete morion sobre meus cachos vermelhos, e a espada que pendia do meu quadril, não eram simples enfeites.

Olhei para aquele sujeito que encontrei por acaso na floresta, e gostei pouco dele. Era bastante grande, com um rosto maligno e cicatrizado; seu morion estava lavrado a ouro e, sob seu manto, brilhavam uma couraça e nesgas. O manto era uma veste notável, de veludo cipriota, habilmente trabalhado com fios de ouro. Aparentemente, o dono havia cochilado sob uma enorme árvore próxima. Havia um grande cavalo ali, amarrado a um galho, com ricos arreios de couro vermelho e rédeas douradas. Suspirei diante da visão, pois eu havia caminhado muito desde a aurora, e meus pés em minhas longas botas doíam.

- Uma mulher! – repetiu o patife, pasmo – E vestida como um homem! Tire esse manto esfarrapado, moça; quero te ver melhor! Diabos, você é uma vadia linda, alta e flexível! Venha, tire seu manto!

- Pare com isso, cão! – eu o adverti asperamente – Não sou nenhuma vagabunda chorona para sua diversão.

- Quem, então? – ele me devorava com os olhos.

- Agnes de La Fere. – respondi – Se você não fosse um forasteiro aqui, saberia a meu respeito.

Ele sacudiu a cabeça:

- Não, eu sou novo por aqui. Eu me chamo Chalons. Mas não importa. Um nome é tão bom quanto outro. Venha cá, Agnes, e me dê um beijo.

- Idiota! – Minha raiva sempre pronta estava começando a arder às ocultas – Será que devo matar metade dos homens da França, pra os ensinar respeito? Veja! Visto estas roupas, mas como vestimentas e instrumentos de minha profissão, e não para chamar a atenção dos homens. Eu bebo, luto e vivo como um homem...

- Mas amará como uma mulher! – ele disse e, pulando subitamente em minha direção como um grande urso, ele tentou me arrastar para seu abraço, mas recuou de uma bofetada que lhe partiu os lábios e fez correr um fio de sangue por sua barba negra.

- Cadela! – ele rugiu em breve fúria, seus olhos queimando – Vou lhe aleijar por isso!

Ele avançou novamente em minha direção, com suas grandes mãos se fechando, mas quando desembainhei minha espada, ele subitamente pareceu sóbrio pelo que viu em meus olhos e, como se finalmente percebesse que isto não era brincadeira, recuou e puxou sua própria lâmina, lançando seu manto para longe.

Nossas lâminas se encontraram com um estrondo que ecoou pela floresta, e quase o matei no primeiro golpe. Foi mais por sorte que ele deteve parcialmente minha estocada feroz, e a ponta de minha espada lhe atravessou toda a pele da mandíbula, de modo que o sangue lhe jorrou na parte da armadura que lhe protegia o pescoço. Ele gritou feito um cão louco, mas o ferimento lhe deu juízo e o fez perceber que não estava diante de uma brincadeira de criança.

Ele brandiu sua lâmina com toda a força e habilidade, e não o achei um espadachim médio. Bom para mim, que havia aprendido a arte pela melhor lâmina da França, pois este patife de barba negra era forte, habilidoso, e cheio de truques sujos e subterfúgios assassinos, através dos quais eu soube que ele não era um homem honesto, mas um sicário, um daqueles matadores pagos que vendem suas espadas a qualquer um que possa lhes pagar o salário.

Mas eu não era inocente naquele jogo, e minha rapidez de olhos, mãos e pés era tal, que nenhum homem poderia igualar. Falhando em todos os truques e estratégias, o barba-negra tentou me derrubar com pura força bruta, despejando golpes trovejantes sobre minha guarda com toda a sua força. Mas isto não lhe foi de melhor serventia, porque, apesar de eu ser mulher, meu corpo era como se fosse de molas de aço e ossos de baleia, e tinha a arte de desviar seus golpes antes que eles fossem bem começados e, deste modo, evitar sua fúria total. Dentro em pouco, sua respiração começou a assobiar através de seus dentes expostos, a espuma começou a se misturar com o sangue em sua barba, e sua barriga a ofegar sob sua couraça.

Então, quando sua força e fúria começaram a falhar, ataquei implacavelmente e, abrindo sua guarda, enfiei a ponta de minha espada no meio de sua barba negra, acima da armadura, cortando jugular, traquéia e espinha numa só estocada, de modo que ele morreu enquanto caía.

Limpando minha lâmina, ponderei sobre minha próxima ação, e logo lhe esvaziei a bolsa, encontrando algumas moedas de prata ali dentro; e fiquei desapontada com a pobreza dali, pois eu estava sem dinheiro e faminta. Mesmo assim, seriam suficientes para um jantar em alguma estalagem na floresta. Então, vendo que meu manto estava, como ele dissera, gasto e esfarrapado, peguei o dele, o qual admirei bastante por causa da rara qualidade do acabamento a ouro que o decorava. Quando o levantei, uma máscara de seda negra caiu dele, e pensei em deixá-la onde caiu, mas pensei melhor e a enfiei no meu cinto. Envolvi o cadáver em meu manto velho e o arrastei para dentro dos arbustos, onde não seria visto por nenhum possível transeunte; e, montando o cavalo, cavalguei na direção para a qual eu estava viajando, muito grata pelo alívio dos meus pés cansados.

Enquanto eu avançava pelo anoitecer, fiquei meditando sobre os eventos que ocorreram comigo desde que eu, como uma garota ignorante do campo, havia esfaqueado o homem com o qual meu pai estava me forçando a me casar, e fugi da aldeia de La Fere, para me tornar uma espadachim e uma fanfarrona de calças.

Realmente, a violência e morte pareciam seguir meu caminho. Guiscard de Clisson, que me ensinou a arte da espada, e com quem eu estava cavalgando para as guerras da Itália, morrera baleado numa emboscada armada por sicários pagos pelo Duque d’Alencon, os quais pensaram que ele fosse meu amigo Etienne Villiers. Etienne sabia da intriga contra o Rei Francis no pacto do duque e, por causa desse conhecimento, sua vida estava a prêmio. Agora eu também estava sendo caçada por Renault d’Valence, o líder daqueles assassinos pagos, desde que souberam que eu era a única além deles a saber dos verdadeiros fatos sobre o assassinato de De Clisson.

Pois Valence sabia que, se todos soubessem que ele e seus sicários haviam matado De Clisson, o famoso general dos mercenários, d’Alencon enforcaria todos eles para acalmar os amigos de De Clisson. O corpo de Guiscard apodrecia no rio onde os sicários o haviam lançado, e agora d’Valence me caçava por conta própria, ao mesmo tempo em que perseguia Etienne para o duque.

Villiers e eu havíamos corrido, nos escondido e esquivado como ratos fugindo de cães, desejosos de adentrar a Itália, mas até agora sendo encurralados naquele canto do mundo por causa do medo pelos nossos inimigos, os quais esquadrinhavam o reino à nossa busca. Agora mesmo, eu estava em meu caminho para um encontro com Etienne, que havia ido furtivamente à costa, a fim de encontrar, se pudesse, um certo pirata chamado Roger Hawksly, um inglês que assolava as costas; fomos forçados a tais extremos, pois éramos obrigados a sair do país, de qualquer modo que pudéssemos, vez que era certo não podermos evitar para sempre os cães de caça em nosso rastro. Eu fiquei de encontrar meu camarada à meia-noite, num certo ponto da estrada que serpenteava até a costa.

Mas, enquanto cavalgava pelo crepúsculo, não encontrei arrependimento em meu coração por ter trocado minha vida de trabalho servil pela de perambulação e violência. Era a vida para a qual o misterioso Destino havia me guiado, e eu me ajustei a ela tão bem quanto qualquer homem: bebendo, brigando, jogando e lutando. Com pistola, adaga ou espada, eu havia demonstrado várias vezes minha bravura, e eu não temia homem algum que caminhasse pela terra. Melhor uma curta vida de aventura e selvageria, do que uma longa e enfadonha labuta de fadiga doméstica me esmagando a alma, tendo filhos e me encolhendo sob o porrete de um homem a quem odiasse.

Assim eu meditava, quando cheguei a uma pequena taverna, situada ao lado da estrada da floresta e cuja luz fez minha barriga roncar novamente. Eu me aproximei cautelosamente, mas não vi ninguém na sala principal, exceto o garoto que lavava os pratos e uma jovem garçonete; então, deixei meu cavalo aos cuidados de um criado no estábulo, e caminhei para dentro da taverna.

O lavador de pratos ficou boquiaberto enquanto me trazia um grande caneco de vinho, e a moça arregalou os olhos, até estes parecerem que iam saltar das órbitas; mas eu estava acostumada a tais olhares, e simplesmente mandei que ela me trouxesse comida, enquanto eu me sentava à mesa, com meu manto ao redor dos ombros e meu morion ainda em minha cabeça – pois me era bastante útil ficar alerta e totalmente preparada o tempo todo.

Agora, enquanto comia, eu parecia ouvir portas se abrindo e fechando furtivamente na parte de trás da taverna, e um baixo resmungar de vozes chegava aos meus ouvidos. Eu não sabia o que isto anunciava, mas eu estava ocupada em terminar minha refeição e fingi não dar atenção quando o dono da taverna, um homem silencioso e moreno em avental de couro, saiu de algum quarto interno, me olhou fixamente e logo se retirou novamente para o interior da taverna.

Não muito tempo depois do seu desaparecimento, outro homem adentrou a taverna por uma porta lateral – um homem pequeno, de aspecto severo, com feições morenas e agudas, vestido de forma sombria e envolto num negro manto de seda. Senti os olhos dele sobre mim, mas não aparentei olhar para ele, exceto pelo fato de eu ter soltado furtivamente minha espada na bainha. Ele veio apressadamente em minha direção e sibilou:

- La Balafre!

Como ele estava obviamente falando comigo, eu girei, com minha mão no cabo da espada, e ele recuou, sua respiração lhe silvando através dos dentes. Assim, por um instante, encaramos um ao outro. Então:

- Por Saint Denis! Uma mulher! La Balafre é uma mulher! Eles não me contaram... eu não sabia...

- Bem? – indaguei cautelosamente, sem lhe entender o espanto, mas sem pensar em deixar que ele soubesse.

- Bem, isto não importa. – ele finalmente disse – Você não é a primeira mulher a usar calças e uma espada. Pouco importa qual dedo puxa o gatilho, a bala voa até o alvo. Seu mestre me mandou lhe procurar pelo seu manto... eu o reconheci pelo bordado a ouro. Venha, venha, está ficando tarde. Eles lhe esperam na sala secreta.

Agora eu percebia que esse homem havia me confundido com o sicário a quem eu matara; sem dúvida, o sujeito estava se dirigindo a um encontro marcado para algum crime. Eu não sabia o que fazer. Se eu negasse que era La Balafre, seus amigos não me deixariam ir em paz, sem que eu explicasse como consegui o manto dele. Não vi saída, exceto matar o homem de rosto escuro e cavalgar pela minha vida. Mas, com suas palavras seguintes, toda a situação mudou.

- Ponha sua máscara e envolva bem o manto ao seu redor. – ele disse – Ninguém sabe que você está aqui, exceto eu, e isso porque seu manto me foi descrito. Foi tolice sua se sentar aqui, abertamente, na taverna, onde qualquer homem poderia lhe ver. A tarefa que temos a fazer é de tal natureza, que todas as nossas identidades devem estar escondidas, não apenas esta noite, mas de hoje em diante. Você me conhece apenas como Jehan. Você não conhecerá nenhum dos outros, nem eles a você.

Diante destas palavras, um louco capricho imediatamente tomou conta de mim, nascido da curiosidade imprudente e feminil. Sem dizer nada, me levantei, coloquei a máscara que eu havia encontrado no corpo do verdadeiro La Balafre; envolvi-me no manto, de modo que ninguém pudesse saber que eu era uma mulher, e segui o homem que chamava a si mesmo de Jehan.

Ele foi à frente, através de uma porta nos fundos da sala, à qual ele fechou e trancou atrás de nós, e, puxando uma máscara semelhante à minha, ele a colocou. Logo, tirando uma vela de uma mesa, ele seguiu à frente por um corredor estreito, com pesados retábulos de carvalho. Finalmente, ele parou, apagou a vela e bateu cuidadosamente na parede. Houve um som de remexer com as mãos no outro lado, e uma luz fraca brilhou, enquanto um falso painel era deslizado para o lado. Gesticulando para que eu o seguisse, Jehan deslizou através da abertura e, depois que entrei, ele a fechou atrás de nós.

Eu me vi num compartimento pequeno, sem portas nem janelas visíveis, embora lá devesse haver algum sistema sutil de ventilação. Uma lanterna oculta iluminava a sala com uma luz vaga e fantasmagórica. Nove figuras se amontoavam contra as paredes em cadeiras – nove figuras bem envoltas em mantos escuros, chapéus emplumados ou morions negros bem puxados para baixo, para encontrarem as máscaras negras que lhes escondiam os rostos. Somente seus olhos ardiam através dos buracos nas máscaras. Ninguém se mexia nem falava. Parecia um conclave do condenado.

Jehan não falou, mas gesticulou para que eu tomasse meu lugar numa cadeira, e então ele deslizou pelo compartimento e puxou outro painel para trás. Através desta abertura, outra figura entrou furtivamente – mascarada e envolvida num manto como o resto, mas com uma sutil diferença no porte. Ele caminhava como um homem acostumado a comandar e, mesmo em seu disfarce, havia algo levemente familiar nele.

Ele andou altivamente até o centro da pequena câmara, e Jehan gesticulou em nossa direção nos bancos, como se para dizer que estavam todos prontos. O forasteiro alto acenou com a cabeça e disse:

- Você recebeu suas instruções antes de vir para cá. Vocês sabem, todos vocês, que só precisam me seguir e obedecer minhas ordens. Não façam perguntas; vocês estão sendo bem pagos; basta saberem disso. Falem o mínimo possível. Vocês não me conhecem, e eu não lhes conheço. Quanto menos cada homem conhecer de seus companheiros, melhor para todos. Assim que nossa tarefa estiver completa, a gente se dispersa, cada homem por si. Entendido?

Dez cabeças encapuzadas balançaram sombriamente à luz da lanterna. Mas eu recuei em minha cadeira, me envolvendo mais ainda no manto; ele foi mais entendido do que sabia. Eu tinha escutado aquela voz, em circunstâncias impossíveis de serem esquecidas; era a voz que havia gritado ordens aos assassinos de Guiscard de Clisson, enquanto eu estava ferida numa fenda do penhasco e os repelia com minhas pistolas. O homem que comandava esses vilões contra os quais eu lutara era Renault d’Valence, o homem que queria minha vida.

Quando seus olhos de aço, ardendo dentro da máscara, passaram por nós, eu inconscientemente me retesei, agarrando o cabo de minha espada sob meu manto. Mas ele não me reconheceria em meu disfarce, nem que ele fosse o próprio Satã.

Gesticulando para Jehan, meu inimigo se levantou e caminhou até o painel pelo qual havia entrado. Jehan acenou para nós, e seguimos d’Valence pela abertura em fila única, como uma procissão de silenciosos fantasmas negros. Atrás de nós, Jehan apagou a lanterna e nos seguiu. Tateamos nosso caminho em total escuridão por um curto espaço de tempo, e logo uma porta se abriu e os ombros largos de nosso líder se emolduraram por um instante contra as estrelas. Saímos num pequeno pátio atrás da taverna, onde 12 cavalos pastavam inquietos e escavavam o chão. O meu estava entre eles, embora eu houvesse dito ao criado para alojá-lo no estábulo. Evidentemente, todo mundo na taverna da Meia Lua estava sob suas ordens.

Sem uma só palavra, montamos e seguimos d’Valence pelo pátio e para dentro de uma trilha que guiava através da floresta. Cavalgávamos em silêncio, exceto pelo bater dos cascos dos cavalos no chão duro, e o ocasional ranger de couro ou tinir de arreios. Tomávamos a direção oeste, para a costa, e logo a floresta se diluía em moitas e árvores dispersas, e a vereda diminuía e desaparecia num labirinto de arbustos. Aqui já não cavalgávamos em fila única, mas num grupo irregular. Para onde cavalgávamos, eu não sabia nem me importava muito. Devia ser algum trabalho do Duque d’Alencon, vez que seu braço-direito d’Valence estava no comando. Mas eu sabia que, enquanto d’Valence vivesse, minha vida e a de Etienne não valeriam uma peça de cobre quebrado.

Estava escuro. A lua ainda não havia se erguido, e as estrelas estavam ocultas por massas rolantes de nuvens, as quais, embora nem turbulentas nem muito negras, ainda ocultavam a luz do céu em seu incessante rolar de horizonte a horizonte. Um vento noturno gemia através das árvores, enquanto eu lentamente movia meu cavalo cada vez mais perto do de Renault d’Valence, agarrando meu punhal sob meu manto.

Agora, eu estava parando ao lado dele, e o ouvi murmurar para Jehan, que cavalgava emparelhado com ele:

- Ele foi um idiota em desrespeitá-la, quando ela podia torná-lo mais grandioso que o rei da França. Se Roger Hawksly...

Erguendo-se em meus estribos, enfiei meu punhal entre seus ombros, com toda a força de tendões preparados para uma tarefa desesperada. Sua respiração se extinguiu numa arfada, ele caiu de ponta-cabeça da sela e, naquele instante, dei a volta com meu cavalo, puxando-o pelas rédeas, e o esporeei fortemente.

Com um erguer e mergulhar desesperado, ele correu precipitadamente através das figuras que nos cercavam, derrubando cavalos e cavaleiros para os lados; mergulhou através das moitas e foi embora, enquanto eles tateavam por suas lâminas.

Atrás de mim, ouvi pragas e gritos sobressaltados, o tinir do aço, a voz de Jehan bradando maldições e d’Valence, sufocado e ofegante, rosnando ordens. Amaldiçoei minha sorte. Mesmo com o impacto do golpe, eu sabia que havia falhado. D’Valence usava uma camisa de cota-de-malha sob seu gibão, assim como eu. O punhal havia quase dobrado nele, sem feri-lo. Foi somente a força terrível do golpe que o derrubara, meio sem sentidos, do seu cavalo. E, conhecendo o homem como eu conhecia, eu sabia que ele provavelmente estaria logo em meu rastro, a não ser que sua outra ocupação fosse urgente demais para permiti-lo – e seu negócio teria que ser deveras urgente para interferir na vingança pessoal de d’Valence.

Além disso, se Jehan contasse a ele que “La Balafre” era uma jovem de cabelos ruivos, ele certamente reconheceria sua velha inimiga Agnes de Chastillon.

Então, soltei as rédeas do cavalo e cavalguei num galope arrojado, sobre extensões cobertas por moitas e através de bosques dispersos, esperando a qualquer momento ouvir o rufar de cascos de cavalos atrás de mim. Cavalguei para o sul, em direção à estrada onde fiquei de encontrar Etienne Villiers, e cheguei até ela mais rápido do que eu esperava. A estrada corria na direção oeste até a costa, e havíamos seguido paralelamente o curso dela.

Talvez a uma milha na direção oeste ficasse uma cruz de pedra, ao lado da estrada, onde esta se dividia – uma bifurcação correndo para oeste, e a outra para sudoeste –, e era lá que ocorreria o encontro.

Etienne Villiers. Faltavam algumas horas até a meia-noite, e eu não pretendia esperá-lo em local aberto até ele chegar, para que d’Valence não viesse primeiro. Assim, quando cheguei até a cruz, eu me escondi entre as árvores que cresciam lá, num denso amontoado, e me sentei para aguardar meu camarada.

A noite estava quieta, e eu não ouvia sons de perseguição; esperava que, se os sicários houvessem me perseguido, eles tenham me perdido na escuridão, a qual era uma fácil enganadora.

Amarrei meu cavalo em meio às árvores e, eu mal havia me acocorado entre as sombras da beira da estrada, quase ouvi o rufar de cascos. Mas este barulho veio do sudoeste, e era apenas um cavalo. Agachei-me ali, de espada na mão, enquanto o rufar ficava cada vez mais alto e próximo; e logo, a lua ascendente, despontando através das nuvens rolantes, mostrou um cavaleiro galopando ao longo da estrada branca, seu manto ondulando atrás dele. E reconheci a figura esbelta e o gorro emplumado de Etienne Villiers.


2) Como uma Amante do Rei se Ajoelhou Para Mim

ELE PAROU diante da cruz, e praguejou entre dentes, falando em voz suavemente alta, como de costume:

- Muito cedo; faltam horas. Bem, eu a esperarei aqui.

- Você não precisará esperar muito. – eu disse, saindo das sombras.

Ele girou em sua sela, pistola na mão, e logo riu e desmontou.

- Por Saint Denis, Agnes. – ele disse – Eu não deveria me surpreender em lhe encontrar em qualquer lugar, a qualquer hora. O que, um cavalo? E não é um cavalo esquelético! E um belo manto novo! Por Satã, amiga, você teve sorte... foram os dados ou a espada?

- A espada. – respondi.

- Mas por que chegou aqui tão cedo? – ele perguntou – O que isto pressagia?

- Que Renault d’Valence não está longe de nós. – respondi e ouvi sua respiração sibilar entre dentes, e vi sua mão se fechar novamente ao redor da coronha da pistola. Então, eu o contei rapidamente o que havia acontecido e ele balançou a cabeça.

- O Diabo tome conta dele. – ele murmurou – Renault é duro de matar. Mas ouça: tenho uma história estranha para contar e, até que eu a termine, este lugar é tão bom quanto outro. Aqui podemos olhar e ouvir, e a morte não pode deslizar sobre nós por trás de portas fechadas e através de corredores secretos. E, quando minha história for contada, devemos chegar a um acordo sobre nosso próximo ato, pois não podemos mais contar com Roger Hawksly.

“Ouça: noite passada, logo ao erguer da lua, eu me aproximei de uma pequena baía isolada, na qual eu sabia que o inglês havia ancorado. Nós, velhacos, temos meios de conhecer segredos, como você sabe, Agnes. A costa nos arredores é acidentada, com penhascos, promontórios e enseadas. A baía em questão é cercada por árvores, que crescem sob inclinações acidentadas até a própria beira da água. Andei furtivamente através delas, e vi o navio. O Amigo Resoluto estava realmente ancorado, e todos a sua bordo estavam aparentemente em sono embriagado. Esses piratas são tolos, especialmente o inglês, que mantém baixa vigilância. Eu podia ver homens estirados no convés, com barris quebrados perto deles, e julguei que aqueles que deveriam estar de vigia haviam se embriagado até ficarem indefesos.

“Então, enquanto eu ponderava se os chamava ou se nadava até o navio, ouvi o som abafado de remos e vi três lanchas darem a volta no promontório e se precipitarem sobre o navio silencioso. Os botes estavam apinhados de homens, e eu vi o brilho de aço ao luar. Sem serem vistos pelos piratas adormecidos, eles pararam ao lado do navio, e eu não sabia se gritava ou ficava quieto, pois achei que pudesse ser Roger e seus homens retornando de algum ataque-surpresa.

“Ao luar, eu os vi subirem aos montes pelas correntes do navio: ingleses, sem dúvida, vestidos com roupas de marinheiros comuns. Então, enquanto eu os olhava, um dos bêbados no convés acordou, ficou boquiaberto e logo se ergueu subitamente, cambaleando e gritando um aviso. De dentro do porão e da cabine, saíram correndo Roger Hawksly e seus homens em suas camisas, meio adormecidos, agarrando espantados suas armas; e, sobre o parapeito, se aglomeravam aqueles recém-chegados, que caíam sobre os piratas de espada na mão.

“Foi mais um massacre do que uma luta. Os piratas, meio adormecidos e evidentemente meio bêbados também, foram quase todos mortos. Vi seus corpos lançados ao mar. Uma minoria mergulhou na água e nadou até a praia, mas a maioria morreu.

“Então, os vitoriosos içaram âncora e alguns deles, retornando para os botes, rebocaram o Amigo Resoluto para fora da enseada e, olhando de onde eu estava, logo o vi estender suas velas e sair ao mar. Em seguida, outro navio deu a volta no promontório e o seguiu.

“Nada sei dos sobreviventes da tripulação pirata, pois eles fugiram para dentro da floresta e desapareceram. Mas Roger Hawksly não é mais dono de um navio e, se ele vive ou morreu, eu não sei, mas temos de encontrar outro homem que nos leve até a Itália.

“Mas há um mistério nisso: alguns dos ingleses que se apossaram do Amigo Resoluto não eram mais do que marinheiros rudes. Mas outros não eram. Eu entendo Inglês; reconheço uma voz de alta linhagem quando a ouço, e calças de alcatrão nem sempre conseguem esconder uma classe social elevada de um olho agudo. A lua estava brilhante como o dia. Agnes, aqueles marujos eram liderados por nobres disfarçados em roupas comuns”.

- Por quê? – perguntei.

- Sim; por quê? É fácil ver como o truque foi feito. Eles navegaram até o promontório, onde ancoraram fora da vista da enseada, e mandaram homens em botes para tomarem a presa deles. Mas por que correr tal risco? A sorte estava de um lado; do contrário, Hawksly e seus lobos-do-mar estariam sóbrios e alertas, e os teriam expulsado da água quando chegassem. Mas há também outra explicação: discrição. Isto também explica os nobres em camisas e calças de marujos. Por algum motivo, alguém desejava destruir os piratas rápida, silenciosa e secretamente. Qual o motivo para isso, eu não sei, vez que Hawksly era um homem odiado tanto por franceses quanto ingleses.

- Ora, quanto a isso... Ouça!

Na estrada, da direção leste, soava o bater de cascos em corrida. Nuvens haviam rolado novamente sobre a lua, e estava escuro como Érebo (*).

- D’Valence! – sibilei – Ele está me seguindo... e sozinho. Dê-me uma pistola! Ele não vai escapar desta vez!

- É melhor termos certeza de que ele está só. – advertiu Etienne, enquanto me entregava uma pistola.

- Está só. – rosnei – É apenas um cavaleiro... mas, se o próprio Diabo cavalgasse com ele... há!

Uma forma veloz avultava na noite; naquele instante, um único raio de lua atravessou as nuvens e iluminou fracamente o cavalo galopante e seu cavaleiro. E atirei à queima-roupa.

O grande cavalo empinou e caiu de ponta-cabeça, e um grito lastimoso cortou a noite. Foi ecoado por Etienne. Ele havia visto, assim como eu, no clarão do tiro, uma mulher se agarrando às rédeas do cavalo que corria.

Corremos para a frente, vendo uma figura esguia se mover no chão ao lado do cavalo – uma figura que se ajoelhava e erguia indefesa os braços, choramingando de medo.

- Você está ferida? – ofegou Etienne – Meu Deus, Agnes, você matou uma mulher...

- Acertei o cavalo. – respondi – Ele ergueu a cabeça no momento em que atirei. Aqui, deixe-me cuidar dela!

Curvando-me sobre ela, eu lhe ergui o rosto, um pálido oval na escuridão. Sob meus dedos calejados, suas roupas e pele pareciam suaves e maravilhosamente finas.

- Está gravemente ferida, moça? – indaguei.

Mas, ao som de minha voz, ela soltou um grito ofegante e lançou seus braços ao redor de meus joelhos.

- Oh, você também é uma mulher! Tenha piedade! Não me machuque! Por favor...

- Pare de choramingar, rapariga! – ordenei impacientemente – Não há nada para lhe ferir. Seus ossos estão quebrados por causa da queda?

- Não, eu só estou machucada e abalada. Mas... oh, meu pobre cavalo...

- Eu lamento. – murmurei – Não mato animais voluntariamente. Eu estava apontando para seu montador.

- Mas por que você me mataria? – ela chorou – Não lhe conheço...

- Sou Agnes de Chastillon – respondi –, a quem alguns homens chamam Agnes, a Escura de La Fere. Quem é você?

Eu a havia erguido de pé e soltado, e agora, enquanto ela se erguia diante de nós, a lua irrompeu subitamente das nuvens e inundou a estrada com luz prateada. Olhei maravilhada para as vestes de nossa cativa e para a beleza de seu rosto oval, emoldurado numa glória de cabelo que parecia espuma escura; seus olhos escuros brilhavam como jóias negras ao luar. E um grito estrangulado veio de Etienne.

- Minha senhora! – Ele tirou o gorro emplumado e se ajoelhou – Ajoelhe-se, Agnes; ajoelhe, garota! É Françoise de Foix!

- Por que uma mulher honesta iria se ajoelhar para uma rameira real? – indaguei, enfiando meus polegares em meu cinto, e abrindo e firmando minhas pernas enquanto a encarava.

Etienne ficou subitamente mudo, e a jovem parecia se encolher diante de minha sinceridade camponesa.

- Levante-se, eu lhe imploro. – ela disse humildemente a Etienne, e ele o fez, de gorro na mão.

- Mas isto foi imprudente demais, minha senhora. – ele disse – Ter vindo sozinha e à noite...

- Oh! – ela gritou subitamente, agarrando as têmporas, como se lembrada de sua missão – Agora mesmo, eles devem estar matando-o. Oh, senhor, se você for um homem, ajude-me!

Ela agarrou Etienne pelo gibão e o sacudiu, na angústia de sua insistência.

- Escute! – ela suplicou, embora Etienne fosse todo ouvidos – Vim aqui esta noite, sozinha como você vê, para tentar consertar um erro e salvar uma vida.

“Você me conhece como Françoise de Foix, a amante do rei...”.

- Eu já lhe vi na corte, onde eu nunca fui sempre um estranho. – disse Etienne, falando com uma estranha dificuldade – Eu lhe conheço como a mais bela mulher de toda a França.

- Eu lhe agradeço, meu amigo. – ela disse, ainda se agarrando a ele – Mas o mundo vê pouco do que acontece por trás das portas do palácio. Dizem que eu manipulo o rei, Deus me ajude... mas eu juro que sou apenas um peão num jogo que não conheço... a escrava de uma vontade maior que a de Francis.

- Louise de Savoy. – murmurou Etienne.

- Sim, a qual, através de mim, governa o filho dela e, através dele, toda a França. Foi ela quem fez de mim o que sou. Do contrário, eu seria, não a amante de um rei, mas a esposa honesta de algum homem honesto.

“Ouça, meu amigo; oh, ouça e acredite em mim! Esta noite, um homem está cavalgando em direção à costa e à morte! E a carta que o atraiu para lá foi escrita por mim! Oh, sou uma coisa detestável, para servir deste modo a alguém que... que me ama...

“Mas não sou dona de minha própria vontade. Sou a escrava de Louise de Savoy. O que ela me ordena fazer, ou eu faço ou pago por isso. Ela me domina, e eu não ouso me opor a ela. Esse... esse homem estava em Alencon, quando recebeu a carta suplicando a ele que me encontrasse numa certa taverna próxima à costa. Ele só foi por minha causa, pois ele conhece seus poderosos inimigos. Mas ele confia em mim... oh, Deus tenha piedade de mim!”.

Ela soluçou histericamente por um instante, enquanto eu assistia surpresa, pois eu jamais conseguiria chorar em toda a minha vida.

- É uma conspiração de Louise. – ela disse – Ela outrora amou este homem, mas ele a desprezou, e ela planeja a ruína dele. Ela já o despojou de títulos e honra; agora, ela o quer despojar da própria vida.

“Na taverna do Falcão, ele será encontrado, não pela minha miserável pessoa, mas por um bando de sicários pagos, os quais lhe matarão os servos, o levarão prisioneiro e entregarão ao pirata Roger Hawksly, o qual foi bem pago para se livrar dele para sempre”.

- Por que tanto planejamento e trabalho elaborado? – indaguei – Certamente, uma adaga nas costas também poria fim à tarefa.

- Nem mesmo Louise ousa ser tão aberta. – ela respondeu – O... o homem é muito poderoso...

- Só existe um homem na França, a quem Louise odeia tão ferozmente. – disse Etienne, olhando fundo nos olhos de Françoise. Ela curvou a cabeça, e depois a ergueu e devolveu o olhar com seus brilhantes olhos escuros.

- Sim! – ela falou de forma simples.

- Um golpe para a França – murmurou Etienne –, se ele falhasse... mas, minha senhora: Roger Hawksly não estará lá para recebê-lo. – E ele contou rapidamente o que havia visto na costa.

- Então os sicários irão matá-lo pessoalmente. – ela disse com um estremecimento – Eles jamais ousarão deixá-lo partir. São liderados por Jehan, o braço-direito de Louise...

- E por Renault d’Valence. – murmurou Etienne – Agora vejo tudo; você esteve com aquele bando, Agnes. Eu me pergunto se d’Alencon sabe da conspiração.

- Não. – respondeu Françoise – Mas Louise planeja alçá-lo ao mesmo posto de sua vítima; por isso, usa seu homem de maior confiança, Renault d’Valence, para seus planos. Mas, oh, estamos perdendo tempo! Por favor, não vão me ajudar? Cavalguem comigo até a taverna do Falcão. Talvez possamos resgatá-lo... talvez possamos alcançá-lo a tempo de afastá-lo dali antes que eles cheguem. Eu saí às escondidas, e cavalguei a noite inteira a toda velocidade... por favor; ajude-me, por favor!

- Françoise de Foix nunca precisou pedir duas vezes para Etienne Villiers. – disse Etienne, naquela estranha voz não-natural, erguendo-se ao luar, gorro na mão. Talvez fosse a lua, mas havia uma estranha expressão em seu rosto, suavizando as linhas de sarcasmo e vida selvagem, e fazendo-o parecer outro homem, mais nobre.

- E você, mademoiselle! – A beldade da corte se voltou para mim, com seus braços estendidos – Você não quer se ajoelhar para mim, Agnes Escura. Veja; eu me ajoelho para você!

E assim ela o fez – ajoelhada no pó, suas mãos brancas entrelaçadas e seus olhos escuros brilhando com lágrimas.

- Levante-se, garota. – eu disse constrangida, envergonhada por algum motivo indistinto – Não se ajoelhe para mim. Farei tudo o que puder. Nada sei de intrigas da corte, e o que você me contou zumbe em minha cabeça até me deixar tonta, mas o que pudermos fazer, faremos!

Com um soluço, ela se levantou, lançou seus braços macios ao redor do meu pescoço e me beijou nos lábios, me deixando mais envergonhado ainda. Era a primeira vez em que eu me lembrava de qualquer pessoa me beijando.

- Venha. – eu disse asperamente – Estamos perdendo tempo.

Etienne ergueu a jovem até a sela de seu cavalo e montou atrás dela, e eu montei o grande cavalo negro.

- O que planeja? – ele me perguntou.

- Não tenho planos. Seremos guiados pelas circunstâncias que nos confrontam. Cavalgaremos o mais rápido possível para a Taverna do Falcão. Se Renault perdeu muito tempo procurando por mim... como, sem dúvida, fez... ele e seus sicários podem ainda não terem alcançado a taverna. Se eles alcançaram... bem, nós somos apenas duas espadas, mas podemos fazer nosso melhor.

E assim, me pus a recarregar a pistola que eu havia tomado de Etienne, e era uma tarefa tediosa, na escuridão e trabalhando duro. Assim, não sei qual a conversa que houve entre Etienne e Françoise de Foix, mas o murmúrio de suas vozes me alcançava de tempos em tempos, e na voz dele havia uma suavidade desconhecida – estranha num velhaco como Etienne Villiers.

Então, nós finalmente alcançamos a taverna do Falcão, a qual avultava rígida contra a noite, escura exceto por uma única lanterna na sala principal. O silêncio reinava completamente, e havia o cheiro de sangue recém-derramado.

Na estrada diante da taverna, jazia um homem em farda de criado, seu rosto branco encarando as estrelas e salpicado de sangue. Próxima à porta, jazia uma forma num manto negro; e os fragmentos de uma máscara negra, encharcada de sangue, jaziam ao lado dela, assim como um chapéu emplumado. Mas as feições do homem não passavam de uma máscara horrível de carne cortada, retalhada e irreconhecível.

Logo dentro da porta, jazia outro criado, seus miolos escorrendo da cabeça esmagada e um cabo quebrado de espada ainda agarrado por sua mão. O interior da taverna era uma desolação de bancos quebrados e mesas esmagadas, com grandes gotas de sangue sujando o chão. Um terceiro criado jazia contorcido no canto, seu gibão ensangüentado mostrando uma dúzia de furos de espada. Sobre tudo, o silêncio pairava como uma mortalha.

Françoise caíra com um gemido, ao ver o horror de tudo aquilo, e agora Etienne meio a guiava, meio a carregava nos braços.

- Renault e seus degoladores estiveram aqui. – ele disse – Eles pegaram sua presa e partiram. Mas para onde? Todos os servos teriam fugido aterrorizados, não retornando até o amanhecer.

Mas, perscrutando aqui e ali, de espada na mão, vi algo escondido sob um banco derrubado e, puxando-o para fora, descobri uma aterrorizada serva jovem, a qual caiu de joelhos e gritou por misericórdia.

- Pare com isso, rapariga. – eu disse impacientemente – Ninguém lhe fará mal. Mas diga logo o que aconteceu.

- Os homens mascarados. – ela choramingou – Eles entraram subitamente pela porta...

- Você não ouviu os cavalos deles? – indagou Etienne.

- Renault iria avisar sua vítima? – perguntei impacientemente – Sem dúvida, deixaram suas montarias a pouca distância daqui e vieram silenciosamente a pé. Prossiga, garota.

- Atacaram o cavaleiro e seus servos. – ela chorou ruidosamente – O cavalheiro que havia chegado ao início desta noite e que se sentou silenciosamente para beber seu vinho, e parecia em dúvida e reflexão. Quando os mascarados entraram, ele se ergueu de um pulo e gritou que foi traído...

- Oh! – Era um grito de tormento de Françoise de Foix. Ela apertou as mãos e se torceu, como se agonizasse.

- Então, houve luta, matança e morte. – lamentou a criada – Mataram os servos do cavalheiro, e o amarraram e levaram...

- Foi ele quem desfigurou o sicário que jaz do lado externo da porta? – indaguei.

- Não; ele o matou com uma bala de pistola. O líder dos mascarados, o homem alto que usava uma camisa de cota-de-malha sob seu gibão... ele despedaçou o rosto do morto com a espada...

- Sim. – murmurei – D’Valence não desejaria deixá-lo ser identificado.

- E este mesmo homem, antes de partir, enfiou a espada em cada um dos servos moribundos, para ter certeza de que estavam mortos. – ela soluçou aterrorizada – Eu me escondi sob o banco e assisti, pois estava aterrorizada demais para correr, como fez o dono da taverna e os outros criados.

- Para qual direção eles foram? – exigi, sacudindo a desventurada garota em minha intensidade.

- Por... por ali! – ela arfou, apontando – Pela velha estrada até a costa.

- Você, por acaso, ouviu algo que possa dar uma pista sobre o destino deles?

- Não... não... eles falaram pouco, e eu estava muito assustada.

- Pelos cascos do diabo, garota! – exclamei furiosa – Tal trabalho nunca é feito em silêncio. Pense melhor... lembre-se de algo que disseram, antes que eu lhe deite em meus joelhos.

- Tudo o que me lembro – ela ofegou – é o que o líder alto disse ao pobre cavalheiro, quando o amarraram... tirando seu elmo numa majestosa reverência: “Meu senhor”, ele disse, zombeteiro, “seu navio lhe aguarda!”.

- Eles certamente queriam colocá-lo a bordo do navio. – exclamou Etienne – E o lugar mais próximo para o desembarque de um navio é a Enseada do Corsário! Eles não devem estar muito longe de nós. Se eles seguiram a velha estrada... como certamente fariam, sem conhecerem a região como eu... isso tirará deles meia hora a mais para alcançarem a cova do que de nós, seguindo um atalho que conheço.

- Então vamos! – gritou Françoise, novamente reanimada pela esperança de ação. E, poucos momentos depois, cavalgávamos pelas sombras em direção à costa. Seguíamos uma trilha indistinta, cuja entrada era oculta por densas moitas e que serpenteava por uma aresta rochosa, descendo para o mar entre matacões e árvores retorcidas.

Assim, chegamos a uma enseada, cercada por inclinações ásperas e densamente arborizada; e, através das árvores, vimos o lampejo de água e o tremeluzir da lua furtiva em velas largas. E, deixando nossos cavalos – e Françoise com eles – engatinhamos para a frente, Etienne e eu, e logo vimos uma praia aberta, iluminada pela lua, a qual, àquela hora, brilhava através das nuvens encaracoladas.

Sob as sombras das árvores, havia um grupo de silhuetas negras e sombrias e, para fora de um bote, recém-puxado para a praia (ainda podíamos ver a espuma flutuando na água que remoinhara em seu rastro), se movia uns 20 homens em roupa de marujo. Mais distante no mar, havia um navio com o luar brilhando em seu acabamento dourado. Etienne praguejou em voz baixa.

- Lá está o Amigo Resoluto, mas aquela não é sua tripulação. Eles são comida para os peixes. Esses são os homens que o tomaram. Que jogo do diabo é esse?

Vimos um homem sendo empurrado para a frente pelos sicários mascarados – um homem alto e bem-formado, que, mesmo com a camisa rasgada e manchado de sangue, e com os braços amarrados para trás, tinha o porte de um líder entre homens.

- Por Saint Denis. – cochichou Etienne – É ele mesmo.

- Quem? – eu indaguei – Quem é esse sujeito para cujo resgate arriscaremos nossas vidas?

- Charles... – ele começou, e logo se interrompeu: – Ouça!

Havíamos nos retorcido para mais perto, e a voz de Renault d’Valence chegou claramente até nós:

- Não, não foi esse o acordo. Eu não lhe conheço. Deixe que Roger Hawksly, seu capitão, desembarque. Quero ter certeza de que ele conhece as instruções.

- O Capitão Hawksly não pode ser incomodado. – respondeu um dos marinheiros em Francês com sotaque; era um homem alto, com porte orgulhoso – Não precisa temer; lá, é o Amigo Resoluto; aqui, os valentões de Hawksly. Você nos deu o prisioneiro. Nós o levaremos a bordo e zarparemos. Você fez sua parte; agora, faremos a nossa.

Eu arregalava os olhos em fascinação, por nunca antes ter visto ingleses. Aqueles eram todos homens altos e robustos, com espadas grandes afiveladas em seus quadris, e aço brilhando sob seus gibões. Eu nunca tinha visto tais marinheiros de aparência orgulhosa, nem marujos tão bem-armados. Eles haviam capturado o homem a quem Etienne chamara de Charles, e o arrastavam até o bote – aquele trabalho parecia ser supervisionado por um homem corpulento num manto vermelho.

- Sim – disse Renault –; o Amigo Resoluto fica lá. Eu o conheço bem; do contrário, eu jamais entregaria meu prisioneiro a você. Mas não lhe conheço. Chame o Capitão Hawksly, ou traga meu prisioneiro de volta.

- Chega! – o outro exclamou arrogantemente – Já disse que Hawksly não pode vir. Você não me conhece...

Mas d’Valence, que ficara escutando atentamente a voz do outro, gritou aguda e ferozmente:

- Não, por Deus, acho que lhe conheço, meu senhor! – E, arrancando a touca de marinheiro que o homem usava, ele viu um gorro de aço por baixo, sobre um orgulhoso rosto aquilino.

- Então! – exclamou d’Valence – Você queria pegar meu prisioneiro, mas não para matá-lo, e sim para usá-lo como um porrete sobre a cabeça de Francis! Eu posso ser um patife, mas trair o meu rei... jamais!

E, agarrando uma pistola, ele atirou a queima-roupa, não no lorde, mas no prisioneiro Charles.

Mas o inglês lhe empurrou o braço para cima, e a bala foi desviada.

No instante seguinte, tudo era tumulto e confusão, quando os sicários de Renault entraram correndo em resposta aos seus tiros, e os ingleses os enfrentaram corpo-a-corpo. Vi as lâminas brilharem e relampejarem ao luar, enquanto Renault e o lorde inglês lutavam, e subitamente a espada de Renault estava tingida de vermelho e o inglês estava caído, expirando sua vida sobre a areia.

Agora eu via que os homens que haviam arrastado o prisioneiro Charles haviam corrido para dentro do conflito, deixando-o nas mãos do homem corpulento em manto vermelho, que o arrastava, apesar dele se debater, em direção ao bote que fora trazido à praia. Agora eu ouvia o ruído de toletes e, olhando em direção ao navio, vi outros três botes se dirigirem à praia.

Mas, enquanto olhava, eu sussurrei para Etienne e saímos do esconderijo, correndo silenciosamente através da extensão de areia branca, em direção ao par que se debatia perto da praia. Por todo o nosso redor rugia a luta, enquanto os sicários – superados numericamente, porém perigosos como lobos – retalhavam, desviavam golpes e estocavam junto com os indiferentes ingleses.

Quando entramos na luta, os ingleses correram em direção a cada um de nós. Etienne atirou e errou – pois o luar é ilusório –, e, no momento seguinte, estava lutando espada a espada. Não atirei antes que a boca de minha pistola quase tocasse o peito de meu inimigo e, quando puxei o gatilho, a pesada bala lhe atravessou a cota-de-malha sob o gibão como se fosse papel, e a espada erguida caiu inofensiva sobre a areia.

Mais algumas passadas me levaram a Charles e seu captor, mas, enquanto eu os alcançava, alguém ficou diante de mim. Enquanto homens lutavam, matavam e praguejavam loucamente, d’Valence nunca perdia a visão de seu objetivo. Percebendo que não conseguiria recapturar seu prisioneiro, ele estava disposto a matá-lo.

Agora ele havia aberto seu caminho através da briga, e corria com propósitos sombrios através das areias, sua espada gotejante na mão. Correndo em direção ao prisioneiro, ele deu um talho assassino em direção à sua cabeça desprotegida. O golpe foi detido desajeitadamente pelo homem corpulento de manto vermelho, que começou a berrar por ajuda, numa voz ofegante e com pouco fôlego, a qual não foi notada na gritaria da confusão. Ele havia detido tão inadequadamente, que a espada lhe foi arrancada da mão. Mas, antes que d’Valence pudesse golpear de novo, eu me aproximei silenciosa e rapidamente pelo lado, e estoquei em sua direção com toda a minha força, visando lhe furar o pescoço acima da armadura. Mas a sorte me traiu novamente: meu pé escorregou na areia, e a ponta da espada lhe raspou inofensivamente a malha.

Instantaneamente, ele se virou e me reconheceu. Havia perdido sua máscara, e seus olhos dançavam com uma espécie de loucura indiferente, sob o luar.

- Por Deus! – ele gritou, com uma risada feroz – É a vadia espadachim ruiva.

Enquanto falava, ele detia minha lâmina sibilante e, sem mais palavras, nos colocamos a trabalhar, girando e estocando. Ele tirou sangue da minha mão da espada e de minha coxa, mas eu o golpeei com tal fúria que minha lâmina lhe atravessou o morion e o couro cabeludo sob este, de modo que o sangue lhe brotou sob a borguinhota e lhe escorreu pelo rosto. Outro golpe como esse teria dado fim a ele, mas ele, olhando rapidamente para o lado, viu que a maioria de seus sicários estava morta, e ele numa situação desesperadora. Assim, com outra risada selvagem, ele pulou para trás, saltou para o lado; abriu seu caminho através de quem tentasse matá-lo, com meia dúzia de golpes fracassados, e, escapado de um salto, ele desapareceu dentro das sombras, das quais logo emergiu o ruído de um cavalo correndo.

Agora, eu corria até o prisioneiro, cujo braço o homem corpulento em vermelho ainda agarrava, ofegando e arfando, e, cortando as cordas que lhe amarravam o braço, eu o empurrei em direção à floresta. Mas fui tão férrea que meu empurrão foi mais forte do que eu pretendia, e o deixei estatelado de quatro.

O homem de manto vermelho guinchou selvagemente e saltou para agarrar novamente seu prisioneiro, mas eu o pus de lado com uma bofetada e, erguendo Charles, eu o mandei correr. Mas ele parecia meio atordoado por um golpe ao acaso da parte plana de uma lâmina na cabeça. Mas agora Etienne, com a espada gotejando vermelho, correu para diante e, agarrando o braço do prisioneiro, o apressou em direção à floresta.

E o homem de manto vermelho, evidentemente desesperado, recorreu às táticas de d’Valence, pois, erguendo sua espada, ele correu até as costas de Charles e deu um talho em sua direção. Mas, enquanto ele o fazia, eu o golpeei sob a axila com tal força que ele rolou na areia, gritando como um porco atravessado. Agora, vários dos ingleses paravam em suas corridas à minha direção, gritavam de horror e corriam para erguer o sujeito; pois alguns dos anéis de seu colete de malha haviam se partido sob minha lâmina, e ele havia sido levemente ferido, de modo que o sangue lhe escorria do gibão.

Eles gritaram um nome que soou como “Wolsey”, e interromperam sua perseguição para levantá-lo e cuidar de seu ferimento, enquanto ele os xingava. E eu e Etienne carregamos o homem resgatado, entre nós dois, para dentro da floresta e para os cavalos onde Françoise nos aguardava.

Ela se erguia como uma sombra branca sob as árvores mosqueadas pela lua e, quando ele a viu, recuou com uma exclamação.

- Oh, Charles – ela exclamou –; tenha piedade! Não tive escolha...

- Confiei em você mais do que nos outros. – ele disse, mais triste do que com raiva.

- Meu Senhor Duque de Bourbon – disse Etienne, tocando-lhe o ombro –; é meu privilégio lhe contar que qualquer erro cometido foi consertado esta noite tão bem quanto possível. Se Françoise de Foix lhe traiu, ela arriscou a vida para lhe resgatar. Agora eu lhes imploro: peguem estes cavalos e montem, pois ninguém sabe qual pode ser o próximo acontecimento. Era o Cardeal Wolsey quem liderava aqueles homens, e ele não é fácil de ser derrotado.

Como um homem num sonho, o Duque de Bourbon montou, e Etienne ergueu Françoise de Foix até a outra sela. Eles se afastaram a galope, cavalgaram através do luar e então desapareceram. E eu me virei para Etienne.

- Bem – eu disse –, com todo o nosso cavalheirismo, estamos aqui de volta a onde começamos, sem dinheiro nem meios de alcançar a Itália; e mais, você ainda se desfez de seu cavalo! Qual será a nossa próxima aventura?

- Eu tive Françoise de Foix em meus braços. – ele respondeu – Depois disso, qualquer aventura não passa de anticlímax para Etienne Villiers.


FIM



(*) – Érebo: Morada provisória dos mortos, na mitologia grega (Nota do Tradutor).

Fonte:http://www.vb-tech.co.za/ebooks/Howard%20Robert%20E%20-%20Blades%20For%20France%20-%20FF.txt

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Re: Contos de Howard - Espadas para a França

Mensagem por Siegfried em Sex Jan 13, 2012 1:26 pm

Que beleza esses materias que estás postando rogério! facilita muito para quem quer conhecer os originais, porque não precisa baixar nem nada, entra na comu e tá na mão, além do nosso material ficar disponível nas buscas do Google...

No podcast da galera aquela que tu postou, eles disseram que tinha contos de Howard já em domínio publico no gutenberg.org, que inclusive eu já conhecia, mas não baixei muita coisa porque a maioria está na língua original, esses contos que postaste tiraste de lá ou de outro lugar?

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Re: Contos de Howard - Espadas para a França

Mensagem por Rogerio Rocha em Sex Jan 13, 2012 5:38 pm

São de lá também Sieg, inclusive nesse final de semana postarei outros materiais, pois terei mais tempo, e vou incluir uns poemas também.

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Re: Contos de Howard - Espadas para a França

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