Conan, o Cimério
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Contos de Howard - A Filha de Erlik Khan (Originalmente publicado em Top Notch, 1934).

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Contos de Howard - A Filha de Erlik Khan (Originalmente publicado em Top Notch, 1934).

Mensagem por Rogerio Rocha em Ter Jan 10, 2012 9:20 pm

Originalmente publicado em Top Notch, dezembro de 1934.

1)

O INGLÊS ALTO, chamado Pembroke, riscava linhas na terra, com sua faca de caçar, conversando num tom brusco que indicava agitação reprimida:
- Eu lhe digo, Ormond; aquele pico a oeste é o que estamos procurando. Tracei um mapa na areia. Esta marca aqui representa nosso acampamento, e essa outra um pico. Já marchamos o suficiente para norte. Neste ponto, devemos virar para oeste...
- Silêncio! – murmurou Ormond – Apague esse mapa. Gordon vem chegando.
Pembroke apagou as linhas tênues com um giro rápido de sua mão aberta e, enquanto se erguia com dificuldade, conseguiu arrastar os pés sobre o ponto. Ele e Ormond riam e conversavam tranqüilamente, enquanto o terceiro homem da expedição se aproximava.
Gordon era mais baixo que seus companheiros, mas seu físico não sofria em comparação com Pembroke, de membros longos, ou com o mais compacto, que era Ormond. Ele era um dos raros indivíduos ao mesmo tempo ágeis e compactos. Sua força não dava a impressão de ter movimentos restritos. Ele se movia com uma facilidade fluida, a qual anunciava força mais hábil do que mera massa muscular.
Embora estivesse vestido de forma bem semelhante à dos dois ingleses, exceto pelo turbante árabe, ele se encaixava no cenário, e eles não. Ele, um americano, parecia fazer parte daqueles ásperos terrenos elevados, quase tanto quanto os nômades ferozes que pastoreavam suas ovelhas ao longo das inclinações de Hindu Kush. Havia uma segurança em seu olhar equilibrado e na economia de seus movimentos, a qual refletia familiaridade com regiões selvagens.
- Pembroke e eu estávamos falando sobre aquele pico. – disse Ormond, apontando para a montanha em questão, a qual tinha uma capa de neve no céu claro da tarde, além de uma cadeia de colinas azuis, enevoada pela distância – Estávamos nos perguntando se ele tem um nome.
- Tudo nestas colinas tem um nome. – Gordon respondeu – Alguns deles, no entanto, não aparecem nos mapas. Aquele pico é chamado Monte Erlik Khan. Menos de uma dúzia de homens brancos já o viram.
- Nunca soube disso. – foi o comentário de Pembroke – Se não estivéssemos com tanta pressa em achar o pobre velho Reynolds, seria divertido olhá-lo de perto, não?
- Se ter sua barriga aberta pode ser considerado divertido... – respondeu Gordon – Erlik Khan fica na região dos Kirghiz Negros.
- Kirghiz? Pagãos e adoradores do diabo? A cidade sagrada de Yolgan e toda aquela podridão.
- Não há podridão a respeito de adoração ao diabo. – Gordon respondeu – Estamos agora quase nas fronteiras da região deles. Aqui é uma espécie de terra de ninguém, disputada pelos nômades kirghiz e muçulmanos do leste mais distante. Tivemos sorte de não havermos encontrado nenhum dos primeiros. Eles são um ramo isolado da árvore principal, a qual se centra ao redor de Issik-kul, e eles odeiam homens brancos como se fossem veneno.
“Este é o ponto mais próximo do qual nos aproximamos da região deles. A partir de agora, quando viajarmos para o norte, nos desviaremos dele. Dentro de mais uma semana, no máximo, deveremos estar no território da tribo usbeque, a qual você acredita ter capturado seu amigo”.
- Espero que o velho rapaz ainda esteja vivo. – suspirou Pembroke.
- Quando você me empregou em Peshawar, eu lhe disse temer que fosse uma busca inútil. – disse Gordon – Se aquela tribo capturou mesmo seu amigo, as chances dele estar vivo são mínimas. Só estou lhe avisando, para que você não fique muito desapontado se não o acharmos.
- Somos gratos por isso, velho homem. – respondeu Ormond – Sabíamos que ninguém, além de você, poderia nos conduzir com nossas cabeças ainda sobre nossos ombros.
- Ainda não estamos lá. – comentou Gordon enigmaticamente, movendo o rifle sob o braço – Eu vi sinais de caça, antes de acamparmos, e estou indo ver se consigo matar alguma. Não voltarei antes do anoitecer.
- Indo a pé? – indagou Pembroke.
- Sim; se eu conseguir, trarei um pernil para o jantar.
E, sem mais comentários, Gordon desceu a inclinação ondulada a passos largos, enquanto os outros homens o encaravam silenciosamente.
Ele mais parecia se fundir do que caminhar dentro do bosque, ao pé da inclinação. Os homens se viraram, ainda calados, e olharam de relance para os empregados que se ocupavam de seus afazeres no acampamento – quatro pachtuns e um esguio muçulmano panjabi, o qual era empregado pessoal de Gordon.


O acampamento, com suas tendas desbotadas e cavalos amarrados, era a única mancha de vida senciente, num cenário tão vasto e meditativamente silencioso, que era quase atemorizante. Ao sul, se estendia uma trincheira ininterrupta de colinas, que se erguiam até picos nevados. Lá no norte, se erguia outra cordilheira, mais irregular.
Entre aquelas barreiras, havia uma grande expansão de planalto ondulado, interrompido por picos solitários e cordilheiras menores de colinas, e densamente pontilhado com pequenos bosques de freixos, vidoeiros e lariços. Agora, no início do curto verão, as inclinações estavam cobertas com grama alta e exuberante. Mas aqui, nenhum rebanho era vigiado pelos nômades de turbante, e aquele pico gigante bem ao sudoeste parecia, de alguma forma, sabedor desse fato. Ele pairava como uma sentinela sombria do desconhecido.
- Entre em minha tenda!
Pembroke se afastou rapidamente, gesticulando para que Ormond o seguisse. Nenhum deles notou a intensidade ardente com a qual o panjabi Ahmed os encarava. Dentro da tenda, os homens se sentaram, um de frente para o outro, a ambos os lados de uma pequena mesa. Pembroke pegou lápis e papel, e começou a traçar uma duplicata do mapa que ele havia riscado na areia.
- Reynolds já serviu ao seu propósito, e Gordon também. – ele disse – Foi um grande risco trazê-lo, mas ele era o único homem que poderia nos levar em segurança através do Afeganistão. O valor que aquele americano tem para os maometanos é espantoso. Mas ele não o tem com os kirghiz, e a partir deste momento, não precisamos dele.
“Aquele é o pico que o tadjique descreveu, e ele deu o mesmo nome com o qual Gordon o chamou. Usando-o como guia, não perderemos Yolgan. Iremos diretamente para oeste, um pouco ao norte do Monte Erlik Khan. Não precisamos da orientação de Gordon a partir de agora, e não precisaremos dele para a volta, porque estaremos retornando pelo caminho de Cachemira, e teremos um salvo-conduto ainda melhor que ele. A pergunta agora é: como nos livraremos dele?
- É fácil. – retrucou Ormond; ele tinha uma constituição física mais dura, e era o mais decidido dos dois – Arranjaremos uma briga com ele, e nos recusaremos a continuar em sua companhia. Ele nos mandará ir para o diabo, pegará seu maldito panjabi e retornará a Kabul... ou talvez alguma outra região inculta. Ele passa boa parte do seu tempo perambulando entre regiões que são tabus para quase todos os brancos.
- Ótimo! – aprovou Pembroke – Não queremos lutar contra ele. Ele é diabolicamente rápido demais com uma arma. Os afegãos o chamam de “El Borak”, o Veloz. Eu tinha algo desse tipo em mente, quando preparei uma desculpa pra parar aqui, no meio da tarde. Reconheci aquele pico, você sabe. Vamos deixá-lo pensar que prosseguiremos sozinhos até os usbeques, porque, naturalmente, não queremos que ele saiba que estamos indo para Yolgan...
- O que é isso? – Ormond disse brusca e subitamente, sua mão se fechando na coronha da pistola.
Naquele instante, quando seus olhos se estreitaram e suas narinas se alargaram, ele quase se pareceu com outro homem, como se a suspeita revelasse sua verdadeira – e sinistra – natureza.
- Continue falando. – ele sussurrou – Tem alguém ouvindo do lado de fora da tenda.
Pembroke obedeceu, e Ormond, empurrando silenciosamente sua cadeira de acampamento para trás, pulou subitamente para fora da tenda e caiu sobre alguém, com um rosnado de satisfação. Um instante depois, ele entrou novamente, arrastando o panjabi Ahmed com ele. O indiano magro se contorcia em vão no aperto de ferro do inglês.
- Este rato estava escutando às escondidas. – rosnou Ormond.
- Agora ele contará tudo para Gordon, e certamente haverá uma luta! – A perspectiva parecia perturbar consideravelmente Pembroke – O que faremos agora? O que você fará?
Ormond riu selvagemente:
- Não cheguei a esta distância para me arriscar a receber uma bala nas tripas e perder tudo. Já matei homens por menos que isto.
Pembroke exclamou um protesto involuntário, quando a mão de Ormond mergulhou e a arma de brilho azulado apareceu. Ahmed gritou, e seu grito foi afogado pelo rugir do tiro.
- Agora teremos que matar Gordon!
Pembroke enxugou sua testa com a mão trêmula. Lá fora, se erguia um súbito murmúrio em língua pachto, enquanto os empregados pachtuns se aglomeravam em direção à tenda.
- Ele está em nossas mãos! – Ormond disse abruptamente, empurrando a arma, ainda fumegante, de volta ao seu coldre. Com seu dedão calçado, ele agitou o corpo imóvel aos seus pés, tão casualmente quanto se fosse o de uma cobra – Ele saiu a pé, com apenas um punhado de cartuchos. As coisas deram certo exatamente desta forma.
- O que quer dizer? – a inteligência de Pembroke parecia momentaneamente perturbada.
- Vamos simplesmente nos arrumar e ir embora. Deixe-o tentar nos seguir a pé, caso ele queira. Há limites para as habilidades de todo homem. Abandonado nestas montanhas, a pé, sem comida, cobertores nem munição, não acho que algum homem branco verá Francis Xavier Gordon vivo novamente.


2)

QUANDO GORDON DEIXOU o acampamento, não olhou para trás. Quaisquer pensamentos de traição, por parte de seus companheiros, estavam longe de sua mente. Ele não tinha motivo para supor que fossem outra coisa, senão o que eles próprios representavam ser: brancos se arriscando para encontrarem um camarada que havia sido engolido pelos ermos não-mapeados.
Mais ou menos uma hora após deixar o acampamento, ele avistou, contornando a extremidade de uma aresta coberta de capim, um antílope se movendo ao longo da margem de um matagal. O vento soprava em direção a Gordon e distante do animal. Ele começou a tocaiá-lo através do matagal, quando um movimento nas moitas atrás dele o fez perceber que ele próprio estava sendo tocaiado.
Ele teve um vislumbre de uma figura atrás de uma moita, e logo uma bala lhe abanou a orelha, e ele atirou em direção ao lampejo e à baforada de fumaça. Houve um impacto por entre a folhagem, e logo, o silêncio. No momento seguinte, ele se curvava sobre uma forma pitorescamente vestida sobre o chão.
Era um homem magro, forte e jovem, com um khalat de franja de arminho, um calpack (1) de pele e botas com solas de prata. Havia facas embainhadas em seu cinto, e um moderno rifle de repetição jazia próximo à sua mão. Ele havia sido baleado no coração.
- Um turcomano. – murmurou Gordon – Um bandido, a julgar pela aparência, e numa longa exploração. Eu me pergunto por quanta distância ele me perseguiu.
Ele sabia que a presença do homem implicava duas coisas: em algum lugar nas redondezas, havia um bando de turcomanos; e, em algum lugar, provavelmente bem próximo, havia um cavalo. Um nômade nunca caminhava tanto, mesmo quando espreitava uma vítima. Ele ergueu o olhar para a elevação que se erguia a partir do cadáver. Era lógico acreditar que o mulçumano o havia avistado desde o topo da aresta alta, amarrara seu cavalo no outro lado e desceu deslizando para dentro do matagal para atacá-lo de surpresa enquanto ele tocaiava o antílope.
Gordon subiu cautelosamente a inclinação, embora ele não acreditasse haver quaisquer outros homens tribais, os quais pudessem ter ouvido o tiro – do contrário, os estampidos dos rifles os teriam trazido ao local –, e encontrou o cavalo sem problemas. Era um garanhão turco, com uma sela de couro vermelho, largo estribos de prata e rédeas carregadas de acabamento a ouro. Uma cimitarra pendia do alto da sela, numa bainha de couro ornamentado.
Montando na sela, Gordon avaliou cada parte das redondezas, lá do alto da aresta. Ao sul, uma fina tira de fumaça se erguia contra o anoitecer. Seus olhos negros eram agudos como os de um falcão; poucos conseguiriam distinguir aquela vaga pluma azul contra o azul celeste.
- Turcomanos significam bandidos. – ele murmurou – Fumaça significa acampamento. Estão nos rastreando, isto é certo.
Dando a volta, ele cavalgou até o acampamento. Sua caçada o havia levado para algumas milhas a leste do local, mas ele cavalgava numa velocidade que devorava a distância. Ainda não havia chegado o crepúsculo, quando ele parou na margem dos lariços e ficou esquadrinhando silenciosamente a inclinação na qual o acampamento havia estado. Estava vazio. Não havia sinal de tendas, homens ou feras.
Seu olhar examinou cuidadosamente as arestas e os agrupamentos de árvores, mas não achou nada que lhe despertasse suspeita alerta. Por fim, guiou seu corcel para o alto da escarpa, com seu rifle pronto. Ele viu uma mancha de sangue no chão onde ele sabia que a tenda de Pembroke havia estado, mas não havia outro sinal de violência, e o capim não havia sido pisado, como teria sido num ataque de cavaleiros ferozes.
Ele percebeu evidências de uma saída rápida, mas bem organizada. Seus camaradas haviam simplesmente desmontado as tendas, posto os fardos nos animais de carga e partido. Mas por quê? Cavaleiros distantes à vista poderiam ter causado pânico aos brancos, embora nenhum deles tivesse mostrado qualquer sinal da pena branca antes; mas certamente Ahmed não abandonaria seu amo e amigo.
Enquanto rastreava o percurso dos cavalos através do capim, sua perplexidade aumentou; eles haviam partido para oeste.
O destino declarado deles ficava além daquelas montanhas ao norte. Sabiam disso tanto quanto ele. Mas não havia como se enganar a respeito. Por algum motivo, logo após ele ter deixado o acampamento, como ele podia ver pelos sinais, haviam se retirado às pressas e seguido para oeste, em direção à região proibida, identificada como Monte Erlik.
Achando que eles possivelmente tinham uma razão lógica para levantar acampamento e lhe deixar uma pista à qual ele falhara em decifrar, Gordon cavalgou de volta ao local do acampamento, e começou a avaliar o chão de forma abrangente. E logo, ele viu sinais óbvios de que um corpo pesado havia sido arrastado pela grama.
Homens e cavalos haviam quase apagado a trilha indistinta, mas, durante anos, a vida de Gordon dependera da agudeza de suas capacidades. Ele se lembrou da mancha de sangue, no chão onde se erguera a tenda de Pembroke.
Ele seguiu a grama esmagada, pela inclinação abaixo, e, dentro de um matagal e um instante depois, ele se ajoelhava ao lado do corpo de um homem. Era Ahmed e, à primeira vista, Gordon pensou que ele estivesse morto. Logo, ele viu que o panjabi, embora baleado e indubitavelmente moribundo, ainda tinha uma pequena fagulha de vida nele.
Ele ergueu sua cabeça coberta por turbante, e lhe pôs o cantil nos lábios azulados. Ahmed gemeu, e a inteligência e o reconhecimento lhe chegaram aos olhos vitrificados.
- Quem fez isto, Ahmed? – a voz de Gordon rangia devido às suas emoções reprimidas.
- Ormond, senhor. – ofegou o panjabi – Eu escutava do lado de fora da tenda deles, porque temia que eles planejassem lhe trair. Nunca confiei neles. Então, me balearam e foram embora, lhe abandonando para morrer sozinho nas colinas.
- Mas por quê? – Gordon estava mais perplexo do que nunca.
- Eles vão para Yolgan. – arfou Ahmed – O senhor Reynolds, a quem procuramos, nunca existiu. Era uma mentira que eles criaram para lhe enganar.
- Por que para Yolgan? – perguntou Gordon.
Mas os olhos de Ahmed se dilataram com a iminência da morte; numa convulsão dolorosa, ele arquejou nos braços de Gordon; então, o sangue jorrou de seus lábios e ele morreu.


Gordon se ergueu, limpando mecanicamente o pó das mãos. Imóvel como os desertos aos quais freqüentava, ele não era propenso a exibir suas emoções. Agora, ele simplesmente se ocupava em empilhar pedras sobre o corpo, para fazer um túmulo ao qual lobos e chacais não pudessem desfazer. Ahmed havia sido seu acompanhante em muitas estradas obscuras – menos empregado do que amigo.
Mas, quando havia erguido a última pedra, Gordon montou na sela e, sem olhar para trás, cavalgou para oeste. Ele estava sozinho numa região selvagem, sem comida nem equipamento apropriado. O acaso havia lhe dado um cavalo, e anos de perambulação nas rudes fronteiras do mundo haviam dado a ele experiência, e uma familiaridade maior com esta terra desconhecida do que a qualquer outro homem branco que ele conhecera. Era concebível que ele conseguisse viver para ganhar seu caminho até um posto avançado civilizado.
Mas ele nem sequer pensava nessa possibilidade. As idéias de Gordon sobre obrigação, dívida e pagamento eram tão diretas e primitivas quanto as dos bárbaros, entre os quais sua sorte havia sido posta por tantos anos. Ahmed fora seu amigo e morrera a seu serviço. Sangue deve pagar por sangue.
Aquilo era tão certo na mente de Gordon, quanto a fome é certa na mente de um lobo cinzento da floresta. Ele não sabia por que os assassinos estavam se dirigindo à proibida Yolgan, e não se importava muito. Sua tarefa era segui-los até o inferno, se necessário, e dar o exato pagamento por derramarem sangue. Não havia outro percurso.
A escuridão caiu e as estrelas apareceram, mas ele não diminuiu o passo. Mesmo à luz das estrelas, não era difícil seguir a trilha da caravana através da grama alta. O cavalo turco provou estar bem e bastante revigorado.
À medida que as horas passavam, no entanto, ele percebeu que os ingleses estavam determinados a prosseguirem por toda a noite. Evidentemente pretendiam colocar, entre eles e Gordon, uma distância que não permitisse a ele pegá-los, seguindo a pé, como pensavam que ele estava. Mas por que estavam tão ansiosos em esconder dele a verdade sobre seu destino?
Um súbito pensamento lhe deixou o rosto sombrio e, depois disso, ele impeliu sua montaria com um pouco mais de pressa. Sua mão procurou instintivamente o cabo da larga cimitarra, a qual pendia da alta maçaneta da sela.
Seu olhar procurou o pico branco do Monte Erlik, fantasmagórico à luz das estrelas, e logo girou para o ponto onde ele sabia que Yolgan ficava. Ele já havia estado lá antes, e ele próprio escutara o rugido grave das longas trombetas de bronze, que sacerdotes de cabeças raspadas tocam das montanhas ao nascer do sol.
Era mais de meia-noite, quando ele avistou fogueiras próximas às margens, aglomeradas de salgueiros, de um rio. À primeira vista, percebeu que não era o acampamento dos homens aos quais procurava. As fogueiras eram muitas. Era um exército dos nômades kirghiz, que perambulavam pela região entre o Monte Erlik Khan e os limites poucos definidos das tribos maometanas. Este acampamento ficava bem no meio do caminho para Yolgan, e ele se perguntava se os ingleses tinham conhecimento suficiente de como evitá-lo. Este povo feroz odiava estrangeiros. Ele próprio, quando visitara Yolgan, havia realizado aquela façanha disfarçado de nativo.
Alcançando o rio sobre o acampamento, ele se moveu mais perto, sob o abrigo dos salgueiros, até conseguir reconhecer as formas indistintas das sentinelas a cavalo à luz das pequenas fogueiras. E ele viu algo mais: três tendas brancas européias dentro do anel de redondas e cinzas kibitkas (2) de feltro. Ele praguejou silenciosamente; se os kirghiz negros haviam matado os brancos e se apossado de seus pertences, isso significava o fim de sua vingança. Ele chegou mais perto.
Foi um desconfiado e furtivo cão lupino que o delatou. Seu latido frenético fez com que homens se aglomerassem para fora das tendas de feltro, e uma multidão de sentinelas montadas correu em direção ao local, puxando as cordas de seus arcos enquanto se aproximavam.
Gordon não desejava ser recheado por flechas enquanto corria. Ele esporeou para fora dos salgueiros, e estava entre os cavaleiros, antes que eles o percebessem, cortando a torto e a direito com a cimitarra turca. Lâminas giravam ao seu redor, mas os homens estavam mais confusos que ele. Ele sentiu o fio de sua lâmina ranger contra aço e resvalar pra baixo, para partir um crânio largo; logo, ele atravessava o cordão e corria para uma escuridão mais profunda, enquanto a alcatéia desmoralizada uivava atrás dele.
Uma voz familiar, gritando acima do clamor, lhe dizia que Ormond, pelo menos, não estava morto. Ele olhou para trás, para ver uma figura alta cruzar a luz da fogueira, e reconheceu a forma, de membros longos, de Pembroke. O fogo brilhava no aço em suas mãos. O fato de estarem armados mostrava que eles não eram prisioneiros, embora esta tolerância na região dos nômades ferozes fosse maior do que seu estoque de conhecimentos sobre as tradições do Leste pudesse explicar.
Os perseguidores não o seguiram muito longe. Adentrando a sombra de um bosque fechado, ele os ouviu gritarem guturalmente uns para os outros, enquanto cavalgavam de volta à tenda. Ninguém dormiria mais naquele exército àquela noite. Homens com aço nu em suas mãos cavalgariam ao redor do acampamento até o amanhecer. Seria difícil se esgueirar de volta até seus inimigos. Mas agora, antes que eles o matassem, ele queria saber o que os levava até Yolgan.
Sua mão afagou distraidamente o pomo, em forma de cabeça de falcão, da cimitarra do turcomano. Então, ele virou novamente para leste e cavalgou de volta pelo caminho de onde viera, o mais rápido possível, impelindo o cavalo cansado. Ainda não havia amanhecido, quando ele encontrou o que esperava: um segundo acampamento, uns 16 km a oeste do local onde Ahmed fora morto; fogueiras moribundas se refletiam numa pequena tenda e sobre as figuras de homens envoltos em mantos, sobre o chão.
Ele não se aproximou muito; quando conseguiu perceber os contornos de formas que se moviam lentamente, que eram cavalos amarrados, e pôde ver outras formas, que eram cavaleiros andando ao redor do acampamento, ele recuou para trás de uma aresta coberta por matagal, desmontou e tirou a sela de seu cavalo.
Enquanto este último pastava sofregamente o capim fresco, ele se sentou, de pernas cruzadas e encostado a um tronco de árvore, o rifle deitado sobre os joelhos, tão imóvel quanto uma imagem e tão impregnado pela vasta paciência do Oriente quanto as próprias colinas eternas.


3)

O AMANHECER ERA POUCO mais que uma insinuação de cinza no céu, quando o acampamento que Gordon observava ficou em movimento. Carvões que quase não ardiam foram reacendidos, e o cheiro de carne ensopada de carneiro encheu o ar. Homens magros e fortes, com gorros de pele de Astracã e túnicas cingidas, andavam arrogantemente entre as filas de cavalos ou se acocoravam ao lado das panelas, procurando por bocados de segurelhas (3) com dedos não-lavados. Não havia mulher alguma entre eles, e havia pouca bagagem. A leveza com a qual viajavam só podia significar uma coisa.
O sol ainda não estava alto, quando começaram a selar os cavalos e pôr as armas nos cintos. Gordon escolheu aquele momento para aparecer, cavalgando sem pressa aresta abaixo, em direção a eles.
Um grito se ergueu, e instantaneamente vinte rifles o cobriram. A própria audácia de sua ação pôs os dedos deles nos gatilhos. Gordon não perdeu tempo, embora ele não aparentasse pressa. O chefe deles já estava montado, e Gordon subiu a cavalo quase ao lado dele. O turcomano o olhou ferozmente – um valentão de nariz aquilino e olhos perversos, com uma barba manchada de henna. O reconhecimento cresceu como uma chama vermelha em seus olhos e, vendo isto, seus guerreiros não fizeram um só movimento.
- Yusef Khan – disse Gordon –, seu cão sunita, será que finalmente lhe encontrei?
Yusef Khan deu um puxão na barba vermelha e rosnou como um lobo:
- Você está louco, El Borak?
- É El Borak! – um murmúrio agitado se ergueu dos guerreiros, e aquilo deu mais um tempo para Gordon.
Eles chegaram mais perto, sua sede de sangue por um momento vencida por sua curiosidade. El Borak era um nome conhecido de Istambul até Butão, e repetido numa centena de histórias selvagens, onde quer que os lobos do deserto se reunissem.
Quanto a Yusef Khan, ele estava perplexo, e olhou furtivamente para a inclinação pela qual Gordon descera a cavalo. Ele temia a astúcia do branco quase tanto quanto o odiava e, em sua suspeita, ódio e medo de que estivesse numa cilada, o turcomano era tão perigoso e imprevisível quanto uma naja ferida.
- O que faz aqui? – ele exigiu – Fale logo, antes que meus guerreiros arranquem sua pele pedaço por pedaço por pedaço.
- Vim seguido uma velha rixa. – Gordon havia descido a aresta sem nenhum plano preparado de antemão, mas ele não estava surpreso em encontrar um inimigo pessoal liderando os turcomanos. Não era uma coincidência incomum. Gordon tinha inimigos de sangue espalhados por toda a Ásia Central.
- Você é um idiota...
No meio da frase do chefe, Gordon se inclinou da sela e bateu no rosto de Yusef Khan com a mão aberta. O golpe estalou como um chicote e Yusef cambaleou, quase caindo da sela. Ele uivou como um lobo e agarrou o cinto, tão desnorteado que hesitou entre faca e pistola. Gordon poderia tê-lo derrubado da sela com um tiro, enquanto ele remexia atrapalhadamente no cinto, mas esse não era o plano do americano.
- Afastem-se! – ele avisou aos guerreiros, ainda sem pegar qualquer arma – Não tenho nenhuma rixa contra vocês. Isto só diz respeito a seu chefe e a mim.
Com outro homem, aquilo não teria efeito; mas outro homem já estaria morto. Mesmo o mais feroz homem tribal tinha uma vaga sensação, de que as leis que governam a ação contra ocidentais comuns não se aplicavam a El Borak.
- Peguem-no! – uivou Yusef Khan – Ele será esfolado vivo!
Eles se moveram para frente diante disso, e Gordon riu sem prazer:
- A tortura não limpará a vergonha que coloquei sobre seu chefe. – ele escarneceu – Os homens dirão que sois liderados por um khan que carrega a marca da mão de El Borak na barba. Como tal vergonha é limpada? Vejam, ele chama seus guerreiros para vingarem-no! Yusef Khan é um covarde?
Eles hesitaram novamente e olharam para seu chefe, cuja barba estava coberta de espuma. Todos sabiam que, para limpar tal insulto, o agressor deveria ser morto pela vítima num duelo. Naquela alcatéia, até mesmo uma suspeita de covardia equivalia a uma sentença de morte.
Se Yusef Khan deixasse de aceitar o desafio de Gordon, seus homens poderiam obedecê-lo e torturar o americano até a morte ao seu bel-prazer, mas eles não esqueceriam, e a partir daquele momento, ele estaria condenado.
Yusef Khan sabia disto; sabia que Gordon o havia induzido astutamente a um duelo pessoal, mas ele estava muito ébrio de fúria para se importar. Seus olhos estavam vermelhos como os de um lobo raivoso, e ele havia esquecido suas suspeitas de que Gordon tivesse fuzileiros escondidos no alto da aresta. Havia esquecido tudo, exceto sua fúria desvairada em apagar para sempre o brilho naqueles selvagens olhos negros que zombavam dele.
- Cão! – ele gritou, desembainhando sua larga cimitarra – Morra nas mãos de um líder!
Ele veio como um tufão, seu manto balançando ao vento atrás de si e sua cimitarra lhe brilhando acima da cabeça. Gordon o encontrou no meio do espaço que os guerreiros haviam deixado subitamente aberto.
Yusef Khan montava num cavalo magnífico, como se este fosse parte dele, e o animal era novo. Mas a montaria de Gordon estava descansada, e era bem-treinada no jogo da guerra. Ambos os cavalos responderam instantaneamente à vontade de seus montadores.
Os lutadores davam voltas ao redor um do outro, em rápidas curvetas e pequenos saltos, suas lâminas brilhando e rangendo sem a mais leve pausa, avermelhadas pelo sol nascente. Pareciam menos dois homens lutando a cavalo do que um par de centauros, metade homens e metade animais, um golpeando em busca da vida do outro.
- Cão! – arfou Yusef Khan, dando giros com a espada e golpeando como um homem possuído por demônios – Vou fincar sua cabeça na estaca de minha tenda... ahhhh!
Nem sequer uma dúzia dos cem homens que assistiam viram o golpe, exceto como um lampejo ofuscante de aço diante de seus olhos, mas todos ouviram seu impacto rangente. O corcel de Yusef Khan relinchou e empinou, derrubando da sela um homem morto, com o crânio partido.
Um grito lupino e sem palavras, que não era nem raiva nem aplausos, se ergueu e Gordon deu a volta, rodopiando a cimitarra acima da cabeça, de modo que pingos vermelhos voaram numa chuva.
- Yusef Khan está morto! – ele rugiu – Tem alguém para aceitar sua rixa?
Eles o olharam boquiabertos, incertos de sua intenção, e, antes que pudessem se recuperar da surpresa de verem seu invencível chefe cair, Gordon enfiou sua cimitarra de volta à bainha, com certo ar de caráter decisivo, e disse:
- E agora, quem irá me seguir para saques maiores que nenhum de vós jamais sonhou?
Eles lançaram uma fagulha momentânea, mas sua ânsia foi restrita pela suspeita.
- Mostre-nos! – exigiu um – Mostre-nos o saque, antes que te matemos!
Sem responder, Gordon desmontou do cavalo e entregou as rédeas para um cavaleiro de bigode segurar, e este último estava tão espantado que aceitou a indignidade sem protestar. Gordon caminhou a passos largos até uma panela, se acocorou ao lado da mesma e começou a comer avidamente. Ele não experimentava comida há muitas horas.
- Eu lhes mostrei as estrelas à luz do dia? – ele indagou, tirando, com as mãos em forma de concha, punhados de carne cozida de carneiro – Mas as estrelas estão lá, e os homens as vêem no momento certo. Se eu tivesse o saque, eu viria lhes pedir para compartilhar? Nenhum de nós pode ganhar sem a ajuda do outro.
- Ele está mentindo. – disse um, ao qual seus colegas chamaram de Uzun Beg – Vamos matá-lo e continuar a seguir a caravana que estávamos acompanhando.
- Quem irá liderá-los? – perguntou Gordon, de forma mordaz.
Franziram a cara para ele, e vários valentões que se consideravam candidatos lógicos olharam furtivamente uns para os outros. Então, todos voltaram o olhar para Gordon, o qual devorava despreocupadamente carneiro ensopado, cinco minutos após ter matado o mais perigoso espadachim das tendas vermelhas.
Sua atitude de indiferença não enganava a ninguém. Eles sabiam que ele era perigoso, como uma naja que poderia atacar como um relâmpago em qualquer direção. Sabiam que não podiam matá-lo tão rápido antes que ele matasse alguns deles, e, naturalmente, ninguém queria ser o primeiro a morrer.
Somente aquilo não os pararia. Mas aquilo estava combinado com curiosidade, avareza instigada pela menção de saque; vaga suspeita de que ele não se colocaria numa cilada, a não ser que tivesse um trunfo, e a rivalidade entre líderes.
Uzun Beg, que havia examinado a montaria de Gordon, exclamou:
- Ele está montado no cavalo de Ali Khan!
- Sim. – Gordon assentiu tranqüilamente – Além disso, esta é a espada de Ali Khan. Ele tentou me balear numa cilada, e por isso está morto.
Não houve resposta. Não havia sentimento naquele bando de lobos, exceto medo e ódio, e respeito pela coragem, astúcia e ferocidade.
- Para onde você nos lideraria? – indagou um, chamado Orkhan Shah, reconhecendo silenciosamente o domínio de Gordon – Somos todos homens livres e filhos da espada.
- Sois todos filhos de cães. – respondeu Gordon – Homens sem pastos nem esposas, proscritos, renegados por vosso próprio povo... foras-da-lei, cujas vidas são criminosas e que vagam pelas montanhas nuas. Vocês seguiram aquele cão morto sem questionarem. Agora querem saber isso e aquilo de mim!
Logo se seguiu uma mistura de discussão entre eles próprios, na qual Gordon parecia não ter interesse. Toda a sua atenção estava voltada para a panela. Sua atitude não era fingida; sem arrogância nem vaidade, o homem estava tão seguro de si que seu porte não era mais embaraçado entre cem assassinos, hesitando por um fio em matar, do que seria entre amigos.
Muitos olhos procuravam pela coronha de sua arma em seu quadril. Diziam que sua habilidade com a arma era feitiçaria; um revólver comum, em sua mão, se tornava uma máquina viva de destruição, a qual era morte engatilhada e ruidosa, antes que um homem pudesse perceber que a mão de Gordon havia se movido.
- Dizem que nunca quebraste tua palavra. – sugeriu Orkhan – Jure nos liderar para este saque, e possa ser que vejamos.
- Não faço juramentos. – respondeu Gordon, se levantando e enxugando as mãos num pano de sela – Já falei. É o suficiente. Sigam-me, e muitos de vocês morrerão. Sim, os chacais comerão em abundância. Vocês subirão até o paraíso do profeta, e seus irmãos irão esquecer seus nomes. Mas, para aqueles que viverem, a riqueza caíra sobre eles como a chuva de Alá.
- Chega de palavras! – exclamou vorazmente um deles – Lidere-nos para este raro saque.
- Vocês não ousam me seguir para onde eu lideraria. – ele respondeu – Ele fica na terra de Kara Kirghiz.
- Nós ousamos, por Alá! – eles ganiram raivosamente – Já estamos na terra dos Kirghiz Negros, e estamos seguindo a caravana de alguns infiéis, os quais, queira Alá, mandaremos para o inferno antes do próximo nascer do sol.
- Em nome do piedoso Alá! – disse Gordon – Muitos de vocês comerão flechas e aço afiado, antes que nossa busca termine. Mas, se vocês ousam apostar suas vidas contra saques mais ricos que os tesouros do Indostão, venham comigo. Temos muito o que cavalgar.
Poucos minutos depois, o bando inteiro trotava para oeste. Gordon liderava, com cavaleiros esguios em ambos os lados; a atitude deles sugeria que ele era mais prisioneiro do que guia, mas ele não estava perturbado com isso. Sua confiança em seu destino fora novamente justificada, e o fato de que ele não tinha a menor idéia de como cumprir sua promessa sobre tesouro não o perturbava de forma alguma. Um caminho lhe seria aberto, de alguma forma, e no momento ele nem sequer se incomodava em pensar nisso.

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Re: Contos de Howard - A Filha de Erlik Khan (Originalmente publicado em Top Notch, 1934).

Mensagem por Rogerio Rocha em Ter Jan 10, 2012 9:20 pm

4)

O FATO, DE Gordon conhecer aquela região melhor que os turcomanos, o ajudou em seu súbito plano de ganhar ascendência sobre eles. De dar sugestões a dar ordens e ser obedecido, é um pequeno passo, quando dado com delicadeza.
Ele cuidou para que ficassem, tanto quanto possível, sob as linhas do horizonte. Não era fácil ocultar, dos nômades alertas, o avanço de 100 homens; mas estes vagavam longe, e havia uma chance de que apenas o bando ao qual ele vira estivesse entre ele e Yolgan.
Mas Gordon duvidou disto, quando cruzaram um rastro que havia sido feito depois que ele cavalgou para oeste, na noite anterior. Muitos cavaleiros haviam passado por aquele ponto, e Gordon incitou velocidade maior, sabendo que, se eles foram espionados pelos kirghiz, uma perseguição instantânea seria inevitável.
No final da tarde, avistaram um exército ao lado do rio margeado por salgueiros. Cavalos, zelados pelos rapazes, pastavam próximos ao acampamento, e mais além, os cavaleiros vigiavam os carneiros que comiam brotos pela grama alta.
Gordon havia deixado todos os seus homens, com exceção de meia-dúzia, num vale coberto por matagal, atrás da aresta próxima, e agora ele estava entre um aglomerado de matacões, numa inclinação, olhando o vale do alto. O acampamento estava sob ele, visível em cada detalhe, e ele franziu a testa. Não havia sinais das tendas brancas. Os ingleses haviam estado lá. Agora não estavam. Haviam suas hostes se voltado contra eles, ou será que prosseguiam sozinhos em direção a Yolgan?
Os turcomanos, que não duvidavam que estivessem ali para atacarem e pilharem seus inimigos hereditários, começaram a ficar impacientes.
- Eles têm menos lutadores que nós – sugeriu Uzun Beg –, e estão dispersos, sem suspeitar de nada. Faz muito tempo, desde que um inimigo invadiu a terra dos Kirghiz Negros. Traga os outros, e vamos atacar. Você nos prometeu saque.
- Mulheres de rosto achatado e ovelhas de rabo gordo? – Gordon zombou.
- Algumas das mulheres são bonitas de se ver. – o turcomano insistiu – E podemos nos banquetear fartamente com as ovelhas. Mas estes cães carregam ouro em seus vagões, para comercializarem com os mercadores de Cachemira. Eles vêm do Monte Erlik Khan.
Gordon se lembrou que já havia escutado histórias de uma mina de ouro no Monte Erlik Khan, e de ter visto algumas barras toscas de ouro, cujos donos juravam tê-las adquirido dos Kirghiz Negros. Mas o ouro não o interessava naquele momento.
- Isso é história da carochinha. – ele disse, pelo menos meio acreditando no que havia dito – O saque para o qual lhes guiarei é verdadeiro; você o jogaria fora por causa de um sonho? Volte para os outros e os mande continuarem escondidos. Voltarei logo.
Houve uma suspeita instantânea, e ele percebeu.
- Você retorna, Uzun Beg – ele disse –; e mande meu recado aos outros. O restante de vocês, venha comigo.
Aquilo acalmou as suspeitas perigosas dos cinco, mas Uzun Beg resmungou em desaprovação, enquanto descia de volta a inclinação, montava e cavalgava para leste. Gordon e seus companheiros também cavalgavam atrás do cume e, se mantendo sob as linhas do horizonte, deram a volta na aresta, a qual se inclinava para o sudoeste.
Ela terminava em penhascos íngremes, como se tivesse sido cortada por uma faca, mas densos matagais os escondiam da visão do acampamento, enquanto eles cruzavam o espaço que ficava entre os penhascos e a aresta seguinte, a qual seguia até uma curva no rio, a mais de um quilômetro e meio abaixo do exército.
Esta aresta era consideravelmente mais alta do que a que haviam deixado, e antes que eles alcançassem o ponto onde ela começava a descer para o rio, Gordon engatinhou até o topo e esquadrinhou o acampamento novamente, com um par de binóculos que outrora pertenceu a Yusef Khan.
Os nômades não demonstraram suspeitar da presença de inimigos, e Gordon virou as lentes mais para leste, localizou a aresta além da qual seus homens estavam escondidos, mas não viu sinal deles. Contudo, ele viu algo mais.
Milhas a leste, uma aresta pontiaguda cortava o céu, entalhada por uma passagem rasa. Enquanto olhava, ele viu um fio de pontos negros se movendo através daquele entalhe. Era tão distante que nem mesmo as lentes poderosas os identificavam, mas ele sabia o que eram aqueles pontos – homens a cavalo, muitos deles.
Apressando-se de volta aos seus cinco turcomanos, ele não disse nada, mas avançou impetuosamente, e logo eles emergiram por trás da aresta e chegaram ao rio, onde este fazia a curva fora da vista do acampamento. Aqui era o cruzamento lógico para qualquer estrada que levasse até Yolgan, e não demorou muito para que ele achasse o que procurava.
Na lama da beira do rio, havia as marcas de cascos ferrados de cavalos e, num determinado ponto, a marca de uma bota européia. Os ingleses haviam passado aqui; além do passo do rio, a trilha deles seguia para oeste, através do planalto ondulado.

Gordon estava novamente perplexo. Imaginara que havia algum motivo particular para este clã ter recebido os ingleses em paz. Havia pensado que Ormond os convenceria a escoltarem-nos até Yolgan. Embora os clãs se aliassem contra invasores, havia rixa entre eles próprios, e o fato de uma tribo receber pacificamente um homem não significava que outra tribo não o mataria.
Gordon nunca ouvira falar dos nômades desta região demonstrarem amizade para com algum homem branco. Mas os ingleses passaram a noite naquele acampamento, e agora prosseguiam ousadamente, como se confiantes na recepção. Parecia completa loucura.
Enquanto ele refletia, um tiro distante de fuzil o fez erguer bruscamente a cabeça. Ele atravessou o rio e correu para o alto da inclinação que os escondia do vale, com os turcomanos em seus calcanhares, manuseando as alavancas de suas espingardas. Enquanto galgava a inclinação, ele viu a cena sob ele claramente delineada no anoitecer azul.
Os turcomanos estavam atacando o acampamento kirghiz. Eles haviam rastejado para cima da aresta que dava vista para o vale, e então desceram como um furacão. A surpresa havia sido quase, mas não totalmente, completa. Pastores a cavalo que ficaram para trás haviam sido baleados, e os rebanhos dispersados, mas os nômades sobreviventes haviam resistido dentro do círculo de suas tendas e carroças.
Arcabuzes e arcos antigos, e algumas espingardas modernas, responderam aos disparos dos turcomanos. Estes avançavam rapidamente, atirando do alto de suas selas, apenas para girarem e se esquivarem novamente do alcance dos tiros rivais.
Os kirghiz estavam protegidos por suas coberturas, mas mesmo assim, a saraivada de chumbo fazia estrago. Algumas selas foram esvaziadas, mas os turcomanos eram difíceis de serem atingidos em seus cavalos que saracoteavam, enquanto os montadores balançavam os corpos de um lado a outro.
Gordon apressou seu cavalo com as rédeas e veio galopando através do vale, sua cimitarra lhe brilhando na mão. Com seus inimigos desaparecidos do acampamento, não havia motivo para atacar os kirghiz agora, como ele havia planejado. Mas a distância era grande demais para ordens gritadas serem ouvidas.
Os turcomanos o viram chegar, espada na mão, e interpretaram mal seu significado. Pensaram que ele pretendia liderar um ataque e, em seu entusiasmo, eles o anteciparam.
Foram ajudados pelo pânico que atacou os kirghiz, quando estes viram Gordon e seus cinco turcomanos descendo para o vale, e entenderam isso como um ataque em grande número sobre seu lado.
Instantaneamente, eles dirigiram toda a sua munição aos recém-chegados, esvaziando os toscos arcabuzes bem antes que Gordon sequer ficasse a um bom alcance de fuzil. E, assim como eles, os turcomanos avançaram com um grito que estremeceu o vale, precedido por tiros devastadores, enquanto atiravam rápida e repetidamente acima das orelhas de seus cavalos.
Neste momento, nenhuma rajada irregular de tiros era capaz de detê-los. Em seu pânico, os homens da tribo haviam disparado todas as suas armas de fogo de uma vez, e a investida os pegou com os arcabuzes e mosquetes vazios. Tiros isolados de fuzil atingiram os incursores que se aproximavam, e derrubaram alguns de suas selas; e um vôo de flechas deu conta de mais alguns, mas logo o ataque caiu sobre a barricada temporária e a esmagou. Os turcomanos uivantes cavalgavam entre as tendas, golpeando a torto e a direito com suas cimitarras já escarlates.
Por um momento, o inferno rugiu no exército, e então, os nômades desmoralizados se dispersaram e fugiram o melhor que puderam, sendo derrubados e pisoteados pelos vencedores. Nem mulheres nem crianças foram poupadas pelos turcomanos loucos por sangue. Algumas delas conseguiram fugir do círculo e correr aos prantos em direção ao rio. No momento seguinte, os cavaleiros estavam atrás deles, feito lobos.
Mas, apressada pelo medo de morrer, uma turba alcançou as margens primeiro, atravessou correndo os salgueiros e mergulhou aos gritos sobre o rio raso, atropelando uns aos outros na água. Antes que os turcomanos pudessem levar seus cavalos para o rio, Gordon chegou, com seu cavalo emplastrado de suor e fungando espuma.
Enfurecido diante da matança desumana, Gordon era a encarnação da ira berserk. Ele agarrou as rédeas do primeiro homem e puxou-lhe o cavalo de volta, com tal violência que o animal se desequilibrou e caiu esparramado, derrubando seu montador. O homem seguinte tentou recuar, ganindo como um lobo, e Gordon o golpeou com o lado de sua cimitarra. Somente o grosso gorro de pele salvou o crânio sob ele, e o homem caiu, sem sentidos, da sela. Os outros gritaram e fizeram seus cavalos recuarem subitamente.
A fúria de Gordon era como uma pancada de água gelada em seus rostos, lhes sobressaltando os nervos sanguinários a uma sensibilidade pungente. De entre as tendas, gritos ainda insultavam o crepúsculo, com o cortar assassino de impiedosos golpes de espada, mas Gordon não deu atenção. Ele não conseguiria salvar ninguém no acampamento saqueado, onde os guerreiros uivantes rasgavam as tendas em pedaços, derrubando as carroças e incendiando com tochas em uma centena de lugares.
Cada vez mais homens, com olhos ardentes e lâminas gotejantes, fluíam em direção ao rio, parando quando viam El Borak lhes barrar o caminho. Não houve um só bandido ali que parecesse tão temível quanto Gordon estava naquele instante. Seus lábios rosnavam e seus olhos pareciam carvões negros do fogo do inferno.
Não havia nenhum ato fingido nisto. Sua máscara de imobilidade havia caído, revelando a pura ferocidade primordial da alma sob ela. Os aturdidos turcomanos, ainda atordoados pela satisfação de suas ânsias de sangue, cansados de seus grandes e surpreendentes golpes e perplexos com sua atitude, recuaram dele.
- Quem deu a ordem para atacar? – ele gritou, e sua voz era como o talhar de um sabre.
Ele tremia na intensidade de sua ira. Era uma chama ardente de fúria e morte, sem controle nem repressão. Ele era tão selvagem e brutal naquele momento, quanto o bárbaro mais feroz naquela terra rude.
- Uzun Beg! – gritou um grande número de vozes, e homens apontaram para o guerreiro que carranqueava – Ele disse que você havia ido embora para nos trair aos kirghiz, e que deveríamos atacar antes que eles tivessem tempo de cair sobre nós e nos cercar. Acreditamos nele, até que lhe vimos cavalgando sobre a inclinação.
Com um grito feroz e sem palavras, semelhante ao de uma pantera ferida, Gordon lançou seu cavalo como um tufão sobre Uzun Beg, golpeando-o com a cimitarra. Uzun Beg caiu de sua sela, com o crânio esmagado, morto antes de perceber realmente que estava ameaçado.
El Borak girou em direção aos outros, e eles recuaram aterrorizados, com os cavalos que montavam.
- Cães! Chacais! Macacos sem faro! Esquecidos de Deus! – ele os chicoteou com palavras que queimavam como escorpiões – Filhos de cães sem nome! Eu não lhe ordenei que continuassem escondidos? Minha palavra é vento? Uma folha, para ser soprada pelo bafo de um cão como Uzun Beg? Agora vocês lamberam sangue desnecessariamente, e toda a região cavalgará contra nós, como se fôssemos chacais. Onde está sua pilhagem? Onde está o ouro, com o qual os vagões estavam carregados?
- Não havia ouro. – murmurou um homem da tribo, enxugando sangue de um corte de espada.
Eles vacilaram diante do feroz desdém, e da raiva na risada acuadora de Gordon.
- Cães que metem o focinho nas pilhas de esterco do inferno! Eu deveria deixá-los morrer.
- Matem-no! – vociferou um homem da tribo – Devemos comer na mão de um infiel? Matem-no, e vamos voltar para onde viemos. Não há saque nesta terra desolada.
A proposta não foi acolhida com entusiasmo. Seus fuzis estavam todos vazios, e alguns até descartados na fúria dos golpes de espada. Eles sabiam que a carabina sob o joelho do El Borak estava carregada, bem como a pistola em seu quadril. Nenhum deles sequer se interessava em cavalgar sob o fio daquela cimitarra avermelhada, que oscilava como uma coisa viva em sua mão direita.
Gordon viu a indecisão deles e os escarneceu. Ele não argumentava ou persuadia como outro homem talvez fizesse. E, se ele fizesse isso, eles o teriam matado. Ele rebatia oposição com pragas, injúrias e ameaças, que eram convincentes porque dirigia a eles cada palavra que lhes cuspia. Eles se submetiam, porque eram um bando de lobos, e ele era o lobo mais sombrio de todos eles.
Nem um só homem entre mil conseguiria desafiá-los como ele fez, e viver. Mas havia uma dinâmica força elementar ao seu redor, a qual abalava a resolução e intimidava a ira... algo da fúria de uma torrente indomada, ou de um vento urrante, que derrubava a força de vontade com pura ferocidade.
- Não teremos mais nada de ti. – o mais corajoso expressou a última fagulha da rebelião – Siga os teus caminhos, e seguiremos os nossos.
Gordon latiu uma risada amarga.
- Teus caminhos levam aos fogos de Jehannum (4)! – ele zombou amargamente – Vós derramastes sangue inocente, e sangue será exigido como pagamento. Vocês pensam que aqueles que escaparam não fugirão até as tribos mais próximas, para revoltarem a região? Vocês terão mil cavaleiros ao redor de seus ouvidos, antes do amanhecer.
- Vamos cavalgar para leste. – disse um, nervosamente – Estaremos fora desta terra de demônios, antes que o alarme seja dado.
Mais uma vez, Gordon riu, e os homens tremeram.
- Idiotas! Vocês não podem retornar. Com os binóculos, eu vi um corpo de cavaleiros seguindo nossa trilha. Estamos pegos nas presas de um torno. Vocês não podem prosseguir sem mim; se ficarem parados ou voltarem, nenhum de vocês verá outro pôr-do-sol.
O pânico se seguiu instantaneamente, o que era mais difícil de vencer do que a rebelião.
- Matem-no! – uivou um – Ele nos guiou até uma armadilha!
- Imbecis! – gritou Orkhan Shah, que era um dos cinco aos quais Gordon guiou até o rio – Não foi ele quem nos enganou e guiou para atacar os kirghiz. Ele nos guiaria para o saque que prometeu. Ele conhece esta terra, e nós não. Se vós matares ele agora, matareis o único homem que pode nos salvar!
Aquela faísca se incendiou instantaneamente, e todos gritaram ao redor de Gordon:
- A sabedoria dos cavalheiros é tua! Somos cães que comem sujeira! Salve-nos de nossa insensatez! Eis que te obedecemos! Guie-nos para fora desta terra de morte, e nos mostre o ouro do qual nos falaste!
Gordon embainhou sua cimitarra e assumiu o comando sem fazer comentários. Deu ordens, e elas foram obedecidas. Uma vez que estes homens ferozes, em seu medo, se voltaram para ele, confiavam implicitamente nele. Sabiam que ele, de alguma forma, os estava usando impiedosamente para seus próprios planos, mas não havia mais nada que algum deles teria feito, se fosse capaz. Naquela terra selvagem, só prevaleciam os modos de uma alcatéia.
O máximo de cavalos kirghiz, que puderam rapidamente pegar, foi reunido. Em alguns deles, comida e peças de vestuário do acampamento saqueado haviam sido rapidamente amarradas. Meia dúzia de turcomanos havia sido morta e quase uma dúzia ferida. Os mortos foram deixados onde haviam caído. Os mais gravemente feridos foram amarrados às suas selas, e seus gemidos tornavam a noite horrenda. A noite havia caído, quando o bando cavalgou inclinação acima e atravessou o rio. O pranto das mulheres kirghiz, escondidas nos matagais, parecia o canto fúnebre de almas perdidas.


5)

GORDON NÃO tentou seguir a trilha dos ingleses sobre o chapadão relativamente plano. Yolgan era seu destino, e ele acreditava que os encontraria lá, mas havia desesperada necessidade de escapar dos homens tribais, os quais ele tinha certeza de o estarem seguindo, e que seriam incitados a uma determinação mais feroz pelo que encontrariam no acampamento próximo ao rio.
Ao invés de guiar diretamente através do planalto, Gordon circulou por entre as colinas que o margeavam ao sul e começou a segui-las para oeste. Antes da meia-noite, um dos feridos morreu em sua sela, e alguns dos outros estavam em semi-delírio. Esconderam o corpo numa fenda e prosseguiram. Eles se moviam através da escuridão das colinas, como fantasmas; os únicos sons eram o tilintar dos cascos na pedra e os gemidos dos feridos.
Uma hora antes do amanhecer, chegaram a um riacho que serpenteava entre saliências de pedra calcária – um largo riacho raso, com um sólido fundo rochoso. Avançaram penosamente por ele com seus cavalos por quase 5 km, e em seguida, saíram novamente no mesmo lado.
Gordon sabia que os kirghiz, farejando a trilha deles feito lobos, iriam segui-los até a margem e imaginariam tal estratégia como um esforço para esconder sua pista. Mas ele esperava que os nômades imaginassem que eles iriam cruzar o rio e mergulhariam nas montanhas do outro lado, para que, desta forma, perdessem tempo procurando por pistas ao longo da margem sul.
Ele agora se dirigia para oeste numa rota mais direta. Não esperava tirar totalmente os kirghiz de seu rastro. Estava apenas tentando ganhar tempo. Se perdessem sua trilha, procurariam em qualquer direção, exceto em Yolgan, e era para Yolgan que ele ia, vez que agora não havia chance de pegar seus inimigos no caminho.
A aurora os encontrou nas colinas – um bando cansado e desfigurado. Gordon mandou que parassem e descansassem, e enquanto eles o faziam, ele galgou o despenhadeiro mais alto que pôde encontrar e, pacientemente, esquadrinhou os penhascos e ravinas ao redor, com seus binóculos, enquanto mastigava tiras duras de carne seca de carneiro, a qual os homens tribais carregavam entre a sela e o pano sob esta, para mantê-la quente e macia. Ele alternava rápidas sonecas, de dez ou quinze minutos de duração, armazenando reservas concentradas de energia, como os homens de terras estrangeiras aprendem a fazer, e, nos intervalos, observando as arestas em busca de sinais de perseguição.
Ele deixou os homens descansarem à vontade, e o sol estava alto quando ele desceu da rocha e os mandou acordarem. Seus corpos de molas de aço haviam recuperado um pouco do ânimo, e eles se levantaram e selaram com alegria – todos, exceto um dos feridos, o qual havia morrido durante o sono. Desceram seu corpo para dentro de uma fenda profunda e prosseguiram – mais devagar, pois os cavalos sentiam a labuta mais do que os homens.
Durante todo o dia, eles atravessaram seu caminho através de desfiladeiros desabitados, dos quais se sobressaíam penhascos sombrios. Os turcomanos estavam cercados pela desolação sombria, e pelo conhecimento de que uma horda de bárbaros sedentos de sangue estava em seu rastro. Seguiram Gordon sem questionar, enquanto ele os guiava, girando e serpenteando, ao longo de alturas vertiginosas e sob a escuridão abismal de desfiladeiros selvagens; e depois, sobre arestas baixas e ao redor de saliências varridas pelo vento.
Ele havia usado cada artifício que conhecia para se livrar da perseguição, e estava tentando alcançar sua meta o mais rápido possível. Não temia encontrar clã algum nestas colinas nuas; eles pastoreavam seus rebanhos em lugares baixos. Mas ele era tão familiarizado com o percurso quanto seus homens pensavam.
Percebia seu caminho, mais por instinto de direção, do que homens que moram em lugares abertos; mas ele teria se perdido uma dúzia de vezes, se não fossem os vislumbres do Monte Erlik Khan, se salientando acima das colinas distantes, ao redor.
Enquanto avançavam para oeste, ele reconheceu outros pontos de referência, vistos de novos ângulos, e pouco antes do pôr-do-sol, vislumbrou um vale largo e raso, por entre as inclinações cheias de pinheiros, das quais ele viu as paredes de Yolgan avultarem contra os penhascos atrás.
Yolgan foi construída ao pé de uma montanha, dando vista para o vale através do qual um rio vagueava por entre amontoados de juncos e salgueiros. As florestas eram incomumente densas. Montanhas ásperas, dominadas pelo pico do Erlik ao sul, cercavam o vale ao sul e oeste, e ao norte ele era bloqueado por uma cadeia de colinas. A leste, o caminho estava aberto, descendo desde uma sucessão de arestas irregulares. Gordon e seus homens haviam seguido as cordilheiras em sua fuga, e agora eles desciam o olhar para o vale, desde o sul.
El Borak liderou os guerreiros para baixo, desde os penhascos mais altos, e os escondeu em um dos muitos desfiladeiros que desembocavam nas inclinações mais baixas, a não mais que uns dois quilômetros e meio da própria cidade. Terminava numa rua sem saída e sugeria uma armadilha, mas os cavalos estavam prestes a morrerem de exaustão, os cantis dos homens estavam vazios; e uma nascente, jorrando da rocha sólida, fez Gordon tomar uma decisão.
Ele encontrou uma ravina guiando para fora do desfiladeiro, e postou homens de guarda lá, assim como na entrada da garganta. Serviria como caminho de fuga, se necessário. Os homens mastigavam os pedaços de comida restantes, e cobriam seus ferimentos da melhor forma que podiam. Quando ele os avisou que ia, sozinho, fazer uma exploração, eles o miraram com olhos desbotados, pegos pelo fatalismo que é a herança das raças turcas.
Não desconfiavam dele, mas já se sentiam homens mortos. Pareciam vampiros, com suas roupas empoeiradas e rasgadas, coaguladas de sangue seco, e olhos fundos de fome e cansaço. Eles se acocoraram ou deitaram ao redor, envoltos em seus mantos esfarrapados, e em silêncio.
Gordon estava mais otimista que eles. Talvez não tivessem escapado completamente dos kirghiz, mas ele acreditava que levaria algum tempo para até mesmo aqueles sabujos humanos desentocá-los, e não temia ser descoberto pelos habitantes de Yolgan. Sabia que eles raramente perambulavam colinas adentro.
Gordon não havia comido nem bebido tanto quanto seus homens, mas sua constituição de aço era mais resistente que a deles, e ele era animado por uma espantosa vitalidade, a qual manteria seu cérebro claro e seu corpo vibrante, bem depois que algum outro homem caísse em seu rastro.
Já era noite quando Gordon saiu da ravina a passos largos, as estrelas pendendo sobre os picos como pontos frios de prata. Ele não atravessou diretamente o vale, mas se manteve alinhado às colinas ao redor. Assim, não era grande coincidência ele descobrir a caverna onde os homens estavam escondidos.
Ela estava situada numa saliência rochosa que se sobressaía para dentro do vale, e à qual ele contornava ao invés de galgar. Tamarixes cresciam em abundância ao redor dela, escondendo a entrada de forma tão eficaz, que foi somente por acaso que ele avistou o reflexo de uma fogueira contra uma lisa parede interna.
Gordon engatinhou pelos matagais e espionou lá dentro. Era uma caverna maior do que sua abertura indicava. Uma pequena fogueira ardia, e três homens se acocoravam próximos a ela, comendo e conversando na gutural língua pachto. Gordon reconheceu três dos ajudantes de acampamento dos ingleses. Mais para trás na caverna, ele viu os cavalos e pilhas dos equipamentos do acampamento. O murmúrio da conversa era ininteligível onde ele se agachava, e enquanto ele se perguntava onde estariam os homens brancos e o quarto empregado, ouviu alguém se aproximar.
Ele recuou ainda mais para dentro das sombras e esperou; e logo, uma figura alta avultou à luz das estrelas. Era o outro pachtun, com os braços carregados de lenha.
Quando ele caminhou em direção ao acampamento natural que subia até a boca da caverna, passou tão perto do esconderijo de Gordon que o americano seria capaz de tocá-lo com um braço estendido. Mas ele não estendeu o braço; ele pulou sobre as costas do homem, como uma pantera sobre sua presa.
A lenha foi derrubada em todas as direções, e os dois homens rolaram juntos numa curta inclinação coberta por grama, mas os dedos de Gordon estavam adentrando o pescoço taurino do pachtun, sufocando-lhe os esforços para gritar, e a luta não fazia nenhum barulho que pudesse ser ouvido dentro da caverna, acima do crepitar dos nacos de tamarix.
A altura e peso superiores do pachtun foram inúteis contra os fortes tendões e as habilidades em luta corpo-a-corpo de seu oponente. Erguendo o homem sob ele, Gordon se agachou sob seu peito e o atordoou com estrangulamento, antes de relaxar o aperto e deixar a vida e inteligência fluírem de volta ao cérebro de sua vítima aturdida.
O pachtun reconheceu seu captor, e seu medo foi enorme, pois pensou que estivesse nas mãos de um fantasma. Seus olhos lampejavam na escuridão, e seus dentes brilhavam no emaranhado negro de sua barba.
- Onde estão os ingleses? – exigiu suavemente Gordon – Fale, cão, antes que eu quebre seu pescoço!
- Partiram ao escurecer para a cidade dos demônios! – ofegou o pachtun.
- Prisioneiros?
- Não; um homem de cabeça raspada os guiou. Carregavam as armas deles e não estavam com medo.
- O que eles estão fazendo aqui?
- Por Alá, eu não sei!
- Conte-me tudo o que você sabe. – ordenou Gordon – Mas fale baixo. Se seus companheiros ouvirem e vierem para cá, você morrerá repentinamente. Comece por onde eu parti para balear um veado. Depois disso, Ormond matou Ahmed. Disso eu sei.
- Sim; foi o inglês. Eu não tive nada a ver com isso. Eu vi Ahmed se esgueirando do lado de fora da tenda do Senhor Pembroke. Dali a pouco, o Senhor Ormond saiu e o puxou para dentro da tenda. Uma arma disparou e, quando fomos ver, o panjabi jazia morto no chão da tenda.
“Então, os senhores nos mandaram desarmar as tendas e carregar os cavalos de carga, e assim o fizemos sem questionar. Fomos para oeste às pressas. Quando a noite ainda não chegara à metade, avistamos um acampamento de pagãos, e meus irmãos e eu ficamos com muito medo. Mas os senhores seguiram adiante e, quando os malditos avançaram com flechas nas cordas dos arcos, o Senhor Ormond ergueu um estranho emblema que brilhou à luz das tochas, e então os pagãos desmontaram e se curvaram até o chão.
“Ficamos no acampamento deles naquela noite. Na escuridão, alguém veio ao acampamento, houve luta e um homem foi morto; e o Senhor Ormond disse que era um espião turcomano e que haveria luta; assim, deixamos os pagãos ao amanhecer e seguimos apressadamente para oeste, através do vau. Quando encontramos outros pagãos, Ormond mostrou a eles o talismã, e eles nos honraram. Apressamo-nos o dia todo, forçando os animais, e, quando a noite caiu, não paramos, pois o Senhor Ormond parecia um louco. Assim, antes que a noite chegasse à metade, entramos neste vale, e os senhores nos esconderam nesta caverna.
“Ficamos aqui, até um pagão passar próximo à caverna nesta manhã, pastoreando ovelhas. Então, o Senhor Ormond o chamou, mostrou a ele o talismã e fez saber que queria falar com o sacerdote da cidade. Assim, o homem partiu, e dali a pouco, retornou com o sacerdote que sabia falar em língua caxemira. Ele e os senhores conversaram por um longo tempo juntos, mas não sei o que diziam. Mas o Senhor Ormond matou o homem que tinha ido buscar o sacerdote, e ele o sacerdote esconderam o corpo com pedras.
“Então, depois de conversar mais, o sacerdote foi embora, e os senhores passaram o dia todo na caverna. Mas, ao entardecer, outro homem chegou até eles – um homem de cabeça raspada e vestimenta de pêlos de camelo –, e seguiram com ele em direção à cidade. Eles nos mandaram comer e depois selar e carregar os animais, e ficamos prontos para andar a toda pressa entre a meia-noite e o amanhecer. Isso é tudo o que sei, e Alá é testemunha”.
Gordon não respondeu. Acreditou que o homem dizia a verdade, e sua perplexidade aumentou. Enquanto refletia sobre aquela complicação, ele inconscientemente relaxou o aperto, e o pachtun escolheu aquele instante para lutar por sua liberdade. Com um erguer convulsivo, ele se libertou parcialmente do aperto de Gordon, arrancou das roupas uma faca à qual fora incapaz de alcançar antes, e gritou ruidosamente enquanto a estocava.
Gordon evitou a punhalada com uma rápida torção de seu corpo; o gume lhe rasgou a camisa e a pele sob ela, e, incitado pelo ferimento e perigo, ele agarrou o pescoço taurino do pachtun com ambas as mãos e pôs toda a sua força numa violenta torção. A espinha do homem se quebrou como um galho podre, e Gordon se lançou para trás, dentro das sombras mais espessas, quando o vulto negro de um homem apareceu na entrada da caverna. O companheiro gritou uma pergunta cuidadosa, mas Gordon não esperou mais. Já havia desaparecido como um fantasma na escuridão.
O pachtun repetiu seu grito, e então, não obtendo resposta, chamou seus companheiros com certa apreensão. Com armas nas mãos, eles se moveram furtivamente rampa abaixo, e dali a pouco um deles tropeçou no corpo do colega. Inclinaram-se sobre ele, murmurando assustados.
- Aqui é um lugar de demônios. – disse um – Os demônios mataram Akbar.
- Não. – disse outro – É o povo deste vale. Pretendem nos matar, um por um. – Ele agarrou o fuzil e fitou apavoradamente as sombras que os cercavam – Enfeitiçaram os senhores e levaram-nos embora para os matarem. – ele murmurou.
- Seremos os próximos. – disse o terceiro – Os senhores estão mortos. Vamos carregar os animais e partir logo. Melhor morrermos nas colinas do que esperarmos, feito ovelhas, que cortem nossas gargantas.
Poucos minutos depois, eles corriam para leste, através dos pinheiros, tão rapidamente quanto conseguiam apressar os animais.

Gordon nada sabia sobre isto. Quando abandonou a inclinação sob a caverna, ele não seguiu a direção das colinas, como antes, mas seguiu diretamente, através dos pinheiros, para as luzes de Yolgan. Não se afastara muito, quando se deparou com uma estrada vinda do leste, que guiava para a cidade. Ela serpenteava entre os pinheiros, uma linha levemente menos escura numa muralha de escuridão.
Ele a seguiu, até ver facilmente o grande portão, que se encontrava aberto no escuro, e as muralhas maciças da cidade. Guardas se curvavam displicentemente sobre seus arcabuzes. Yolgan não temia um ataque. Por que deveria? A mais feroz das tribos montanhesas evitava a terra dos adoradores do demônio. Sons de permuta e discussão eram soprados pelo vento noturno, através do portão.
Em algum lugar de Yolgan, Gordon tinha certeza, estavam os homens a quem ele procurava. Que eles pretendiam retornar à caverna, ele estava certo. Mas havia um motivo pelo qual desejava entrar em Yolgan; um motivo que não estava totalmente ligado à vingança. Enquanto ponderava, escondido na sombra escura, ele ouviu o suave bater de cascos de cavalo na estrada poeirenta atrás de si. Ele deslizou mais para trás entre os pinheiros; então, com um súbito pensamento, ele deu a volta e se dirigiu para além da primeira curva, onde se escondeu na escuridão ao lado da estrada.
Dali a pouco, um trem com mulas carregadas veio correndo, com homens na frente, atrás e em ambos os lados. Não carregavam tochas, movendo-se como homens que conhecem sua trilha. Os olhos de Gordon estavam tão adaptados à fraca luz das estrelas na estrada, que ele foi capaz de reconhecê-los como pastores kirghiz em seus longos mantos e gorros redondos. Passaram tão perto dele, que o cheiro de seus corpos lhe encheu as narinas.
Agachou-se ainda mais na escuridão e, quando o último homem se moveu atrás dele, um braço firme como aço se curvou ferozmente ao redor do pescoço do kirghiz, sufocando-lhe o grito. Um punho de ferro lhe bateu contra o maxilar, e ele pendeu sem sentidos nos braços de Gordon. Os outros já estavam fora de vista, do outro lado da curva da trilha, e o raspar dos fardos volumosos das mulas contra os galhos ao longo da estrada era suficiente para abafar os leves ruídos da luta.
Gordon arrastou sua vítima para sob os galhos negros e a despiu rapidamente, tirando os próprios sapatos e turbante, e vestindo as roupas do nativo, com a pistola e cimitarra afiveladas sob o longo manto. Poucos minutos depois, ele caminhava atrás da coluna recuada, curvado sobre seu cajado como se cansado da longa viagem. Ele sabia que o homem atrás de si demoraria horas para recuperar a consciência.
Alcançou a cauda do trem, mas se demorou atrás como um desgarrado faria. Ele se manteve próximo da caravana o suficiente para ser identificado com ela, mas não tão perto para tentar conversar ou ser reconhecido pelos outros membros do trem. Quando eles adentraram o portão, ninguém lhe pediu senha. Mesmo no brilho das tochas, sob o grande arco sombrio, ele parecia um nativo, com seu rosto escuro combinando com as vestimentas e o gorro de pele de cordeiro.
Enquanto adentrava a rua iluminada por tochas, passando despercebido por entre o povo que conversava e discutia nos mercados e estábulos, ele poderia ser muito bem um dos muitos pastores kirghiz que perambulavam ao redor, boquiabertos ao verem a cidade, a qual representava para eles a última palavra a nível de metrópole.
Yolgan não era como nenhuma outra cidade da Ásia. As lendas diziam que ela fora construída há muito tempo por um culto de adoradores do demônio, os quais, expulsos de sua distante terra natal, haviam encontrado refúgio nesta região não-mapeada, onde um ramo isolado dos Kirghiz Negros, mais vasto que seus parentes, vagavam como senhores. O povo da cidade era uma raça misturada, descendente destes fundadores originais e dos kirghiz.
Gordon viu os monges, que eram a classe dominante em Yolgan, caminharem pelos bazares – homens altos, de cabeças raspadas e feições mongóis. Ele se perguntou de novo sobre sua origem exata. Não eram tibetanos. A religião deles não era um Budismo corrompido. Era um inadulterado culto ao demônio. A arquitetura de seus santuários e templos diferia de qualquer uma que ele houvesse encontrado em qualquer lugar.
Mas ele não perdeu tempo com conjecturas, nem em dúvidas sem rumo. Andou diretamente até a grande construção de pedra, agachada contra o lado da montanha ao pé da qual Yolgan estava construída. Seus grandes muros claros de pedra pareciam quase fazer parte da própria montanha.
Ninguém o impediu. Ele subiu uma longa extensão de degraus, de pelo menos 30 metros de largura, curvando-se sobre o cajado como se estivesse cansado de uma longa peregrinação. Havia grandes portas de bronze abertas e sem guardas, e ele tirou suas sandálias e adentrou um enorme salão, cuja escuridão interna estava mal-iluminada por foscos lampiões de latão, nos quais queimava manteiga derretida.
Monges de cabeças raspadas se moviam pelas sombras, como fantasmas escuros, mas eles não lhe davam atenção, achando que ele fosse apenas um rústico adorador, vindo para deixar uma humilde oferenda no santuário de Erlik, Lorde do Sétimo Inferno.
Na outra extremidade do salão, a visão era coberta por uma grande cortina de couro dourada, a qual pendia do teto elevado até o chão. Meia dúzia de degraus, que cruzavam o salão, subia até o pé da cortina e, diante dela, um monge se sentava de pernas cruzadas e imóvel como uma estátua, braços cruzados e cabeça curvada, como se em comunhão com espíritos desconhecidos.
Gordon parou ao pé dos degraus, fez que ia se prostrar, e logo recuou em súbito pânico. O monge não demonstrou interesse. Ele havia visto muitos nômades do mundo exterior, dominados por temor supersticioso diante da cortina que escondia a temível efígie de Erlik Khan. Os kirghiz tímidos deviam se mover sorrateiramente ao redor do templo, durante horas, antes de tomarem coragem suficiente para fazerem suas devoções à divindade. Nenhum dos sacerdotes prestava qualquer atenção ao homem com longa túnica de pastor, o qual escapulia como que desconcertado.
Assim que teve certeza de que não estava sendo observado, Gordon deslizou através de uma portada escura, a alguma distância da cortina dourada, e tateou seu caminho através de um largo salão escuro, até alcançar uma escadaria. Ele a subiu, ao mesmo tempo com pressa e cautela, e logo adentrou um longo corredor, ao longo do qual piscavam faíscas de luz, como vagalumes num riacho.
Ele sabia que estas luzes eram pequenos lampiões nas alcovas diminutas que se enfileiravam ao longo da passagem, onde os monges passavam longas horas contemplando os mistérios obscuros, ou lendo volumes proibidos, cuja própria existência não é suspeitada pelo mundo externo. Havia uma escada na extremidade mais próxima do corredor, e ele a subiu, sem ser descoberto pelos monges em seus aposentos. Os pequenos pontos de luz nos aposentos não serviam para iluminar em nada a escuridão do corredor.
Quando Gordon se aproximou de uma vasilha de barro na escada, ele renovou sua precaução, pois sabia que poderia haver um homem de guarda no alto da escadaria. Também sabia que este estaria provavelmente dormindo. O homem estava lá – um gigante seminu, com o rosto murcho de um surdo-mudo. Havia um tulwar (5) de ponta larga, deitado sobre seus joelhos, e sua cabeça descansava sobre ele, enquanto dormia.
Gordon passou furtiva e silenciosamente por ele, e adentrou um corredor que ficava acima, o qual estava fracamente iluminado por lampiões de latão, pendurados a intervalos regulares. Não havia cubículos sem portas ali, mas pesados portais de teca reforçada por bronze flanqueavam a passagem. Gordon foi diretamente até um, que era particularmente entalhado com ornamentos e guarnecido com um estranho arco desgastado pela decoração. Ele se agachou ali, aguçando intensamente os ouvidos, e então, se aventurou e bateu suavemente na porta. Ele bateu nove vezes, com um intervalo a cada três batidas.
Houve um instante de tenso silêncio, logo uma corrida impulsiva de pés através de um chão atapetado, e a porta foi bruscamente aberta. Uma forma magnífica se destacou na luz suave. Era uma mulher; uma criatura esbelta e esplêndida, cuja figura vibrante transpirava vitalidade magnética. As jóias, que cintilavam na faixa ao redor de seus quadris flexíveis, não eram mais cintilantes que os olhos dela.
Reconhecimento instantâneo lhe ardeu nos olhos, apesar das roupas nativas dele. Ela o segurou num aperto feroz. Seus braços esguios eram fortes como aço flexível.
- El Borak! Eu sabia que você viria!

Gordon entrou na sala e fechou a porta atrás de si. Uma rápida olhada o mostrou que não havia ninguém ali, exceto eles. Seus pequenos e grossos tapetes persas, divãs de seda, cortinas de veludo e lampiões lavrados a ouro faziam um forte contraste com a sombria simplicidade do restante do templo. Então, ele voltou toda a sua atenção à mulher que se erguia à sua frente, com as mãos brancas fechadas, numa espécie de triunfo ardente.
- Como sabia que eu viria, Yasmeena? – ele perguntou.
- Você nunca falhou com um amigo em dificuldades. – ela respondeu.
- Quem está em dificuldades?
- Eu!
- Mas você é uma deusa!
- Expliquei tudo em minha carta. – ela exclamou, desconcertada.
Gordon sacudiu a cabeça:
- Não recebi nenhuma carta.
- Então, por que está aqui? – ela quis saber, visivelmente perplexa.
- É uma longa história. – ele respondeu – Primeiro me diga por que Yasmeena, que tem o mundo aos seus pés e o lançou para longe, cansada, para se tornar uma deusa numa terra desconhecida, falaria de si mesma como estando em dificuldades.
- Em dificuldades desesperadas, El Borak. – ela penteou os cachos escuros para trás com uma mão nervosamente rápida. Os olhos dela estavam sombreados por cansaço e algo mais; algo que Gordon nunca tinha antes visto ali: a sombra do medo.
- Aqui tem comida, se você precisar mais do que eu. – ela disse, enquanto afundava num divã e, com um pé gracioso, empurrava até ele uma pequena mesa de ouro, na qual havia pães indianos, arroz com caril e carne grelhada de carneiro, tudo em recipientes de ouro, e um jarro dourado com leite fermentado de camela.
Ele se sentou sem fazer comentários, e começou a comer com prazer indisfarçado. Em sua pardacenta e longa túnica de pêlos de camelo, com as mangas largas arregaçadas e mostrando seus musculosos braços marrons, ele parecia deslocado naquela câmara exótica.
Yasmeena o observava meditativamente, o queixo dela repousando na mão e os olhos escuros enigmáticos.
- Eu não tinha o mundo aos meus pés, El Borak. – ela disse dali a pouco – Mas eu tinha do mundo o bastante para me cansar. Ele se tornou um vinho que havia perdido o sabor. A bajulação se tornou uma espécie de insulto; a adulação dos homens se tornou uma repetição vazia e sem significado. Fiquei loucamente cansada dos achatados rostos idiotas que sorriam afetada e eternamente para mim, todos usando a mesma repetição boba e animados pelos mesmos pensamentos bobos. Todos, exceto poucos homens como você, El Borak, e vocês eram lobos no rebanho. Eu poderia ter lhe amado, El Borak, mas há algo muito feroz ao seu redor; sua alma é uma lâmina afiada, na qual eu temia me cortar.
Ele não respondeu, mas entornou o jarro dourado e engoliu o ardente leite fermentado em quantidade suficiente para fazer a cabeça de um homem comum girar imediatamente. Ele vivera a vida dos nômades por tanto tempo, que os gostos deles haviam se tornado seus.
- Então, me tornei uma princesa, esposa de um príncipe de Cachemira. – ela prosseguiu, os olhos ardendo com um incrível deslocamento de nuvens e cores – Eu achei que conhecia as profundezas da canalhice dos homens. Descobri que tinha muito a aprender. Ele era um animal. Fugi dele até a Índia, e os britânicos me protegeram quando seus rufiões queriam me arrastar de volta para ele. Ele ainda oferece muitos milhares de rúpias para qualquer um que queira me levar viva até ele, para que ele possa satisfazer a própria vaidade me torturando até a morte.
- Já ouvi um rumor a esse respeito. – respondeu Gordon.
Um pensamento sinistro fez o rosto dele se obscurecer. Não franziu o rosto, mas o efeito foi subitamente sinistro.
- Aquela experiência completou meu desgosto pela vida que eu conhecia. – ela disse, com os olhos escuros intensamente introspectivos – Eu me lembrei que meu pai era um sacerdote de Yolgan, o qual fugira por amar uma mulher estrangeira. Eu havia esvaziado o copo, e minha tigela estava seca. Lembrei-me de Yolgan através das histórias que meu pai me contava, quando eu era uma criancinha, e um grande anseio surgiu em mim, de desaparecer do mundo e encontrar minha alma. Todos os deuses que conheci demonstraram serem falsos para mim. A marca de Erlik estava sobre mim... – ela abriu a camiseta bordada a pérola e mostrou uma curiosa marca em forma de estrela, entre seus seios firmes.
“Vim para Yolgan, como você bem sabe, pois você me trouxe de Issik-kul, disfarçado de kirghiz. Como você sabe, o povo se lembrava de meu pai e, embora o vissem como um traidor, me aceitaram como uma deles; e, por causa de uma velha lenda, que falava da estrela no peito de uma mulher, eles me saudaram como uma deusa, como a encarnação da filha de Erlik Khan.
“Por algum tempo, depois que você partiu, eu fiquei contente. O povo me venerava com mais sinceridade do que eu já vira ser demonstrada pelas multidões da civilização. Seus rituais curiosos eram estranhos e fascinantes. Então, comecei a mergulhar fundo em seus mistérios; comecei a sentir a essência da fórmula...”. Ela fez uma pausa, e Gordon viu o medo crescer nos olhos dela novamente.
“Eu havia sonhado com um refúgio calmo de místicos, habitado por filósofos. Encontrei um antro de demônios bestiais, ignorantes de tudo, exceto do mal. Misticismo? É xamanismo negro, repugnante como as tundras que o criaram. Vi coisas que me deixaram com medo. Sim; eu, Yasmeena, que nunca conheci o significado da palavra, havia aprendido o medo. Yogok, o sumo-sacerdote, me ensinou. Você me precaveu contra Yogok, antes de deixar Yolgan. Bem que eu deveria ter lhe dado atenção. Ele me odeia. Ele sabe que não sou divina, mas teme meu poder sobre o povo. Ele teria me matado há muito tempo, se ousasse.
“Estou morta de cansaço de Yolgan. Erlik Khan e seus demônios provaram não serem menos ilusão que os deuses da Índia e do Oeste. Não achei o caminho perfeito. Só encontrei um desejo urgente de voltar ao mundo que abandonei.
“Quero voltar para Deli. À noite, eu sonho com os barulhos e cheiros das ruas e bazares. Sou metade indiana, e o sangue da Índia está me chamando. Fui tola. Tive a vida em minhas mãos, e não reconheci isso”.
- Por que não volta, então? – perguntou Gordon.
Ela estremeceu:
- Não posso. Os deuses de Yolgan devem permanecer para sempre em Yolgan. Se um deles partir, o povo acredita que a cidade morrerá. Yogok ficaria feliz em me ver ir embora, mas ele teme demais a fúria do povo, para me matar ou ajudar a fugir. Eu sabia que só haveria um homem que poderia me ajudar. Escrevi uma carta para você e a contrabandeei através de um mercador tadjique. Com ela, enviei meu emblema sagrado... uma estrela de ouro, enfeitada de jóias... a qual lhe daria passagem livre pela região dos nômades. Eles não fariam mal a um homem que a levasse. Expliquei isso em minha carta.
- Eu nunca a obtive. – respondeu Gordon – Estou aqui, atrás de uma dupla de canalhas, aos quais eu estava guiando para dentro da região usbeque e que, sem motivo aparente, assassinaram meu criado Ahmed e me abandonaram nas colinas. Eles agora estão em algum lugar de Yolgan.
- Homens brancos? – ela exclamou – Isso é impossível! Eles jamais conseguiriam passar pelas tribos...
- Só há uma única chave para o enigma. – ele interrompeu – De alguma forma, sua carta caiu nas mãos deles. Eles usaram sua estrela para terem passagem livre. Eles não pretendem lhe resgatar, porque entraram em contato com Yogok assim que alcançaram o vale. Só há uma única coisa na qual posso pensar: eles pretendem lhe raptar, para lhe vender ao seu marido anterior.
Ela ficou ereta, embora sentada; suas mãos se fecharam na beirada do divã, e seus olhos relampejaram. Naquele instante, ela ficou tão esplêndida e perigosa quanto uma naja, quando se ergue para dar o bote.
- De volta àquele porco? Onde estão esses cães? Darei a notícia ao povo, e eles deixarão de existir!
- Isso pode denunciar a você mesma. – respondeu Gordon – O povo mataria os forasteiros, e talvez a Yogok também, mas descobriria que você está tentando fugir de Yolgan. Eles permitem que você saia do templo, não?
- Sim; com vadios de cabeça raspada me espionando em cada movimento, exceto quando estou neste pavimento, do qual apenas uma única escada leva para baixo. Essa escada é vigiada sempre.
- Por um guarda que dorme. – disse Gordon – É ruim demais, mas se o povo achar que você estava tentando escapar, eles poderiam lhe trancar numa cela pequena pelo resto de sua vida. As pessoas são particularmente cuidadosas com suas divindades.
Ela estremeceu, e seus lindos olhos brilharam com o medo que uma águia sente por uma gaiola:
- Então, o que faremos?
- Não sei... ainda. Tenho quase cem valentões turcomanos escondidos nas colinas, mas agora eles são mais um obstáculo que uma ajuda. Não há muitos deles para fazer bem feito numa luta armada, e estão quase certos de serem descobertos amanhã, se não antes. Eu os trouxe para dentro desta porcaria, e cabe a mim tirá-los dela... ou quantos eu puder tirar. Vim para matar os ingleses Ormond e Pembroke. Mas isso agora pode esperar. Vou lhe tirar daqui, mas não ouso fazer nada até saber onde estão Yogok e os ingleses. Há alguém, em Yolgan, em quem você possa confiar?
- Qualquer um do povo morreria por mim, mas eles não me deixariam partir. Só se os monges me machucassem de verdade, eles se insurgiriam contra Yogok. Não; não ouso confiar em nenhum deles.
- Você disse que aquela escada é o único caminho que sobe até este pavimento?
- Sim. O templo é construído contra a montanha, e galerias e corredores nos andares mais baixos recuam para dentro da própria montanha. Mas este é o andar mais alto, e é reservado inteiramente para mim. Não há saída dele, exceto descendo através do templo apinhado de monges. Só mantenho uma criada aqui à noite, e ela agora está dormindo num quarto a alguma distância deste, e está inconsciente por causa de bhang (6), como sempre.
- Muito bem! – grunhiu Gordon – Aqui, pegue esta pistola! Tranque a porta, depois que eu sair, e não deixe ninguém entrar, a não ser eu. Você me reconhecerá pelas nove batidas, como sempre.
- Para onde está indo? – ela quis saber, arregalando os olhos para cima e pegando mecanicamente, pela coronha, a arma que ele lhe dera.
- Dar uma pequena espionada. – ele respondeu – Preciso saber o que Yogok e os outros estão fazendo. Se eu tentasse lhe tirar daqui agora, poderíamos nos deparar com eles. Não posso fazer planos antes de conhecer alguns dos deles. Se eles pretendem lhe raptar esta noite, como acho que farão, pode ser uma boa idéia deixá-los fazerem isso, e então investir contra eles com os turcomanos e lhe tirar deles, quando estiverem bem longe da cidade. Mas não pretendo fazê-lo, a menos que seja necessário. Amarrada para ser baleada e um risco de você ser atingida por uma bala perdida. Estou saindo; fique atenta às minhas batidas.

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Re: Contos de Howard - A Filha de Erlik Khan (Originalmente publicado em Top Notch, 1934).

Mensagem por Rogerio Rocha em Ter Jan 10, 2012 9:21 pm

6)

O GUARDA MUDO ainda dormia na escada, quando Gordon deslizou por ele. Nenhuma luz brilhava agora, enquanto ele descia para o corredor inferior. Ele sabia que os cubículos estavam todos vazios, pois os monges dormiam em quartos num andar inferior. Enquanto hesitava, ouviu sandálias se arrastarem pela passagem nas trevas profundas.
Entrando num dos cubículos, ele esperou até o viajante invisível ficar à sua frente, e então assobiou suavemente. A caminhada parou, e uma voz sussurrou uma pergunta.
- Tu és Yatub? – perguntou Gordon, com o acento gutural dos kirghiz. Muitos dos monges menores eram kirghiz puros no sangue e na fala.
- Não. – veio a resposta – Eu sou Ojuh. Quem és tu?
- Não importa; me chame de cão de Yogok, se quiseres. Sou um vigia. Os homens brancos já entraram no templo?
- Sim. Yogok os trouxe pelo caminho secreto, para que o povo não suspeitasse da presença deles. Se tu és próximo de Yogok, diga-me: qual o plano dele?
- Qual a tua opinião? – perguntou Gordon.
Uma risada maligna o respondeu, e ele pôde sentir o monge se curvando na escuridão para descansar um cotovelo na soleira.
- Yogok é astuto. – ele murmurou – Quando o tadjique, a quem Yasmeena subornou para levar a carta dela, a mostrou para Yogok, nosso mestre o ordenou que fizesse como ela o havia instruído. Quando o homem para quem ela enviou viesse até ela, Yogok planejava matar tanto ele quanto ela, fazendo parecer ao povo que o homem branco havia matado a deusa deles.
- Yogok não é clemente. – disse Gordon ao acaso.
- Uma naja é mais do que ele. – o monge riu – Yasmeena o impediu demais na questão dos sacrifícios, para que ele a permitisse se retirar em paz.
- Então, este é o plano dele! – afirmou Gordon.
- Não; tu és um homem simples, para alguém que se diz um vigia. A carta era destinada para El Borak. Mas o tadjique era muito avarento, e a vendeu para aqueles senhores e falou a eles sobre Yogok. Eles não a levarão para a Índia. Eles a venderão para um príncipe em Cachemira, o qual baterá nela até a morte, com um chinelo. O próprio Yogok os guiará através das colinas pela rota secreta. Ele tem medo do povo, mas seu ódio por Yasmeena o domina.
Gordon havia escutado tudo o que queria saber, e tinha pressa em ir embora. Ele havia abandonado seu plano experimental, de deixar Ormond levar a garota para fora da cidade, antes de resgatá-la. Com Yogok guiando os ingleses através de passagens ocultas, ele poderia achar impossível alcançá-los.
O monge, no entanto, não tinha pressa em terminar a conversa. Começou a falar novamente, e então Gordon viu uma luz se movendo como um vagalume na escuridão, e ouviu um rápido bater de pés descalços e um homem respirando ofegante. Ele recuou para dentro do cubículo.
Era outro monge que vinha pelo corredor, carregando um pequeno lampião de latão, o qual lhe iluminava o rosto largo, de lábios finos, e o fazia parecer um pouco com um demônio mongol.
Quando viu o monge do lado externo do cubículo, começou a falar rapidamente:
- Yogok e os homens brancos já foram até o quarto de Yasmeena. A garota, a serva dela que a espionava, nos disse que o demônio branco El Borak está em Yolgan. Ele conversou com Yasmeena há menos de meia hora. A garota correu até Yogok o mais rápido que pôde, mas não ousou sair antes que ele deixasse os aposentos de Yasmeena. Ele está em algum lugar no templo. Estou reunindo homens para procurar. Venha comigo, tu e tu também...
Ele girou o lampião, de modo que este iluminou diretamente Gordon, o qual se escondia no cubículo. Quando o homem piscou para ver as roupas de pastor, ao invés da típica vestimenta de um monge, Gordon lhe golpeou o maxilar, rápida e silenciosamente como o ataque de uma píton. O monge caiu como um homem baleado na cabeça e, enquanto o lampião se espatifava no chão, Gordon havia saltado e se engalfinhado com o outro homem, na escuridão repentina.
Um único grito vibrou até o teto arqueado, antes deste ser abafado no pescoço musculoso. O monge era tão difícil de segurar quanto uma cobra, e continuou tateando em busca de uma faca, mas quando caíram no chão de pedra, Gordon bateu selvagemente a cabeça do inimigo contra o mesmo. O homem ficou flácido, e Gordon o lançou ao lado da outra forma sem sentidos.

No instante seguinte, Gordon subiu a escada correndo. Ela ficava a poucos passos do cubículo onde ele havia se escondido, sua parte superior indistinta à luz branda do corredor de cima. Ele sabia que ninguém havia subido nem descido, enquanto conversava com o monge. Mas o homem com o lampião havia dito que Yogok e os outros tinham ido até o quarto de Yasmeena, e que sua serva traiçoeira havia ido até eles.
Ele deu a volta com pressa temerária, mas a figura caída no topo da escada não se ergueu para se opor a ele. Havia uma nova flacidez nos ombros do mudo, enquanto Gordon se apertava nos degraus. Ele havia sido esfaqueado nas costas, tão ferozmente que a coluna havia sido decepada num só golpe.
Gordon se perguntou por que o sacerdote mataria um de seus servos, mas não parou; com uma premonição lhe agarrando o coração, ele se lançou corredor abaixo e através da porta arcada, a qual estava destrancada. O quarto estava vazio. Os travesseiros do divã estavam espalhados no chão. Ele não viu Yasmeena.
Gordon se erguia como uma estátua no centro da sala, sua cimitarra na mão. O brilho azul da luz no aço não era mais mortífero que o cintilar em seus olhos negros. Seu olhar varria a sala, não se demorando mais numa leve saliência nas cortinas das paredes dos fundos do que em qualquer outro lugar.
Ele se voltou para a porta, deu um passo... então, deu a volta e correu através do quarto como uma rajada de vento, cortando e talhando a tapeçaria, antes que o homem escondido ali percebesse que havia sido descoberto. A lâmina afiada rasgou a tapeçaria de veludo em tiras, e o sangue jorrou; uma figura desabou, dos farrapos da cortina até o chão – um monge barbeado e literalmente cortado em pedaços. Sua faca lhe caíra, e ele só conseguia se arrastar e gemer, agarrando as artérias que esguichavam.
- Onde ela está? – rosnou Gordon, arfando de fúria, enquanto se agachava sobre seu trabalho horrendo – Onde ela está?
Mas o homem apenas choramingava e lamentava, e morreu sem falar.
Gordon correu até as paredes e começou a arrancar as cortinas. Em algum lugar, ele sabia, deveria haver uma porta secreta. Mas as paredes se mostravam planas, resistindo aos seus mais violentos esforços. Ele não poderia seguir Yasmeena pelo caminho através do qual seus raptores obviamente carregaram-na. Ele precisava fugir da cidade e correr até a caverna, onde os criados estavam escondidos, e para a qual os ingleses sem dúvida retornariam. Ele suava com a violência de sua raiva, a qual quase lhe submergia a cautela. Arrancou a toga de pele de camelo, sentindo, em seu frenesi, que ela o estorvava e tolhia.
Mas o ato trouxe um pensamento nascido do raciocínio frio. As vestimentas dos monges inconscientes no corredor lhe forneceriam um disfarce que o ajudaria a passar despercebido através do templo, onde ele sabia que vintenas de assassinos de cabeças raspadas o caçavam.
Saiu correndo silenciosamente do quarto, passando pelo cadáver esparramado, contornou a curva da escada... então, parou bruscamente. O corredor inferior era uma labareda de luzes e, ao pé dos degraus, havia uma multidão de monges, segurando tochas e espadas. Ele viu fuzis nas mãos de uma dúzia.
Os detalhes se revelaram com clareza assustadora, no instante em que os monges gritaram e ergueram seus fuzis. Atrás deles, ele viu uma garota de rosto redondo e olhos oblíquos se agachando pela parede. Ela agarrou uma corda, que pendia da parede, e a puxou; e Gordon sentiu os degraus cederem sob si. Os fuzis rugiram numa rajada irregular, enquanto ele caía pelo buraco negro que se abria sob seus pés, e as balas zuniram acima de sua cabeça. Um grito feroz de triunfo se ergueu dos monges.


7)

DEPOIS QUE GORDON A DEIXOU, Yasmeena fechou a porta e retornou ao seu divã. Ela examinava ociosamente a pistola grande que Gordon lhe dera, fascinada pelo brilho azul da luz em seu aço obtusamente polido.
Então, ela a lançou para um lado e se deitou de olhos fechados. Havia certo refinamento, ou misticismo inato nela, o qual a fazia se recusar a pôr muita fé em armas materiais. O super-refinamento da civilização, que instintivamente diminui a ação física, era dela. Apesar de toda a sua admiração por Gordon, ele era, apesar de tudo, para ela, um bárbaro que punha sua confiança no chumbo e no aço.
Ela subestimava a arma que ele lhe dera, e assim ela estava fora de seu alcance, quando o barulho de uma tapeçaria batendo a acordou. Ela deu a volta e mirou fixamente a parede dos fundos, com os olhos subitamente arregalados. Atrás da cortina, ela sabia – ou pensava saber – que havia uma sólida parede de pedra, construída duramente contra o lado perpendicular da montanha.
Mas agora aquela cortina se erguia, segura por uma mão amarela em forma de garra. A mão foi seguida por um rosto – um rosto perverso, acinzentado e de olhar malévolo, com olhos oblíquos e cabelos lisos caindo sobre uma testa estreita. O fino talho de uma boca se abria, mostrando dentes afiados.
Ela estava tão assombrada que ficou congelada, incapaz de simplesmente entender o fenômeno, até que o homem entrou na sala, com um silêncio deslizante que sugeria repulsivamente o de uma cobra. Então, ela viu uma abertura negra na parede atrás da tapeçaria erguida, e dois rostos destacados nela: rostos de homens brancos – duros e inexoráveis como pedra.
Ela se ergueu de um pulo e procurou pelo revólver, mas este estava no outro lado do divã. Ela correu em volta do divã para pegá-lo, mas o homem de olhos oblíquos, com um movimento incrivelmente rápido, ficou à frente dela e a apertou cruelmente nos braços magros dele, batendo-lhe uma das mãos na boca. Ele fazia menos caso com o retorcer do corpo flexível dela do que com o debater de uma criança.
- Rápido! – ele ordenou com fala áspera e gutural – Amarrem-na!
Os brancos o haviam seguido para dentro do quarto, mas foi um monge quem obedeceu, acrescentando uma mordaça de veludo. Um dos brancos pegou a pistola.
- Procure o mudo que dorme na escada. – o captor dela ordenou – Ele não é nosso homem, mas uma criatura posta pelo povo para guardá-la. Até mesmo um mudo pode falar por gestos, às vezes.
O monge de rosto maligno fez uma profunda reverência e, destrancado a porta, saiu, segurando uma longa faca. Outro monge permaneceu na estrada secreta.
- Você não sabia da porta secreta. – zombou o homem de olhos oblíquos – Idiota! A montanha sob este templo é uma colméia de túneis. Você tem sido constantemente espionada. A garota, a qual você pensou que estivesse drogada com bhang, espionou esta noite enquanto você conversava com El Borak. Aquilo não mudará meus planos de modo algum, exceto pelo fato de eu encarregar meus monges de matarem El Borak.
“Então, mostraremos o corpo dele ao povo e diremos a eles que você retornou ao seu pai, no Sétimo Inferno, porque Yolgan fora poluída pela presença de um franco. Enquanto isso, estes senhores estarão bem, no caminho deles para Cachemira com você, minha amável deusa! Filha de Erlik! Bah!”.
- Estamos perdendo tempo, Yogok. – Ormond interrompeu asperamente – Uma vez nas colinas, como você diz, não encontraremos nenhum dos kirghiz, mas quero estar longe de Yolgan à luz do dia.
O sacerdote balançou a cabeça afirmativamente, gesticulou para o monge que se aproximava e ergueu Yasmeena sobre uma liteira que ele carregava. Pembroke segurou a outra extremidade. Naquele momento, o outro monge deslizou de volta ao quarto, enxugando sangue de sua lâmina curva.
Yogok mandou que ele se escondesse atrás da cortina:
- El Borak pode voltar antes que os outros o encontrem.

Então, eles atravessaram a porta escondida e adentraram a escuridão, iluminada por um lampião de manteiga na mão de Yogok. O sacerdote deslizou para a pesada porta de pedra, que fazia parte da parede, e a fechou com uma tranca de bronze. Yasmeena viu, através da pequena luz do lampião, que eles estavam num estreito corredor, o qual se inclinava para baixo, num breu que ficava mais íngreme até terminar numa longa escadaria estreita, entalhada na rocha sólida.
No final desta escadaria, eles se depararam com um túnel horizontal, no qual seguiram por algum tempo – os ingleses e o monge se revezando na liteira. Finalmente, o túnel terminou numa parede de rocha, no centro da qual havia um bloco de pedra que funcionava sobre um pino. Este girou e eles entraram numa caverna, na saída da qual havia estrelas visíveis através de um emaranhado de galhos.
Quando Yogok empurrou o bloco de volta, sua superfície áspera parecia fazer parte da parede sólida. Ele apagou o lampião e, no momento seguinte, estava afastando os salgueiros amontoados, que escondiam a boca da caverna. Quando saíram à luz das estrelas, Yasmeena viu que estes salgueiros ficavam na margem de um rio.
Enquanto seus captores avançavam pelas árvores, atravessavam o canal raso e chegavam à outra margem, ela viu um amontoado de luzes distantes à sua direita. Aquelas luzes eram Yolgan. Eles haviam atravessado túneis dentro da rocha sólida da montanha, e saíram ao pé desta a menos de 800 metros da cidade. Logo à frente dela, a floresta se erguia em fileiras de trincheiras negras, e bem longe a leste, as colinas se erguiam em linhas fronteiriças.
Seus captores partiam através da luz das estrelas, seu aparente objetivo uma banqueta sobressalente, 800 metros ao leste. A distância foi coberta em silêncio. O nervosismo dos brancos não era mais evidente que o de Yogok. Cada um deles pensava qual seria seu destino, se as pessoas comuns de Yolgan os descobrissem raptando a deusa deles.
O medo de Yogok era maior que o dos ingleses. Ele havia coberto seu caminho com cadáveres – o pastor que lhe trouxera a mensagem de Ormond e o guardião mudo das escadas –; seus dentes batiam, enquanto ele invocava possibilidades. El Borak deveria morrer sem falar também – aquilo, ele já havia dito aos monges.
- Mais rápido! Mais rápido! – ele insistia, com um tom de pânico em sua voz, enquanto olhava ferozmente para os negros muros de floresta ao redor de si. No gemido do vento noturno, ele parecia ouvir o passo furtivo de perseguidores.
- Aqui está a caverna. – grunhiu Ormond – Deite-a no chão; não a arraste para o alto da inclinação. Vou buscar os empregados e os cavalos. Iremos montá-la num dos animais de carga. Temos que abandonar alguns dos nossos objetos, de qualquer forma. Ei, Akbar! – ele chamou suavemente.
Não houve resposta. O fogo havia sumido, dentro da caverna, e a entrada desta se abria negra e silenciosa.
- Será que foram dormir? – Ormond praguejou, irritado – Terei prazer em acordá-los. Esperem!
Ele correu suavemente para o rústico acampamento e desapareceu dentro da caverna. No momento seguinte, sua voz os alcançou, ecoando cavernosa entre as paredes rochosas. Os ecos não disfarçavam o medo súbito em sua voz.


Cool

QUANDO GORDON CAIU através dos degraus traiçoeiros, ele se precipitou para baixo em total escuridão, para aterrissar em rocha sólida. Nenhum homem entre cem conseguiria sobreviver à queda sem esmagar os ossos, mas El Borak parecia feito de arames unidos e molas de aço. Aterrissou de quatro, como um felino, com as articulações dobradas absorvendo o impacto. Mesmo assim, seu corpo inteiro estava dormente, e seus membros se amarrotaram sob ele, deixando sua estrutura se espatifar violentamente contra a pedra.
Ele ficou lá, meio atordoado por um tempo, e depois recuperou a calma, amaldiçoando o retesar e formigamento de suas mãos e pés, e se apalpou em busca de ossos quebrados.
Grato por perceber que estava intacto, ele tateou e achou a cimitarra, a qual largara quando caiu. Acima dele, a armadilha estava fechada. Ele não fazia idéia de onde estava, mas era tão escuro quanto uma catacumba estígia. Perguntou-se de que altura havia caído, e sentiu que era maior do que qualquer um acreditaria, se julgasse que ele escapara. Ele tateou ao redor na escuridão, e percebeu que estava numa cela quadrada de dimensões não muito grandes. A única porta estava trancada do lado de fora.
Suas investigações só lhe tomaram alguns segundos, e foi enquanto apalpava a porta, que ele ouviu alguém mexendo nela no lado de fora. Ele recuou, acreditando que aqueles que o lançaram para dentro da cela mal teriam tempo de alcançá-lo por um caminho mais seguro. Acreditou que fosse alguém que ouvira o som de sua queda, e estava vindo investigar, sem dúvida esperando encontrar um cadáver no chão.
A porta foi abruptamente aberta, e a luz o cegou, mas ele fez um corte na figura indistinta que avultava na porta aberta. Logo, seus olhos conseguiram enxergar, e eles viram um monge, jazendo no chão de um estreito corredor iluminado por lampiões, com sua cabeça raspada partida até as têmporas. A passagem estava vazia, exceto pelo homem morto.
O chão do corredor se inclinava levemente, e Gordon o desceu, pois subi-lo, obviamente, seria retornar para seus inimigos. Ele, por um momento, esperava ouvi-los uivando atrás de si, mas eles evidentemente achavam que sua queda na armadilha, peneirada pelas balas, foi suficiente, e não tinham pressa em conferir. Sem dúvida, era dever do monge ao qual matara pôr fim às vítimas que caíam na armadilha sobre a escada.
O corredor fazia uma volta abrupta para a direita, e os lampiões não ardiam mais ao longo das paredes. Gordon pegou um deles e prosseguiu, percebendo que a inclinação ficava maior, até obrigá-lo a deter sua descida com uma das mãos firmada contra a parede. Estas paredes eram rocha sólida, e ele sabia que estava na montanha sobre a qual o templo fora construído.
Ele não acreditava que algum dos habitantes de Yolgan soubesse destes túneis, exceto os monges; certamente Yasmeena os ignorava. Pensar na garota o fazia estremecer. Só o céu sabia onde ela estava naquele momento, mas ele não poderia ajudá-la enquanto não escapasse desse labirinto de ratos.
Em seguida, a passagem se curvou, em ângulo reto, para um túnel mais largo, o qual seguia horizontal, e ele o seguiu apressada, mas cuidadosamente, segurando seu lampião no alto. À sua frente, ele finalmente viu o fim do túnel, contra uma áspera parede de pedra, na qual havia uma porta com o formato de um maciço bloco quadrado. Esta, ele descobriu, estava pendurada num pino, e ele a girou facilmente, fazendo-o entrar numa caverna que ficava logo após.
Enquanto Yasmeena havia visto as estrelas por entre os galhos, não muito tempo antes, Gordon as via agora. Ele apagou a luz do lampião, parou por um instante para que seus olhos se acostumassem à súbita escuridão, e logo se dirigiu à boca da caverna.
Assim que a alcançou, ele recuou. Alguém vinha chapinhando através da água do lado de fora e se agitando através dos salgueiros. O homem veio subindo, ofegante, a curta inclinação íngreme, e Gordon viu o rosto maligno de Yogok sob a luz das estrelas, antes que o homem se tornasse uma bolha disforme de negrura ao entrar na caverna.
No instante seguinte, El Borak saltou, levando o homem ao chão. Yogok lançou um grito de arrepiar, e então Gordon lhe encontrou a garganta e se agachou sobre ele, enfiando e torcendo selvagemente os dedos no pescoço do sacerdote.
- Onde está Yasmeena? – ele exigiu.
Um gorgolejo o respondeu. Ele relaxou um pouco o aperto e repetiu a pergunta. Yogok estava louco de medo pelo ataque na escuridão, mas, de alguma forma – provavelmente pelo cheiro do corpo, ou a falta deste –, ele adivinhou que seu captor era um homem branco.
- Você é El Borak? – ele ofegou.
- Quem mais? Onde está Yasmeena? – Gordon salientou sua exigência, com uma torção que arrancou um gorgolejo de dor dos lábios finos de Yogok.
- Os ingleses estão com ela! – ele arfou.
- Onde eles estão?
- Não; eu não sei! Ahhh! Piedade, senhor! Eu conto!
Os olhos de Yogok luziam brancos de medo na escuridão. Seu corpo magro tremia como se em febre.
- Nós a levamos para uma caverna, onde os empregados dos cavaleiros estavam escondidos. Eles haviam ido embora, com os cavalos. Os ingleses me acusaram de traição. Eles disseram que eu havia me afastado com os empregados, e pretendia matá-los. Eles mentiram. Por Erlik, eu não sei o que aconteceu com seus malditos pachtuns! Os ingleses me atacaram, mas eu fugi enquanto um de meus servos lutava com eles.
Gordon o puxou até ficar de pé, o pôs de frente para a entrada da caverna e lhe amarrou as mãos nas costas com seu próprio cinto.
- Estamos voltando. – ele disse sombriamente – Um só ganido seu, e eu libertarei sua alma de cobra. Guie-me para a caverna de Ormond da forma mais direta que você conhece.
- Não; os cães vão me matar!
- Eu lhe matarei, se você não o fizer. – Gordon o assegurou, empurrando Yogok diante de si e fazendo-o cambalear.
O sacerdote não era do tipo que lutava quando acuado. Confrontado por dois perigos, ele escolhia o mais remoto. Atravessaram o rio e, no outro lado, Yogok virou à direita. Gordon o puxou para trás.
- Sei onde estou agora. – ele rosnou – E sei onde fica a caverna. É naquela saliência de terra à esquerda. Se houver um caminho através dos pinheiros, mostre-me.
Yogok se rendeu e apressou através das sombras, consciente do aperto de Gordon em seu colar, e da lâmina larga da cimitarra de Gordon, brilhando próxima. A escuridão que precedia o amanhecer estava aumentando, quando eles chegaram à caverna que avultava escura e silenciosa entre as árvores.
- Foram embora! – Yogok estremeceu.
- Eu não esperava encontrá-los aqui. – murmurou Gordon – Vim aqui para alcançar o rastro deles. Se eles achavam que você instigaria os nativos contra eles, eles partiriam. O que me preocupa é o que eles fizeram com Yasmeena.
- Ouça!
Yogok se sobressaltou convulsivamente, quando um gemido baixo golpeou o ar.
Gordon o derrubou e lhe amarrou, juntos, pés e mãos.
- Nem um ruído! – ele avisou, e depois subiu furtivamente a rampa, com a espada pronta.
Na entrada, ele hesitou, pouco disposto em se mostrar contra a fraca luz das estrelas às suas costas. Então, ele ouviu o gemido novamente, e percebeu que não era um fingimento. Era um ser humano em agonia mortal.
Tateou seu caminho dentro da escuridão, e logo tropeçou sobre algo, o que provocou outro gemido. Suas mãos lhe diziam que era um homem com roupas européias. Algo quente e gotejante lhe manchava as mãos, enquanto tateava. Apalpando os bolsos do homem, ele achou uma caixa de fósforos e riscou um, colocando-o nas mãos em forma de concha.
Um rosto pálido, com olhos vidrados, o encarava.
- Pembroke! – murmurou Gordon.
O som de seu nome parecia despertar o homem moribundo. Ele meio se ergueu sobre um cotovelo, o sangue lhe pingando da boca com o esforço.
- Ormond! – ele sussurrou horrivelmente – Você voltou? Maldito seja, ainda darei um jeito em você...
- Não sou Ormond. – rosnou o americano – Sou Gordon. Parece que alguém me poupou do trabalho de lhe matar. Onde está Yasmeena?
- Ele a levou. – A voz do inglês era pouco inteligível, sufocada pelo fluir do sangue – Ormond, aquele porco sujo! Encontramos a caverna vazia... percebemos que o velho Yogok havia nos traído. Nós o perseguimos. Ele fugiu. Seu maldito monge me esfaqueou. Ormond pegou Yasmeena e o monge, e foi embora. Ele está louco. Está tentando cruzar as montanhas a pé, com a garota, e o monge para guiá-lo. E ele me deixou para morrer; aquele suíno, aquele porco imundo!
A voz do moribundo se ergueu até um guincho histérico; ele se ergueu, seus olhos resplandecendo; então, um terrível estremecimento lhe percorreu o corpo e ele morreu.
Gordon se levantou, riscou outro fósforo e varreu a caverna com o olhar. Estava completamente vazia. Nenhuma arma de fogo à vista. Ormond, evidentemente, havia roubado seu companheiro moribundo. Ormond, partindo através das montanhas com uma mulher cativa, e um monge traiçoeiro como guia, a pé e sem provisões – certamente, aquele homem devia ser louco.
Voltando para Yogok, ele lhe desamarrou as pernas, repetindo a história de Pembroke em poucas palavras. Ele viu os olhos do sacerdote lampejarem à luz das estrelas.
- Ótimo! Irão todos morrer nas montanhas! Deixe-os ir!
- Nós os estamos seguindo. – respondeu Gordon – Você sabe o caminho pelo qual o monge guiará Ormond. Mostre-me.
Uma restauração da confiança havia despertado a insolência e o desafio:
- Não! Deixe-os morrer!
Com uma praga endurecida, Gordon agarrou o pescoço do sacerdote e lhe empurrou a cabeça para trás, entre os ombros, até seus olhos fitarem as estrelas.
- Maldito! – ele rangeu os dentes, sacudindo o homem como um cão faz com um rato – Se tentar me impedir agora, vou lhe matar da forma mais lenta que conheço. Você quer que eu lhe arraste de volta a Yolgan e conte ao povo que você conspirou contra a filha de Erlik Khan? Eles me matarão, mas irão lhe esfolar vivo!
Yogok sabia que Gordon não faria isso, não porque o americano temesse a morte, mas porque sacrificar a si mesmo seria acabar com a última esperança de Yasmeena. Mas os olhos brilhantes de Gordon estavam frios de medo; ele sentia a fúria abismal que tomara conta do branco, e sabia que El Borak estava a ponto de lhe rasgar membro a membro. Naquele momento, não havia ato sanguinário do qual Gordon não fosse capaz.
- Espere, senhor! – Yogok arfou – Vou lhe guiar.
- E me guie corretamente! – Gordon o puxou selvagemente para deixá-lo de pé – Eles partiram há menos de uma hora. Se não os alcançarmos ao amanhecer, verei que você me guiou errado e lhe amarrarei de cabeça para baixo a um penhasco, para que os abutres lhe comam vivo.

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Re: Contos de Howard - A Filha de Erlik Khan (Originalmente publicado em Top Notch, 1934).

Mensagem por Rogerio Rocha em Ter Jan 10, 2012 9:22 pm

)

NA ESCURIDÃO antes do amanhecer, Yogok guiou Gordon colinas adentro, através de uma trilha estreita que serpenteava entre ravinas e penhascos expostos ao vento, galgando sempre para o sul. As luzes eternas de Yolgan desapareciam atrás deles, ficando cada vez menores com a distância.
Eles partiram 800 metros a leste do desfiladeiro onde os turcomanos estavam escondidos. Gordon desejava ardentemente tirar seus homens da ravina antes do alvorecer, mas ele não ousava gastar tempo agora. Seus olhos ardiam de falta de sono, e momentos de tontura o acometiam, mas o fogo da energia que o impelia queimava mais ferozmente do que nunca. Ele apressava o sacerdote a uma velocidade cada vez maior, até o suor pingar como água dos membros trêmulos do homem.
- Ele terá que praticamente arrastar a garota. Ela lutará com ele a cada passo do caminho. E ele terá de forçar o monge o tempo todo, agora e depois, para fazê-lo apontar a trilha certa. Temos possibilidade de ganhar vantagem deles a cada passo.
A aurora plena os encontrou galgando uma saliência que cercava uma gigantesca banqueta, onde o vento os fazia cambalear. Então, à esquerda, soou um estrondo repentino de tiro de fuzil. O vento o trouxe de forma intermitente. Gordon deu a volta, desatando os binóculos. Eles estavam bem no alto das arestas e colinas que cercavam o vale.
Ele podia ver Yolgan à distância, semelhante a um amontoado de blocos de brinquedo. Podia ver os desfiladeiros, que desembocavam dentro do vale, se espalharem como os dedos de uma mão. Viu a garganta na qual os turcomanos haviam se refugiado. Pontos negros, os quais ele sabia serem homens, estavam dispersos por entre os matacões na entrada do profundo desfiladeiro e no alto, nas orlas das paredes; finos vapores brancos esguichavam.
Antes mesmo de pôr suas lentes em ação, ele sabia que os perseguidores kirghiz haviam finalmente farejado seus homens. Os turcomanos estavam encurralados nos desfiladeiros. Ele viu vapores de fumaça jorrando das rochas que, desde o lado da montanha, pendiam sobre a ravina que levava para fora do desfiladeiro profundo. Filamentos de pontos saíam dos portões de Yolgan; eram homens indo investigar os tiros. Sem dúvida, os kirghiz haviam mandado cavaleiros para tirarem os homens da cidade.
Yogok guinchou e caiu estirado sobre a saliência. Gordon sentiu seu gorro lhe ser arrancado da cabeça, como se por alguma mão invisível, e veio até ele o crepitar agudo de um fuzil.
Ele se jogou para trás de um matacão e começou a esquadrinhar o planalto estreito e de paredes íngremes, sobre o qual a saliência desembocava. Dali a pouco, uma cabeça e parte de um ombro se ergueram sobre um banco rochoso, e então um fuzil se ergueu e atirou. A bala tirou uma lasca do matacão próximo ao cotovelo de Gordon.
Ormond estava se saindo ainda pior do que Gordon esperava e, vendo seus perseguidores ganharem terreno, havia se voltado para enfrentá-los. Que ele reconheceu Gordon era evidente, pelos seus tiros zombeteiros. Havia uma sugestão de histeria neles.
Yogok estava impotente demais de terror para fazer qualquer coisa, exceto agarrar a saliência e gemer. Gordon começou a abrir seu caminho em direção ao inglês. Evidentemente, Ormond não sabia que ele não tinha arma de fogo. O sol ainda não estava sobre os picos, quando ele se transformou em fogo, e a luz e a atmosfera produziam tiros incertos.
Ormond atirou intensamente, enquanto Gordon corria da aresta para o matacão e do rochedo para a saliência, e às vezes, seu chumbo sussurrava perigosamente próximo. Mas Gordon deslizava cada vez mais perto, abrindo seu caminho de modo que o sol estaria atrás dele quando se erguesse. Algo a respeito da silenciosa figura sombria, à qual não conseguia ferir, começou a abalar a coragem de Ormond; era mais como ser tocaiado por um leopardo que por um ser humano.
Gordon não conseguiu ver Yasmeena, mas dali a pouco viu o monge. O homem se aproveitou de um momento em que Ormond estava carregando o fuzil. Ele pulou de trás da saliência, com as mãos amarradas nas costas, e correu rapidamente pelo rochedo, como um coelho. Ormond, como um homem enlouquecido, puxou uma pistola e lhe acertou uma bala entre os ombros; ele cambaleou e escorregou gritando sobre a beirada de 300 metros.
Gordon também saiu de seu esconderijo e veio correndo através do rochedo traiçoeiro, como uma rajada de vento da colina. Enquanto ele se aproximava, o sol apareceu sobre uma garota atrás dele, bem em cheio nos olhos de Ormond. O inglês soltou um grito incoerente, tentando proteger os olhos com o braço esquerdo, e começou a atirar meio cegamente. As balas passavam perto da cabeça de Gordon, ou arrancavam lascas de pedra sob seus pés que corriam. O pânico tomou conta de Ormond, e ele atirava sem a devida pontaria.
Então, a arma ficou descarregada. Mais um passo, e Gordon o alcançaria com aquele arco flutuante de aço, ao qual o sol tornava escarlate. Ormond arremessou a pistola cegamente, gritando:
- Seu lobisomem maldito! Ainda passo a perna em você!
E pulou para longe do alcance, com os braços estendidos. Seus pés bateram na borda inclinada de uma fenda, e ele caiu e desapareceu tão subitamente que aquilo pareceu a irrealidade de um sonho.
Gordon alcançou a greta e olhou para baixo, dentro da escuridão ressonante. Não conseguia ver nada, mas a fenda parecia não ter fundo. Com um furioso dar de ombros, ele se afastou, desapontado.
Atrás da plataforma rochosa, Gordon encontrou Yasmeena deitada e com os braços amarrados, onde Ormond a havia jogado. Seus chinelos macios estavam em farrapos, e as contusões e escoriações em sua pele delicada mostravam as tentativas brutais de Ormond em forçá-la à velocidade máxima ao longo da trilha rochosa.
Gordon lhe cortou as cordas, e ela agarrou-lhe os braços com toda a sua antiga ferocidade de paixão. Agora não havia medo nos olhos dela – apenas agitação selvagem.
- Disseram que você estava morto! – ela gritou – Eu sabia que eles mentiram! Eles não podem lhe matar mais do que às montanhas ou ao vento que sopra por elas. Você tem Yogok. Eu o vi. Ele conhece as trilhas secretas melhor do que o monge a quem Ormond matou. Vamos embora, enquanto os kirghiz estão matando os turcomanos! E se não tivermos suprimentos? É verão. Não nos congelaremos. Podemos passar fome por algum tempo. Vamos!
- Eu trouxe aqueles homens até Yolgan para meus próprios propósitos, Yasmeena. – ele respondeu – Não posso abandoná-los nem mesmo por sua causa.
Ela balançou afirmativamente a cabeça esplêndida:
- Eu esperava isso de você, El Borak.
O rifle de Ormond jazia bem próximo, mas não havia cartuchos nele. Gordon o lançou no precipício e, pegando a mão de Yasmeena, guiou-a de volta à saliência onde Yogok choramingava.
Gordon o pôs de pé e apontou para o desfiladeiro onde as fumaças brancas jorravam.
- Há algum caminho para alcançar aquela garganta sem retornar ao vale? Sua vida depende disso.
- Metade desses desfiladeiros tem saídas ocultas. – respondeu Yogok, trêmulo – Aquele tem. Mas não posso lhes guiar por aquele caminho com meus braços amarrados.
Gordon lhe desamarrou as mãos, mas amarrou o cinto que o sacerdote usava e lhe segurou a outra extremidade.
- Mostre o caminho. – ele ordenou.
Yogok os guiou de volta, ao longo da saliência à qual acabaram de atravessar, até um ponto onde, a meio caminho, era cortado por uma grande e natural estrada elevada de pedra sólida. Caminharam por ela, com profundidades vertiginosas ecoando a ambos os lados, até uma saliência larga, a qual margeava uma profunda ravina. Seguiram esta saliência ao redor de um penhasco colossal e, após algum tempo, Yogok pulou dentro de uma caverna que se abria sobre a trilha estreita.
Eles a atravessaram em semi-escuridão, aliviada pela luz que se infiltrava de uma fenda irregular no teto. A caverna serpenteava de forma íngreme para baixo, seguindo uma falha no rochedo, e finalmente saíram numa fenda triangular entre paredes altas. A fenda estreita, que era a boca da caverna, se abria num lado da fenda triangular, e era oculta da visão externa por uma espora de rocha que parecia fazer parte de uma parede sólida. Gordon havia olhado para dentro daquela fenda no dia anterior, e falhara em descobrir a caverna.
O som do tiroteio havia ficado mais alto à medida que eles avançavam ao longo da caverna sinuosa, e agora ele preenchia a ravina com ecos trovejantes. Estavam no desfiladeiro dos turcomanos. Gordon viu os guerreiros magros e fortes agachados entre os matacões na entrada, atirando em direção às cabeças com gorros de pele que apareciam entre as rochas das inclinações externas.
Ele gritou antes que o vissem, e eles quase o balearam antes de reconhecê-lo. Ele foi até eles, arrastando Yogok consigo, e os guerreiros arregalaram os olhos em silencioso espanto para o sacerdote trêmulo e a jovem em seus adereços esfarrapados. Ela mal prestou atenção neles; eram lobos cujas presas ela não temia; toda a sua atenção estava centrada em Gordon. Quando uma bala zuniu próxima a ela, ela não recuou.
Homens se agachavam na entrada da garganta, atirando dentro dela. Balas zuniam de volta desde a passagem.
- Eles se aproximaram furtivamente na escuridão. – grunhiu Orkhan, enfaixando um sangrento buraco de bala em seu antebraço – Eles haviam cercado a entrada da ravina, antes que nossas sentinelas os vissem. Cortaram a garganta da sentinela que havíamos postado na ravina, e vieram furtivamente através dela. Se outros no desfiladeiro não os tivessem visto e aberto fogo, eles degolariam a todos nós, enquanto dormíamos. Sim, eles são como gatos que enxergam no escuro. O que faremos, El Borak? Estamos numa armadilha. Não podemos galgar estas paredes. Existe a fonte e capim para os cavalos, e dormimos, mas não temos comida, e nossa munição não durará para sempre.
Gordon tomou um iatagã (7) de um dos homens e o entregou para Yasmeena.
- Vigie Yogok. – ele mandou – Mate-o, se ele tentar fugir.
E, pelo lampejo nos olhos dela, ele percebeu que ela finalmente notou o valor da ação direta em seu lugar apropriado, e que ela não hesitaria em cumprir sua ordem. Yogok parecia uma serpente chamuscada, em sua fúria, mas ele temia Yasmeena tanto quanto a Gordon.
El Borak pegou um fuzil e um punhado de cartuchos em seu caminho para a boca, alastrada por matacões, do desfiladeiro. Três turcomanos jaziam mortos entre as rochas, e outros estavam feridos. Os kirghiz avançavam pela inclinação externa a pé, de rocha em rocha, tentando entrar no corpo-a-corpo onde seu número superior contaria, mas não querendo sacrificar vidas demais para chegarem lá. Da cidade, uma linha irregular de homens fluía pelos pinheiros.
- Teremos de sair desta cilada, antes que os monges venham com os kirghiz, e os liderem colinas acima e descendo aquela caverna. – Gordon murmurou.
Ele já conseguia vê-los subindo com esforço as primeiras arestas das colinas e gritando desvairadamente para os homens tribais, à medida que avançavam. Trabalhando com pressa feroz, ele pôs meia dúzia de homens nos melhores cavalos e, montando Yogok e Yasmeena em cavalos descansados, ele ordenou ao sacerdote que guiasse os turcomanos de volta pela caverna. Para Orkhan Shah, ele deu instruções para seguir as ordens de Yasmeena, e o turcomano estava tão impregnado de confiança que ele não fez objeção em obedecer a uma mulher.
Três dos homens restantes, Gordon postou na ravina, e com os outros três, ele defendia a boca do desfiladeiro. Eles começaram a atirar, enquanto os outros apressavam seus cavalos pelo desfiladeiro. Os homens nas inclinações mais baixas sentiram que as rajadas diminuíam, e vieram subindo enfurecidamente as ladeiras, apenas para se esconderem novamente, enquanto eram varridos por uma saraivada de chumbo, cuja precisão mortal era disfarçada por sua falta de volume. A presença de Gordon animava seus homens, e eles punham um ânimo renovado no trabalho de seus rifles.


Quando o último cavaleiro havia desaparecido dentro da fenda, Gordon esperou até ele achar que os fugitivos teriam tempo para atravessar a caverna sinuosa, e então recuou rapidamente, pegou os homens na ravina e correu em busca da saída oculta. Os homens lá fora suspeitaram de uma armadilha no súbito fim dos disparos, e se detiveram por longos minutos, durante os quais Gordon e seus homens galopavam através da caverna serpenteante, os cascos de seus cavalos trovejando pela passagem estreita.
Os outros os esperavam na saliência que ladeava a ravina, e Gordon os mandou continuarem correndo. Ele praguejou porque não poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo – à frente da coluna, intimidando Yogok, e na retaguarda, de olho nos primeiros perseguidores a saírem a cavalo sobre a saliência. Mas Yasmeena, brandindo a espada no pescoço do sacerdote, era uma garantia contra traição na vanguarda. Ela havia jurado enfiar a lâmina no peito dele, se os kirghiz chegassem ao alcance de um fuzil, e Yogok suava de medo e ele próprio apressava o bando para diante.
Eles se moviam ao redor do canto do penhasco e através da aresta – um caminho alto, de 800 metros de comprimento, com uma camada de rocha se inclinando de forma íngreme para baixo, por 300 metros em ambos os lados.
Gordon esperou sozinho no canto da saliência. Quando seu grupo se movia como insetos ao longo do topo da aresta, o primeiro dos kirghiz veio correndo sobre a saliência. Colocando seu cavalo atrás de um contraforte saliente de rocha, Gordon alinhou sua visão cuidadosamente e atirou. Era uma longa distância, mesmo para ele; tão longa, que ele errou o primeiro montador e acertou o cavalo.
O animal atingido empinou relinchando e pulou para trás. Os relinchos e pulos do animal enlouquecido, antes que este desabasse sobre a saliência, deixaram os cavalos confusos atrás dele. Mais três ficaram fora de controle e caíram sobre o penhasco, e os outros kirghiz recuaram caverna adentro. Após algum tempo, eles tentaram novamente, mas uma bala ricocheteando no rochedo os colocou para correrem de volta.
Uma olhada sobre o ombro mostrou a Gordon seus cavaleiros acabando de descerem do topo sobre a saliência mais distante. Ele girou e pôs seu cavalo para correr ao longo da trilha. Se ele demorasse, os kirghiz poderiam tentar sair novamente, não acharem ninguém que se opusesse a eles, e alcançarem a curva da trilha a tempo de arrancá-lo da estrada alta.
Muitos de seu bando endurecido haviam desmontado, guiando seus cavalos a pé. Gordon cavalgava a golpe, com a morte se abrindo a ambos os lados, se o cavalo escorregasse ou desse um único passo em falso. Mas o animal tinha o andar seguro de um carneiro das montanhas.
A cabeça de Gordon girava por falta de sono, enquanto olhava para baixo, dentro da névoa azul do abismo, mas ele não afrouxou o passo. Quando ele desceu a inclinação, sobre a saliência onde Yasmeena se encontrava, com o rosto pálido e suas unhas lhe afundando nas palmas rosas das mãos, os kirghiz ainda não haviam aparecido.
Gordon forçou seus cavaleiros o máximo que pôde, fazendo-os de tempos em tempos mudarem para os cavalos descansados, a fim de poupar os animais o máximo possível. Ainda restava meia dúzia destes. Muitos dos homens estavam com vertigens, devido à fome e à altitude. Ele próprio estava louco para dormir, e se mantinha acordado apenas por uma força de vontade que fazia as colinas cambalearem diante de seus olhos.
Ele mantinha seu domínio sobre a clareza de propósito, como apenas um homem enrijecido por uma vida selvagemente dura pode fazer, seguindo as trilhas que Yogok apontava. Contornaram saliências que pairavam sobre ravinas, cujos fundos se perdiam em escuridão sombria. Mergulharam em desfiladeiros, como o corte de uma faca, onde paredes íngremes se erguiam para os céus em ambos os lados.
Atrás deles, de tempos em tempos, ouviam gritos distantes; e, num momento em que subiam com esforço a banqueta de um penhasco vertiginoso, numa trilha onde os cavalos lutavam para ficarem de pé, eles viram seus perseguidores lá embaixo, atrás deles. Os kirghiz e monges não estavam mantendo tal passo suicida; o ódio raramente é tão desesperado quanto a vontade de viver.
O cume nevado do Monte Erlik avultava cada vez mais alto diante deles, e Yogok, quando interrogado, jurou que o caminho para a segurança ficava através da montanha. Ele não falaria mais; estava verde de medo, e sua mente se agarrava a um só pensamento: manter o caminho que compraria sua vida. Temia seus captores não mais do que temia que seus súditos perseguidores os alcançassem e soubessem de sua duplicidade em relação à deusa deles.
Eles seguiam adiante, como homens já mortos, começando a oscilar de fraqueza e exaustão. Os cavalos esmoreciam e vacilavam. O vento era como aço afiado. A escuridão caía, quando eles seguiram o espinhaço de uma aresta gigante, a qual corria como uma banqueta natural até a elevação perpendicular do Monte Erlik Khan.
A montanha se erguia gigantescamente acima deles – uma massa bruta de penhascos, escarpamentos vertiginosos e encostas colossais, com o pináculo revestido de neve, vislumbrado entre os grandes contrafortes, dominando tudo. A aresta terminava numa saliência lá no alto, entre os penhascos; e, no rochedo perpendicular, havia uma porta de bronze, abundantemente entalhada com inscrições que Gordon não conseguia decifrar. Era pesada o suficiente para resistir a um ataque de artilharia.
- Isto é consagrado a Erlik. – disse Yogok, mas ele demonstrou quase tanta reverência quanto um dos muçulmanos – Pressione a porta. Não; não tenha medo. Juro por minha vida, não é uma armadilha.
- Sua vida depende disso. – Gordon o assegurou sombriamente, e ele próprio pôs um ombro contra a porta, quase caindo enquanto desmontava.


10)

O PORTÃO MACIÇO girou para dentro, com uma facilidade que demonstrava que as dobradiças antigas haviam sido lubrificadas recentemente. Uma tocha improvisada revelava a entrada para um túnel, escavada na rocha sólida. A poucos passos da porta, o túnel se abria para fora como o pescoço de uma garrafa, e a tocha bruxuleante, mantida na entrada, apenas dava uma vaga idéia da vastidão de suas dimensões.
- Este túnel corre bem dentro da montanha. – disse Yogok – Ao amanhecer, podemos estar fora do alcance daqueles que nos perseguem, porque, mesmo que eles subam a montanha pela rota mais direta, eles devem seguir a pé, e isso tirará deles todo o restante da noite e todo o dia seguinte. Se eles contornarem a montanha e abrirem caminho através das passagens das colinas ao redor, vai levar mais tempo ainda; e os cavalos deles estão cansados, também.
“Esse é o caminho pelo qual eu ia guiar Ormond. Eu não o levaria por dentro da montanha. Mas é o único meio de escapatória para vocês. Há comida aqui. Em certas estações do ano, os monges trabalham aqui. Há lampiões naquela cela”.
Ele apontou para uma pequena câmara escavada na rocha, logo dentro da portada. Gordon acendeu vários dos lampiões a manteiga, e os deu para os turcomanos carregarem. Ele não ousava seguir o percurso sugerido pela precaução, e cavalgou adiante para investigar, antes de liderar seus homens para dentro do túnel. Os perseguidores estavam muito próximos. Ele tinha de trancar a enorme porta e continuar avançando, acreditando no pedido do sacerdote para salvar a própria pele.
Quando todos os homens estavam dentro do túnel, Yogok orientou o trancamento da porta – barras gigantes de bronze, tão grossas quanto a perna de um homem. Foi necessária meia dúzia dos enfraquecidos turcomanos para erguer uma, mas uma vez que estavam naquele local, Gordon estava certo de que nada deficiente de armas de cerco pudesse forçar a porta de toneladas de peso, com suas pesadas soleiras de bronze e ombreiras profundamente encravadas na rocha.
Ele fez Yogok montar entre ele e Orkhan, o turcomano segurando um lampião. Não era útil confiar em Yogok, embora o sacerdote estivesse se satisfazendo com o pensamento de que ele estava, pelo menos, se livrando da “deusa” à qual temia e odiava, embora isso significasse se abster de sua vingança sobre ela.
Mesmo com todas as suas faculdades ocupadas numa batalha selvagem para evitar cair sem sentidos, devido à exaustão, Gordon encontrou tempo para ficar deslumbrado com o que a luz o mostrava. Ele nunca sonhara com existência de tal lugar. Trinta homens seriam capazes de cavalgarem lado a lado na passagem em forma de caverna, e o teto se erguia fora do alcance visual em alguns lugares; em outros, estalactites refletiam a luz em mil cores cintilantes.
O chão e as paredes eram tão planos quanto mármore modelado pelo homem, e Gordon se perguntou quantos séculos haviam sido necessários para serem cortados e aplanados. Celas apareciam a intervalos regulares, entalhadas na rocha nas laterais, e logo em seguida ele viu marcas de picaretas, e então percebeu brilhos de amarelo fosco.
A luz o mostrava a incrível verdade. As histórias do Monte Erlik Khan eram verdadeiras. As paredes eram decoradas com veios de ouro, que poderiam ser arrancados da rocha com a ponta de uma faca.
Os turcomanos, que farejavam saque como abutres farejam carniça, despertaram subitamente de seu atordoamento e fadiga, e começaram a adquirir um interesse quase dolorosamente intenso.
- É aqui onde os monges pegam o ouro deles, senhor. – disse Orkhan, com seus olhos resplandecendo à luz do lampião – Deixe-me “persuadir” o velho um pouco, e ele nos dirá onde eles têm escondido aquilo que têm arrancado das paredes.
Mas “o velho” não precisava de persuasão. Ele apontou uma câmara quadrada, na qual ficavam pilhas de objetos de forma peculiar, que eram barras de ouro virgem. Em outra, celas maiores eram os aparelhos rudimentares nos quais fundiam o minério e moldavam o metal.
- Levem o que quiserem. – disse Yogok, com ar indiferente – Mil cavalos não conseguiriam levar todo o ouro que moldamos e armazenamos, e mal temos colocado as mãos na riqueza dos veios.
Lábios finos foram lambidos com avareza, bigodes caídos foram torcidos com emoção, e olhos que ardiam como os de falcões se voltaram, questionadores, para Gordon.
- Vocês têm cavalos descansados. – ele sugeriu, e aquilo foi suficiente para eles.
Depois disso, nada era capaz de convencê-los de que tudo pelo que passaram não havia sido planejado por Gordon, no intuito de guiá-los ao ouro, o qual era o saque que havia prometido para eles. Carregaram os pôneis extras, até ele interferir para que poupassem a força dos animais. Então, eles arrancaram pedaços do ouro macio, e abarrotaram suas bolsas e cintos; e, mesmo assim, mal diminuíram as pilhas. Alguns dos incursores ergueram as vozes e choraram, ao verem o quanto teriam de deixar para trás.
- Sem dúvida – eles prometeram uns aos outros –, retornaremos com carroças e muitos cavalos, e levaremos cada migalha deles, queira Alá!
- Cães! – praguejou Gordon – Tens, cada um de vós, uma fortuna além de seus sonhos. Acaso sois chacais, para se banquetearem com carniça até suas barrigas estourarem? Ireis demorar aqui, até os kirghiz cruzarem a montanha e nos matarem? O que seria do ouro então, seus canalhas de orelhas cortadas?
Interessava mais ao americano uma cela, onde havia cevada estocada em sacos de couro, e ele fez os homens tribais carregarem alguns dos cavalos com comida, ao invés de ouro. Eles resmungaram, mas o obedeceram. Eles agora o obedeceriam, se Gordon os mandasse cavalgar com ele para Jehannum.
Cada nervo de seu corpo gritava por sono, submergindo a fome; mas ele mastigava um punhado de cevada crua e fustigava suas forças combalidas, com o chicote de sua força de vontade. Yasmeena pendia cansada sobre sua sela, mas seus olhos brilhavam límpidos à luz do lampião, e Gordon estava morosamente consciente de um profundo respeito por ela, o qual sobrepujava até mesmo sua admiração anterior.
Continuaram cavalgando através daquela caverna cintilante, os homens tribais mastigando cevada e balbuciando em êxtase sobre as alegrias que o ouro deles compraria; finalmente chegaram a uma porta de bronze, a qual era uma cópia da que ficava na outra extremidade do túnel. Não estava trancada. Yogok não a conservava, mas os monges visitavam o Monte Erlik por séculos. A porta girou para dentro com seus esforços, e eles piscaram com o brilho de uma aurora branca.

Eles olhavam para fora, em direção a uma pequena saliência, da qual uma trilha estreita serpenteava ao longo da beirada de uma escarpa gigante. Num dos lados, a terra caía íngreme por muitos metros, de modo que um rio lá no fundo parecia um fio de prata; e, no outro lado, um penhasco vertical se erguia a uns 1500 metros.
O penhasco limitava a visão à esquerda, mas, à direita, Gordon conseguia ver algumas das montanhas que flanqueavam o Monte Erlik Khan; e o vale, lá embaixo deles, seguia em direção ao sul até um desfiladeiro à distância – um corte na trincheira selvagem das colinas.
- Isto é a vida para você, El Borak. – disse Yogok, apontando para o desfiladeiro – A cerca de cinco quilômetros do ponto onde estamos agora, esta trilha desce para dentro do vale, onde há água, caça e capim farto para os cavalos. Você pode segui-la na direção sul, além dos desfiladeiros, numa viagem de três dias, quando você adentrará a região à qual bem conhece. Ela é habitada por tribos de saqueadores, mas elas não atacarão um grupo tão grande quanto o seu. Você poderá estar atravessando a passagem, antes que os kirghiz contornem a montanha, e eles não lhes seguirão através dela. Esta é a fronteira da região deles. Agora, deixe-me ir.
- Ainda não; vou lhe libertar no desfiladeiro. Você pode voltar facilmente para cá, esperar os kirghiz e contá-los qualquer mentira que queira sobre a deusa.
Yogok olhou ferozmente para Gordon. Os olhos do americano estavam injetados de sangue, e a pele bem esticada sobre os ossos da face. Parecia um homem que havia suado nos fogos do inferno, e ele se sentia da mesma forma. Não havia razão para as objeções estridentes de Yogok, exceto um desejo de sair, o mais rápido possível, da companhia daqueles a quem odiava.
No estado de Gordon, um homem reverte aos instintos primitivos, e o americano continha seus nervos tamborilantes, para não arrebentar os miolos do sacerdote com a coronha de sua arma. Discussões e insistências eram como insultos gritantes para seu cérebro que se esforçava violentamente.
Enquanto o sacerdote grasnava, e Gordon hesitava entre argumentar com ele ou derrubá-lo, os turcomanos, inspirados pelo ouro e comida, e ansiosos pela trilha, começaram a se agrupar atrás dele. Meia dúzia havia saído sobre a saliência, quando Gordon os percebeu e, ordenando a Orkhan que trouxesse Yogok, cavalgou atrás deles sobre a saliência, pretendendo assumir a liderança como sempre. Mas um dos homens já estava fora da trilha, e não conseguia nem retornar, nem se encostar à parede o suficiente para deixar Gordon passar.
O americano, forçosamente, gritou para que ele prosseguisse, e ele obedeceria; e, quando Gordon pôs seu cavalo na trilha, uma saraivada de matacões veio trovejando do alto. Eles atingiram o desventurado turcomano, e o varreram – bem como ao seu cavalo – da trilha, como uma vassoura varre uma aranha da parede. Uma das pedras, saltando desde a saliência, atingiu o cavalo de Gordon e quebrou a perna do animal; este relinchou e desabou sobre o lado, atrás do outro.
Gordon se lançou para longe quando o cavalo caiu, aterrissou meio sobre a saliência e agarrou um caminho desesperado para a segurança, com os gritos de Yasmeena e os brados dos turcomanos lhe ressoando nos ouvidos. Não havia nada para ser visto e baleado, mas alguns deles dispararam seus rifles de qualquer forma, e a saraivada foi acolhida por um estrépito selvagem de risada zombeteira, vinda dos penhascos acima.
Em nada acovardado por ter escapado por um triz, Gordon guiou seus homens de volta ao abrigo da caverna. Eles pareciam lobos numa armadilha, prontos para golpearem cegamente a torto e a direito, e doze tulwars pairaram sobre a cabeça de Yogok:
- Matem-no! Ele nos guiou até uma armadilha. Alá!
O rosto de Yogok era uma máscara verde e abalada de medo. Ele guinchou como um gato torturado.
- Não! Eu lhes guiei rápida e seguramente! Os kirghiz não conseguiriam alcançar este lado da montanha agora!
- Havia monges escondidos naquelas celas? – perguntou Gordon – Eles poderiam ter saído furtivamente, quando nos viram entrar. Há algum monge aqui?
- Não; Erlik é minha testemunha! Nós trabalhamos o ouro três luas por ano; em outros tempos, é morte certa se aproximar do Monte Erlik. Não sei quem é.
Gordon se aventurou para fora da trilha novamente, e foi recebido por outra chuva de pedras, à qual ele mal evitou, e uma voz bradou bem acima dele:
- Você, cão ianque, como se sente agora? Eu te peguei agora, maldito! Pensou que eu estivesse acabado, quando caí naquela fenda, não? Bom, havia uma saliência, poucos metros abaixo, na qual aterrissei. Se eu tivesse uma arma, lhe mataria quando você olhou para baixo. Subi para fora dali, quando você foi embora.
- Ormond! – rosnou Gordon.
- Achou que eu não havia arrancado algum segredo daquele monge? – gritou o inglês – Ele me contou sobre as trilhas e o Monte Erlik, depois que quebrei alguns dentes dele com um cano de arma. Vi o velho Yogok com você, e vi que ele lhe guiaria para Erlik. Cheguei aqui primeiro. Gostaria de ter trancado a porta e lhes deixar do lado de fora, para serem trucidados pelos sujeitos que estão lhes perseguindo, mas não consegui levantar as trancas. Mas, de qualquer forma, lhes armei uma cilada. Vocês não podem abandonar a caverna; se o fizerem, lhes esmagarei como insetos no caminho. Posso lhe ver nele, e você não consegue me ver. Vou lhe manter aqui, até os kirghiz chegarem. Ainda tenho o emblema de Yasmeena. Eles me ouvirão.
“Direi a eles que Yogok está lhes ajudando a raptarem-na; eles matarão a todos vocês, menos ela. Irão levá-la de volta, mas eu agora não me importo. Não preciso do dinheiro daqueles caxemíris. Tenho o segredo do Monte Erlik Khan!”.
Gordon recuou pela portada e repetiu o que o inglês havia dito. Yogok ficou com uma sombra mais verde em seu medo, e todos fitaram silenciosamente El Borak. Seu olhar injetado em sangue perambulava por eles, enquanto miravam com olhos semicerrados, cabelos despenteados e rostos macilentos, com os lampiões empalidecidos pela aurora, como vampiros pegos sobre a terra pelo amanhecer. Ele organizou sombriamente seu raciocínio errante. Gordon nunca havia antes atingido os limites de sua resistência; ele sempre arranjava uma reserva escondida e mais profunda de vitalidade sob o que parecia ser a última.
- Há alguma outra saída daqui? – ele indagou.
Yogok balançou a cabeça, batendo novamente os dentes de terror:
- Nenhum caminho que homens ou cavalos possam subir.
- O que quer dizer?
O sacerdote se moveu de volta à escuridão, e segurou um lampião próximo ao lado da parede onde o túnel se estreitava na entrada. Pedaços enferrujados de metal se sobressaíam da rocha.
- Aqui já foi uma escada de mão. – ele disse – Ela guia para o alto, até uma fenda na parede, onde, há muito tempo atrás, alguém vigiava a passagem sul, por causa de invasores. Mas ninguém a galgou por muitos anos, e os apoios para as mãos estão enferrujados e podres. A fenda se abre nos penhascos externos, que são perpendiculares, e, mesmo que um homem a alcançasse, ele mal conseguiria descer o lado externo.
- Bom, talvez eu consiga pegar Ormond pela fenda. – murmurou Gordon, sua cabeça tendo vertigens com o esforço de pensar.
Manter-se imóvel estava tornando infinitamente mais difícil sua luta para continuar acordado. O murmúrio dos turcomanos era um emaranhado de sons sem significado, e os ansiosos olhos escuros de Yasmeena pareciam mirá-lo de uma grande distância. Ele achou que sentiria os braços dela o agarrarem brevemente, mas não conseguia ter certeza. As luzes começavam a nadar numa névoa espessa.
Forçando a si mesmo à vigilância, ao bater no próprio rosto com a mão aberta, ele começou a galgar, com um rifle suspenso às suas costas. Orkhan lhe dava puxões, pedindo que ele o permitisse vigiar seu cavalo, mas Gordon se desembaraçou dele. Em seu cérebro atordoado, havia uma convicção de que a responsabilidade era dele próprio. Ele subiu feito um autômato, devagar, todas as suas capacidades desnorteadas concentradas sombriamente na tarefa.
A um metro e meio de altura, a luz dos lampiões parou de ajudá-lo, e ele subiu tateando na escuridão, apalpando em busca das trancas enferrujadas na parede. Estavam tão apodrecidas, que ele não ousava colocar todo o seu peso em qualquer uma delas. Em alguns lugares, elas estavam ausentes, e ele se agarrava, com os dedos, nos nichos que elas haviam sido. Somente o declive na rocha lhe permitia executar a subida, e ela parecia interminável, uma eternidade infernal de tortura.
Os lampiões abaixo dele pareciam pirilampos no escuro; e o teto, com suas estalactites aglomeradas, estava a apenas poucos metros acima de sua cabeça. Então, ele viu um brilho fraco de luz e, um instante depois, estava se agachando numa fenda que se abria para o ar livre. Tinha menos de dois metros de largura, e não era alta o bastante para um homem ficar ereto.
Ele se arrastou por ela por uns nove metros, e então olhou para fora, em direção a um declive áspero, que caía até um cume de penhascos, 30 metros abaixo. Não conseguia ver a saliência onde a porta se abria, nem a trilha que seguia a partir dela, mas viu uma figura agachada entre os matacões ao longo da beirada do penhasco, e tirou o fuzil que levava nas costas.
Normalmente, ele jamais erraria o alvo àquela distância. Mas seus olhos injetados em sangue se recusavam a alinharem a mira. O sono nunca ataca um homem cansado tão ferozmente quanto na luz crescente da aurora. A figura entre as rochas abaixo se fundia e misturava fantasticamente com o cenário, e a mira do fuzil era um mero borrão.
Fechando os dentes, Gordon puxou o gatilho, e a bala se espatifou na rocha, a 30 cm da cabeça de Ormond. O inglês mergulhou para longe da mira, entre os matacões.
Desesperado, Gordon lançou seu rifle às costas, e pôs uma perna sobre a borda da fenda. Ele estava convicto de que Ormond não tinha arma de fogo. Lá embaixo, os turcomanos bradavam como uma alcatéia, mas suas capacidades entorpecidas estavam totalmente ocupadas na tarefa de descer o declive. Ele tropeçou, cambaleou, quase caiu e finalmente escorregou, veio deslizando e caindo, até seu rifle se agarrar a uma projeção e o deixar pendurado pela alça.
Numa bruma vermelha, ele viu Ormond sair do esconderijo com um tulwar ao qual deveria ter encontrado na caverna; e, em pânico, antes que o inglês galgasse e o matasse enquanto pendia indefeso, Gordon firmou os pés e cotovelos contra a rocha e deu um puxão feroz, quebrando a correia do fuzil. Ele mergulhou como chumbo, bateu na inclinação, agarrou-se a rochas e saliências, e caiu sobre pedra, a mais de três metros e meio da beirada do penhasco, enquanto seu fuzil, caindo diante dele, estava perdido.
A queda lhe sacudiu os nervos dormentes de volta à vida e tirou algumas teias de aranha de seu cérebro atordoado. Ormond estava a poucos passos de distância dele, quando Gordon se ergueu, puxando a cimitarra. O inglês era tão feroz e desvairado na aparência quanto Gordon, e seus olhos ardiam com um arrebatamento que quase equivalia à loucura.
- Aço com aço agora, El Borak! – Ormond rangeu os dentes – Vamos ver se você é o espadachim que dizem que é!
Ormond investiu e Gordon o encontrou, com a exaustão reduzida pelo ódio e pelo delírio pungente por batalha. Lutaram avançando e recuando ao longo da beirada do penhasco, às vezes com um único pé separando-os da eternidade, até o clangor das espadas acordar as águias para guincharem histéricas.
Ormond lutava como um selvagem, mas com toda a técnica que os mestres de espada de sua Inglaterra natal o haviam ensinado. Gordon lutava como havia aprendido em batalhas sombrias e impiedosas, nas colinas, estepes e desertos. Ele lutava como um afegão, com a intensidade furiosa do ataque, a qual reúne força como um furacão à medida que progride.
Batendo em sua lâmina como um ferreiro na forja, Gordon fez o inglês cambalear diante dele, até o homem oscilar vertiginosamente, com seus calcanhares sobre a beirada do penhasco.
- Suíno! – ofegou Ormond, quase sem fôlego, e cuspiu no rosto de seu inimigo e talhou loucamente em direção à sua cabeça.
- Isto é por Ahmed! – rugiu Gordon, e sua cimitarra rodopiou a lâmina de Ormond para trás e atingiu o alvo com um rangido.
O inglês cambaleou para fora, seu rosto subitamente manchado por sangue e miolos, e caiu silenciosamente para trás, em direção ao abismo.
Gordon se sentou sobre um matacão, subitamente consciente do tremor dos músculos de suas pernas. Ele ficou ali, sua lâmina ensangüentada sobre os joelhos e a cabeça afundada nas mãos, seu cérebro um vazio negro, até gritos que fluíam de baixo o trazerem de volta à consciência.
- Olá, El Borak! Um homem com um crânio rachado passou por nós, caindo vale adentro! Estás a salvo? Aguardamos ordens!
Ele levantou a cabeça e olhou rapidamente para o sol, que acabava de se erguer sobre os picos orientais, transformando a neve do Monte Erlik Khan numa chama escarlate. Ele comerciaria todo o ouro dos monges de Yolgan, para que lhe permitissem deitar e dormir por uma hora; e se erguer sobre as pernas enrijecidas, as quais tremiam com seu peso, era uma tarefa de magnitude apavorante. Mas seu trabalho ainda não havia acabado; não havia descanso para ele neste lado do desfiladeiro.
Concentrando seus retalhos de força, ele gritou para os incursores lá embaixo:
- Subam nos cavalos e cavalguem, filhos de cães sem nome! Sigam a trilha, e eu lhes acompanharei pelo penhasco. Vejo um lugar, após a próxima curva, onde eu posso descer até a trilha. Tragam Yogok com vocês; ele fez por merecer sua liberdade, mas ainda não é o momento.
- Depressa, El Borak! – o grito dourado de Yasmeena flutuou – É uma longa distância até Déli, e há muitas montanhas no caminho!
Gordon riu e embainhou a cimitarra, e sua risada soou como a alegria medonha de uma hiena; abaixo dele, os turcomanos haviam tomado a estrada, e já estavam entoando uma canção improvisada em sua honra, chamando de “Filho da Espada” ao homem que cambaleava ao longo dos penhascos acima dele, com um rosto que parecia uma caveira sorridente, e pés que deixavam manchas de sangue sobre a rocha.

1) Calpack: Típico chapéu turco, com copa alta (Nota do Tradutor);
2) Kibitka: Também chamada de yur, é uma tenda ou cabana circular, usada tradicionalmente pelos pastores mongóis (N. do T.);
3) Segurelha: Um tipo de erva aromática (idem);
4) Jehannum: O inferno da religião muçulmana (ibidem);
5) Tulwar: Um tipo de sabre indiano (ibid.);
6) Bhang: Uma espécie de droga indiana;
7) Iatagã: Sabre curto, sem guarda e com lâmina de curva dupla (N. do T.).
Tradução: Fernando Neeser de Aragão.

Fonte: http://en.wikisource.org/wiki/The_Daughter_of_Erlik_Khan

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Re: Contos de Howard - A Filha de Erlik Khan (Originalmente publicado em Top Notch, 1934).

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