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Contos de Howard - Rosto de Caveira (Originalmente publicado em Weird Tales 1929).

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Contos de Howard - Rosto de Caveira (Originalmente publicado em Weird Tales 1929).

Mensagem por Rogerio Rocha em Ter Jan 10, 2012 9:06 pm

Originalmente publicado em Weird Tales, outubro a dezembro de 1929.


1) O Rosto na Névoa

“Não somos mais do que uma fila móvel
De mágicas formas sombrias que vão e vêm”.
(Omar Kayyam)


O horror primeiramente tomou forma concreta no meio da mais inconcreta das coisas: um sonho confuso. Eu estava fora, numa viagem eterna e infinita através das terras estranhas que pertencem a este estado de existência, a mil milhas de distância da terra e de todas as coisas terrenas; mas eu fiquei consciente de que algo se estendia através dos vácuos sem nome – algo que talhava impiedosamente em direção às cortinas separadoras de minhas ilusões e se introduzia em minhas visões.

Eu não exatamente voltei à vida desperta comum, mas estava consciente de uma visão e reconhecimento, os quais eram desagradáveis, e pareciam fora dos domínios do sonho, do qual eu estava gostando naquele momento. Para alguém que nunca conheceu os prazeres do haxixe, minha explicação pode parecer caótica e impossível. Mesmo assim, eu estava ciente de um rasgar de névoas, e então o Rosto apareceu diante de meus olhos. Primeiro pensei que fosse meramente uma caveira; depois, eu vi que era horrendamente amarela, ao invés de branca, e estava dotada de uma forma horrenda de vida. Olhos brilhavam fracamente lá no fundo das órbitas e as mandíbulas se moviam como se falassem. O corpo, exceto pelos ombros magros e altos, era vago e indistinto; mas as mãos, que flutuavam nas brumas à frente e abaixo da caveira, eram horrivelmente vigorosas e me encheram de medo arrepiante. Eram como as mãos de uma múmia: longas, magras e amarelas, com articulações protuberantes e cruéis garras curvas.

Então, para completar o vago horror, que estava rapidamente tomando conta de mim, uma voz falou – imagine um homem, há tanto tempo morto, que seu órgão vocal ficara enferrujado e desacostumado à fala. Este foi o pensamento que me atingiu e fez minha pele se arrepiar, enquanto eu escutava.

- Um bruto forte e um que poderia ser, de alguma forma, útil. Veja que ele é afeiçoado a todo o haxixe que pede.

Então, o rosto começou a retroceder, enquanto eu sentia que eu era o tema da conversa, e as névoas se encapelavam e começavam a se fecharem novamente. Mas, por um mero instante, uma cena se sobressaiu com claridade surpreendente. Eu ofeguei – ou tentei fazê-lo. Por cima do alto e estranho ombro da aparição, outro rosto apareceu claramente por um instante, como se o dono me olhasse atentamente. Lábios vermelhos, meio abertos, longos cílios escuros, ensombrecidos olhos intensos e uma nuvem tremeluzente de cabelo. Sobre o ombro do Horror, uma beleza de tirar o fôlego me olhou por um instante.


2) O Escravo do Haxixe

“Do centro da Terra, através do Sétimo Portão,
Eu saí e me sentei no Trono de Saturno”.
(Omar Khayyam).


Meu sonho do rosto de caveira foi sustentado sobre aquela lacuna, normalmente intransponível, que fica entre o encantamento do haxixe e a monótona realidade. Sentei-me de pernas cruzadas sobre uma esteira, no Templo de Sonhos de Yun Shatu, e juntei as forças de meu cérebro arruinado, para a tarefa de lembrar eventos e fatos.

Este último sonho foi tão completamente diferente de qualquer um que já tive antes, que meu fraco interesse foi instigado a ponto de eu me indagar sobre sua origem. Quando comecei a experimentar haxixe, eu procurava encontrar uma base física ou psicológica para os vôos selvagens de ilusão relativos a isso, mas depois eu me satisfazia em apreciar sem procurar causa e efeito.

De onde veio esta inexplicável sensação de familiaridade, no que diz respeito àquela visão? Pus minha cabeça palpitante entre as mãos e procurei laboriosamente por uma pista. Um homem morto-vivo e uma jovem de rara beleza, que havia olhado por cima do ombro dele. Então, eu me lembrei.

De volta à bruma dos dias e noites, a qual põe um véu numa memória viciada em haxixe, meu dinheiro havia acabado. Pareciam anos, ou possivelmente séculos, mas meu raciocínio inerte me dizia que haviam sido provavelmente poucos dias. Seja como for, eu havia me apresentado à sórdida espelunca de Yun Shatu, como sempre, e fora expulso pelo grande Negro Hassim quando se soube que eu não tinha mais dinheiro.

Com meu universo se quebrando em pedaços ao meu redor, e meus nervos zumbindo como cordas esticadas de piano, eu me agachei na sarjeta e tagarelei de forma bestial, até Hassim sair arrogantemente e silenciar meus gritos com um golpe que me derrubou, meio atordoado.

Em seguida, enquanto eu me erguia, cambaleando e sem outro pensamento exceto o do rio que fluía com um murmúrio fresco tão perto de mim... quando me levantei, uma mão leve pousou como o toque de uma rosa em meu braço. Virei-me com um estremecimento assustado e fiquei fascinado diante da visão de beleza que encontrou meu olhar. Olhos escuros, límpidos de piedade, me examinavam e a pequena mão sobre minha manga rasgada me arrastou até a porta do Templo do Sonho. Recuei, mas uma voz baixa, suave e musical insistiu comigo e me preencheu com uma confiança que era estranha; cambaleei ao lado de minha bela guia.

Na porta, Hassim nos encontrou, as mãos cruéis erguidas e um franzir sinistro na testa simiesca, mas quando me encolhi ali, esperando um golpe, ele parou diante da mão erguida da jovem e de sua voz de comando, a qual havia assumido um tom imperioso.

Não entendi o que ela havia dito, mas vi vagamente, como numa bruma, que ela dera dinheiro ao negro e me levou a um leito, onde ela me deitou e arrumou as almofadas como se eu fosse rei do Egito, ao invés de um renegado esfarrapado e sujo, que só vivia para o haxixe. Sua mão esguia me refrescou a testa por um instante, e logo ela havia partido e Yussef Ali veio trazendo o material pelo qual minha própria alma guinchava... e logo, eu estava perambulando novamente por aquelas regiões estranhas e exóticas, às quais só um escravo de haxixe conhece.

Agora, ao me sentar na esteira e ponderar sobre o sonho do rosto de caveira, eu me surpreendia mais ainda. Desde que a garota desconhecida havia me levado de volta à espelunca, eu havia ido e voltado, quando tinha muito dinheiro para pagar Yun Shatu. Alguém certamente o estava pagando para mim; e, embora meu subconsciente me houvesse dito que era a jovem, meu cérebro entorpecido havia falhado em compreender inteiramente o fato, ou se perguntar por quê. Para que se perguntar? Então, alguém pagava, e os sonhos de cores vívidas continuavam, o que me importava? Mas agora eu me perguntava. Pois a garota, que havia me protegido de Hassim e trazido haxixe para mim, era a mesma jovem que eu tinha visto no sonho do rosto de caveira.

Através da apatia de minha degradação, a atração por ela me atingiu como uma faca perfurando meu coração, e estranhamente reviveu as lembranças dos dias em que eu era um homem como os outros – não um triste e amedrontado escravo dos sonhos ainda. Estavam distantes e indistintas, ilhas tremeluzentes na névoa dos anos – e que mar escuro havia até elas!

Olhei para minha manga esfarrapada e para a suja mão em forma de garra que se sobressaía dela; olhei através da fumaça flutuante que velava a sala sórdida, para os beliches baixos ao longo da parede, nos quais se deitavam sonhadores que arregalavam os olhos para o vazio – escravos, como eu, do haxixe e do ópio. Olhei para os chineses calçados com chinelos, deslizando suavemente para lá e para cá, levando cachimbos ou bolas assadas de purgatório concentrado sobre pequenas fogueiras palpitantes. Olhei para Hassim, que se erguia de braços cruzados, ao lado da porta, como uma grande estátua de basalto negro.

E estremeci e escondi meu rosto nas mãos, porque, com o fraco despontar da virilidade que retornava, eu sabia que este último e mais cruel sonho era fútil – eu havia cruzado um oceano sobre o qual eu nunca conseguiria voltar; havia arrancado a mim mesmo do mundo de homens e mulheres normais. Nada me restava agora, exceto afogar este sonho como eu havia afogado todos os outros que tive... rapidamente e com a esperança de que eu logo alcançaria o Oceano Definitivo, que jaz além de todos os sonhos.

Assim eram estes breves momentos de lucidez, de anseio, que rasgam os véus de todos os escravos de narcóticos: inexplicáveis, sem esperança de se obter algo.

Deste modo, voltei aos meus sonhos vazios, à minha fantasmagoria de ilusões; mas, às vezes, como uma espada partindo a bruma, através das terras altas e das terras baixas e mares de minha ilusão, pairava, como uma música semi-esquecida, o esplendor de olhos escuros e cabelos tremeluzentes.

Você pergunta como eu, Stephen Costigan, americano e um homem com alguns talentos e cultura, veio parar num antro sujo da Limehouse de Londres? A resposta é simples: não sou nenhum depravado, procurando novas sensações nos mistérios do Oriente. Respondo: Argonne (1)! Céus, que profundezas e alturas de horror se escondem naquele mundo à parte! Trauma de guerra e bombardeio rasgando o corpo. Dias sem fim, noites sem fim e urrante inferno vermelho sobre uma Terra de Ninguém, onde eu jazia baleado e baionetado em tiras de carne ensangüentada. Meu corpo se recuperou – como, eu não sei –; minha mente, nunca.

E os fogos saltitantes e sombras que se deslocam em meu cérebro torturado me levavam cada vez mais para baixo, ao longo dos degraus da degradação, sem me importar, até que achei um final no Templo dos Sonhos de Yun Shatu, onde matei meus sonhos vermelhos em outros sonhos – os sonhos do haxixe, através dos quais um homem desce até os fossos mais baixos dos infernos mais vermelhos, ou voa alto para aquelas alturas inomináveis, onde as estrelas são pontos minúsculos de diamantes sob seus pés.

Não tive visões do beberrão nem do bruto. Alcancei o inalcançável, fiquei face a face com o desconhecido e, em tranqüilidade cósmica, conheci o inimaginável. E estava contente, de certa forma, até que a visão do cabelo lustroso e lábios escarlates varreu meu universo construído em sonhos, e me deixou tremendo entre as ruínas dele.


3) O Mestre do Destino

“E Ele, que lhe lançou para dentro do Campo,
Ele sabe sobre tudo... Ele sabe! Ele sabe!”
(Omar Khayyam).


Uma mão me sacudia rudemente, enquanto eu saía languidamente de minha última orgia.

- O Mestre lhe quer! Levante-se, suíno!

Era Hassim quem me sacudia e falava.

- Para o Inferno com o Mestre! – respondi, pois eu odiava Hassim... e o temia.

- Levante-se, ou não terá mais haxixe. – foi a resposta brutal, e eu me ergui em pressa trêmula.

Segui o enorme negro, e ele me conduziu até os fundos da construção, andando por entre os sonhadores que se contorciam no chão.

- Ponha todas as mãos no convés! – zumbia um marinheiro num beliche – Todas as mãos!

Hassim abriu a porta nos fundos e gesticulou para que eu entrasse. Eu nunca antes havia passado por aquela porta, e havia pensado que ela levava para os aposentos privados de Yun Shatu. Mas estava mobiliado apenas com uma cama pequena; alguma espécie de ídolo de bronze, diante do qual queimava incenso, e uma mesa compacta.

Hassim me deu uma olhada sinistra e agarrou a mesa, como que para girá-la. Ela rodou como se estivesse numa plataforma giratória, e uma parte do chão rodou com ela, revelando uma porta escondida no chão. Degraus guiavam para baixo, no escuro.

Hassim acendeu uma vela e, com um gesto brusco, me convidou para descer. Eu o fiz, com a obediência indolente de um viciado em entorpecente, e ele seguiu, fechando a porta acima de nós com o uso de uma alavanca fixada ao lado inferior do chão. Na semi-escuridão, descemos os degraus frágeis – uns nove ou dez, eu diria – e então chegamos a um corredor estreito.

Aqui, Hassim tomou novamente a liderança, segurando a vela no alto diante de si. Eu mal conseguia ver os lados desta passagem em forma de caverna, mas sabia que ela não era larga. A luz tremulante mostrava que ele era desprovido de qualquer tipo de mobília, exceto por algumas arcas estranhas que se alinhavam nas paredes – recipientes contendo ópio e outro entorpecente, eu pensei.

Uma contínua disparada e o brilho ocasional de pequenos olhos vermelhos ocupavam as sombras, denunciando a presença de grandes quantidades dos enormes ratos que infestavam a margem do Tâmisa daquela seção.

Então, mais degraus avultaram na escuridão à nossa frente, quando o corredor chegou a um fim abrupto. Hassim me conduziu para cima e, no alto, bateu quatro vezes contra o que parecia ser a parte inferior de um chão. Uma porta escondida se abriu, e uma inundação de luz suave e ilusória a atravessou.

Hassim me empurrou rudemente para cima, e me vi piscando num local como eu nunca tinha visto em meus vôos mais selvagens de visão. Eu estava numa selva de palmeiras, através da qual se retorcia um milhão de dragões de cores vívidas! Então, quando meus olhos se acostumaram à luz, vi que eu não havia sido subitamente transferido para outro planeta, como havia pensado inicialmente. As palmeiras estavam lá, assim como os dragões, mas as árvores eram artificiais e se erguiam em grandes vasos; e os dragões se contorciam através de pesadas tapeçarias, as quais escondiam as paredes.

A própria sala era uma coisa monstruosa – ela me parecia inumanamente grande. Uma fumaça espessa, amarelada e de sugestão tropical, parecia pairar sobre tudo, ocultando o teto e estorvando olhares para o alto. Esta fumaça, eu via, emanava de um altar em frente à parede à minha esquerda. Estremeci. Através da bruma amarela que se encapelava, dois olhos, horrendamente grandes e intensos, cintilavam para mim. Os contornos vagos de algum ídolo bestial tomavam forma indistinta. Lancei um olhar inquieto ao redor, observando os divãs e leitos orientais, e as mobílias bizarras, e então meus olhos pararam e descansaram num biombo envernizado bem à minha frente.

Eu não conseguia penetrá-lo com os olhos, e nenhum som saía de trás dele, mas eu sentia olhos secando dentro da minha consciência através dele; olhos que queimavam através de minha própria alma. Uma estranha aura de maldade fluía daquele estranho biombo, com seus entalhes bizarros e decorações profanas.

Hassim fez uma profunda saudação muçulmana diante dele, e então, sem falar, caminhou para trás e cruzou os braços, imóvel como uma estátua.

Uma voz quebrou subitamente o pesado e opressivo silêncio:

- Você, que é um suíno, gostaria de ser um homem novamente?

Estremeci. O tom era inumano e frio – mais do que isso, havia uma sugestão de longo desuso dos órgãos vocais: a voz que eu havia escutado em meu sonho!

- Sim. – respondi, como que em transe – Eu gostaria de ser um homem novamente.

O silêncio se seguiu por um momento; então, a voz chegou novamente, com um sinistro tom sussurrante atrás de seu som, como morcegos voando através de uma caverna.

- Farei de você um homem novamente, porque sou um amigo de todos os homens alquebrados. Não o farei por um preço, nem por gratidão. E eu lhe dou um sinal para selar minha promessa e voto. Enfie sua mão no biombo.

Diante destas palavras estranhas e quase ininteligíveis, fiquei perplexo, e então, quando a voz invisível repetiu a última ordem, caminhei para a frente e introduzi minha mão numa fenda, a qual se abriu silenciosamente no biombo. Senti meu pulso ser pego num aperto férreo, e algo sete vezes mais frio que gelo tocou o interior de minha mão. Logo, meu pulso foi solto e, puxando minha mão para fora, vi um estranho símbolo, traçado em azul, próximo à base de meu polegar – algo semelhante a um escorpião.

A voz falou novamente, numa linguagem sibilante à qual eu não entendia, e Hassim caminhou de forma diferente para diante. Ele contornou o biombo, e então se voltou para mim, segurando um copo com um líquido cor de âmbar, o qual ele me ofereceu com uma reverência irônica. Eu o peguei, relutante.

- Beba e não tema. – disse a voz invisível – É apenas um vinho egípcio, com qualidades revitalizadoras.

Assim, erguei o copo e o esvaziei. O gosto não era ruim e, enquanto devolvia o grande copo para Hassim, eu parecia sentir vida e vigor novos correrem por minhas veias fatigadas.

- Permaneça na casa de Yun Shatu. – disse a voz – Lhe serão dadas comida e cama, até que você fique forte o bastante para trabalhar sozinho. Você não usará haxixe, nem precisará. Vá!

Atordoado, segui Hassim de volta, através da porta oculta, descendo os degraus, ao longo do corredor escuro e para cima através da outra porta, que nos deixou dentro do Templo dos Sonhos.

Enquanto caminhávamos, da sala dos fundos para dentro da sala principal dos sonhos, me voltei interrogativamente para o negro.

- Mestre? Mestre de quê? Da Vida?

Hassim riu, feroz e sardonicamente:

- Mestre do Destino!


4) A Aranha e a Mosca

“Era a Porta para a qual eu não encontrava Chave;
Era o Véu através do qual eu não conseguia ver”.
(Omar Khayyam)


Eu me sentei nas almofadas de Yun Shatu, e ponderei com uma clareza mental que era nova e estranha para mim. Quanto a isso, todas as minhas sensações eram novas e estranhas. Eu me sentia como se tivesse acordado de um sonho monstruosamente longo; e, embora meus pensamentos estivessem lentos, eu me senti como se as teias de aranha, que os haviam perseguido por tanto tempo, houvessem sido parcialmente tiradas.

Arrastei minha mão pela testa, percebendo o quanto ela tremia. Eu estava fraco e trôpego, e sentia as agitações da fome – não por entorpecente, mas por comida. O que havia no gole que eu tomara naquela sala de mistério? E por que o “Mestre” havia me escolhido, dentre todos os outros infelizes de Yun Shatu, para a regeneração?

E quem era esse Mestre? De algum modo, a palavra me soou vagamente familiar – tentei trabalhosamente me lembrar. Sim... eu já a ouvira, deitado e meio acordado nos beliches ou no chão... sussurrada sibilantemente por Yun Shatu, ou por Hassim ou pelo mouro Yussef Ali; murmurada em suas conversas em voz baixa e sempre misturada com palavras que eu não conseguia entender. Não era Yun Shatu, então, mestre do Templo dos Sonhos? Eu havia pensado, e os outros viciados pensavam, que o chinês definhado tivesse indisputado domínio sobre este reino insípido, e que Hassim e Yussef Ali fossem seus servos. E que os quatro jovens chineses que queimavam ópio com Yun Shatu, o afegão Yar Khan, o haitiano Santiago e o renegado sikh (2) Ganra Singh – todos pagos por Yun Shatu, nós supúnhamos – estivessem amarrados ao senhor do ópio por laços de ouro ou medo.

Pois Yun Shatu era um poder na Chinatown de Londres, e eu havia escutado que seus tentáculos se estendiam pelos mares, até lugares eminentes de pinças poderosas e misteriosas. Estaria Yun Shatu atrás do biombo envernizado? Não; eu conhecia a voz do chinês, e além do mais, eu o tinha visto zaranzar em frente ao Templo, exatamente quando eu entrava pela porta negra.

Outro pensamento me ocorreu. Freqüentemente, deitado meio entorpecido, a altas horas da noite ou no primeiro cinza da aurora, eu vira homens e mulheres adentrarem furtivamente o Templo – pessoas cujas roupas e modos eram estranhamente fora de lugar e inadequados.

Homens altos e eretos, freqüentemente usando trajes de noite, com seus chapéus puxados até as sobrancelhas, e lindas damas, veladas, usando sedas e peles. Nunca dois deles vieram juntos, mas sempre separados e, escondendo seus rostos, se apressavam até a porta dos fundos e depois saíam novamente – às vezes, horas mais tarde. Sabendo que a ânsia por narcóticos às vezes encontra abrigo em altas posições, eu nunca havia questionado demais, supondo que eles fossem homens e mulheres da sociedade, os quais haviam caído vítimas do vício, e que, em algum lugar nos fundos da construção, houvesse um aposento privado para isso. Mas agora eu me perguntava (às vezes, essas pessoas haviam permanecido por apenas poucos momentos): era pelo ópio que vinham, ou será que eles também atravessavam aquele estranho corredor e conversavam com Aquele atrás do biombo?

Minha mente se distraía com a idéia de um grande especialista, para o qual chegavam todas as classes de pessoas dispostas a porem um fim em seus vícios por entorpecentes. Mas era estranho que tal pessoa selecionasse um estabelecimento de drogados para fazer isso – também era estranho que o dono daquela casa aparentemente olhasse para ele com tanta reverência.

Deixei isso de lado, quando minha cabeça começou a doer com o desacostumado esforço de pensar, e gritei por comida. Yussef a trouxe para mim numa bandeja, com uma prontidão que me surpreendeu. E mais, ele me saudou enquanto se retirava, deixando-me a ruminar sobre minha estranha mudança de status no Templo dos Sonhos.

Comi, perguntando-me o que Aquele no biombo queria comigo. Nem por um instante, eu supus que suas ações fossem induzidas pelas razões que ele aparentava; a vida do submundo havia me ensinado que nenhum dos seus habitantes era filantrópico. E a câmara misteriosa era do submundo, apesar de sua natureza elaborada e bizarra. E onde ela ficaria? Qual a distância que caminhei ao longo do corredor? Encolhi meus ombros, me perguntando se aquilo tudo não seria um sonho, induzido pelo haxixe; então, meu olho pousou sobre minha mão – e sobre o escorpião traçado ali.

- Ponha todas as mãos! – falava, em voz monótona, o marinheiro no beliche – Todas as mãos!

Contar detalhes sobre os poucos dias seguintes seria enfadonho para qualquer um que nunca experimentou a terrível escravidão do narcótico. Esperei que a ânsia me acometesse novamente – esperei com segura e sardônica falta de esperança. O dia todo, a noite toda... outro dia... e então, o milagre se impôs sobre meu cérebro duvidoso. Contrariando todas as teorias e supostos fatos da ciência e senso-comum, a ânsia havia me deixado tão súbita e completamente quanto um sonho ruim! Inicialmente, eu não conseguia crer em meus sentidos, mas eu mesmo acreditava que ainda estivesse nas garras de um pesadelo causado por drogas. No entanto, era verdade. Desde o momento em que bebi do copo na sala misteriosa, não senti o menor desejo pela substância que havia sido a própria vida para mim. Isto, eu sentia vagamente, era de alguma forma profano, e certamente oposto a todas as leis da natureza. Se o terrível ser atrás do biombo havia descoberto o segredo de como quebrar o terrível poder do haxixe, quais outros segredos monstruosos ele havia descoberto e quais os impensáveis domínios dele? A sugestão de maldade rastejou como uma serpente, através do meu pensamento.

Permaneci na casa de Yun Shatu, me espreguiçando num beliche ou sobre almofadas espalhadas sobre o chão, comendo e bebendo, mas agora que eu estava voltando a ser um homem normal, a atmosfera se tornou mais revoltante para mim, e a visão dos infelizes, se contorcendo em seus sonhos, me lembrou desagradavelmente do que eu mesmo havia sido, e aquilo me causou repulsa e náuseas.

Assim, um dia, quando não havia ninguém me observando, eu me levantei, saí para a rua e caminhei ao longo da margem. O ar, embora carregado de fumaça e cheiros repugnantes, encheu meus pulmões com estranho frescor e despertou um novo vigor no que outrora havia sido uma estrutura física poderosa. Tomei novo interesse pelos sons dos homens vivendo e trabalhando, e a visão de um navio, sendo descarregado num dos desembarcadouros, me deixou realmente emocionado. A força dos estivadores era concentrada, e logo me vi levantando e carregando, e, embora o suor escorresse por minha testa e meus membros tremessem com o esforço, exultei com o pensamento de que eu, finalmente, era capaz de trabalhar sozinho novamente, não importando o quão baixo e desinteressante o trabalho pudesse ser.

Quando retornei à casa de Yun Shatu naquela noite – terrivelmente cansado, mas com a renovada sensação de virilidade, que vem do trabalho honesto – Hassim me encontrou na porta.

- Onde esteve? – ele exigiu asperamente.

- Estive trabalhando nas docas. – respondi laconicamente.

- Você não precisa trabalhar nas docas. – ele rosnou – O Mestre conseguiu trabalho para você.

Ele foi à frente, e atravessei novamente os degraus escuros e o corredor sob a terra. Naquele momento, minhas faculdades estavam alerta, e percebi que a passagem não poderia ter mais do que uns nove a doze metros de comprimento. Mais uma vez, fiquei diante do biombo envernizado, e mais uma vez ouvi a voz inumana de morte viva.

- Posso lhe dar um trabalho. – disse a voz – Quer trabalhar para mim?

Rapidamente assenti. Afinal, apesar do medo que a voz inspirava, eu estava profundamente em débito com o dono dela.

- Ótimo. Pegue isto.

Quando comecei a andar em direção ao biombo envernizado, uma ordem brusca me parou, Hassim caminhou à frente e, estendendo o braço, pegou o que me foi oferecido. Era, aparentemente, um molho de papéis e gravuras.

- Estude isto – disse Aquele atrás do biombo –, e aprenda tudo que puder sobre o homem retratado aí. Yun Shatu lhe dará dinheiro; compre, para você, roupas como as que os marinheiros usam, e ocupe um lugar na frente do Templo. Ao fim de dois dias, Hassim lhe trará para mim novamente. Vá!

A última impressão que tive, enquanto a porta secreta se fechava acima de mim, era de que os olhos do ídolo, os quais cintilavam através da fumaça perpétua, me olhavam malévola e zombeteiramente.

A frente do Tempo dos Sonhos consistia em quartos para alugar, disfarçando o verdadeiro propósito da construção sob a máscara de uma casa de hospedaria da margem. A polícia havia feito várias visitas a Yun Shatu, mas nunca conseguiu nenhuma evidência que o incriminasse.

Assim, fiquei num desses quartos, e comecei meu trabalho, estudando o material dado a mim.

As figuras era todas de um homem, um homem grande, não muito diferente de mim em constituição e nas linhas gerais do rosto, exceto pelo fato de que usava uma barba espessa e tendia a ser loiro onde eu era moreno. O nome, como escrito nos papéis que acompanhavam, era Major Fairlan Morley, comissário especial de Natal (3) e Transvaal. Este cargo e título me eram novos, e eu me perguntei sobre a conexão entre um comissário africano e uma casa de ópio às margens do Tâmisa.

Os papéis consistiam em dados extensos, evidentemente copiados de fontes autênticas, e todos relacionados ao Major Morley; e vários documentos particulares, esclarecendo consideravelmente sobre a vida privada do major.

Uma descrição exaustiva foi dada sobre a aparência e hábitos pessoais do homem, alguns dos quais me parecem muito triviais. Eu me perguntava qual poderia ser o propósito, e como Aquele atrás do biombo havia adquirido papéis de tal natureza íntima.

Eu não conseguia achar pista que respondesse esta questão, mas concentrei todas as minhas energias à tarefa que me fora dedicada. Eu tinha uma grande dívida de gratidão ao homem desconhecido que me requereu isto, e estava determinado a retribuí-lo com o melhor de minha habilidade. Nada, naquele momento, sugeria uma armadilha para mim.


5) O Homem no Leito

“Que chuva de lanças te enviou
para brincar ao amanhecer com a Morte?”.
(Kipling)


Após os dois dias, Hassim me acenou quando eu me encontrava na casa do ópio. Avancei com um passo flexível e animado, seguro na confiança de que havia colhido tudo o que podia dos papéis de Morley. Eu era um novo homem; minha rapidez mental e prontidão física me surpreendiam – às vezes, pareciam não-naturais.

Hassim me olhava através de pálpebras semicerradas, e gesticulou para que eu o seguisse, como sempre. Enquanto cruzávamos a sala, meu olhar caiu sobre um homem deitado num leito próximo à parede, fumando ópio. Não havia nada de suspeito em suas roupas esfarrapadas e desleixadas, seu rosto sujo e barbudo ou o olhar vazio, mas meus olhos, afiados até um ponto fora do comum, pareciam sentir certa incongruência nos membros bem-proporcionados, aos quais nem mesmo as roupas desleixadas conseguiam esconder.

Hassim falou impacientemente, e eu me virei. Entramos na sala dos fundos e, enquanto ele fechava a porta e se voltava para a mesa, ela se moveu sozinha e uma figura avultou na porta oculta. O sikh Garan Singh, um gigante magro de olhos sinistros, saiu e seguiu até a porta de entrada para a sala do ópio, onde ele parou até termos descido e fechado a porta secreta.

Mais uma vez, eu me encontrava no meio da espessa fumaça amarela e ouvia a voz oculta:

- Você acha que sabe o suficiente sobre o Major Morley para se passar facilmente por ele?

Surpreso, eu respondi:

- Sem dúvida, eu poderia, a menos que eu encontrasse alguém íntimo dele.

- Cuidarei disso. Siga-me de perto. Amanhã, você viaja no primeiro navio para Calais. Lá, você encontrará um agente meu, o qual irá se dirigir até você, no momento em que você colocar o pé no cais, e lhe dará outras instruções. Você navegará em segunda classe, e evitará qualquer conversa com estranhos ou com qualquer um. Leve os papéis com você. O agente lhe ajudará a se maquiar, e seu disfarce começará em Calais. Isso é tudo. Vá!

Eu me retirei, e meus questionamentos aumentaram. Toda esta trapalhada evidentemente tinha um sentido, mas que eu não conseguia compreender. De volta à sala do ópio, Hassim me ordenou que sentasse numas almofadas e esperasse seu retorno. À minha pergunta, ele rosnou que estava saindo como lhe fora ordenado, para comprar uma passagem para mim no navio do Canal. Ele se retirou, e eu me sentei, apoiando minhas costas na parede. Enquanto eu ruminava, parecia subitamente que havia olhos fixos tão intensamente em mim, a ponto de perturbarem meu subconsciente. Olhei rapidamente para cima, mas ninguém parecia estar olhando para mim. A fumaça se espalhava pelo ar quente, como sempre; Yussef Ali e o chinês andavam para lá e para cá, se encarregando dos desejos dos que dormiam.

Súbito, a porta da sala dos fundos se abriu, e uma figura estranha e horrenda apareceu mancando. Nenhum dos que entravam na sala dos fundos de Yun Shatu eram aristocratas ou membros da sociedade. Este era uma das exceções, e um do qual eu me lembrava como tendo freqüentemente entrado e saído de lá. Uma figura alta e magra, com agasalhos disformes e esfarrapados, roupas indefiníveis e rosto totalmente oculto. Melhor que o rosto estivesse escondido, eu pensei, pois, sem dúvida, o agasalho ocultava uma visão medonha. O homem era um leproso, que havia, de alguma forma, conseguido escapar da atenção dos protetores públicos e que era visto ocasionalmente freqüentando as regiões mais baixas e misteriosas de East-End (4) – um mistério até mesmo para os habitantes mais baixos da Limehouse.

Súbito, minha mente super-sensível percebeu uma rápida tensão no ar. O leproso mancou até a porta e a fechou atrás de si. Meus olhos procuraram instintivamente o leito, onde se deitava o homem que havia despertado minhas suspeitas, naquele dia mais cedo. Eu era capaz de jurar que frios olhos de aço miravam ameaçadoramente e se fechavam de forma abrupta. Dirigi-me até o leito numa única passada e me curvei sobre o homem prostrado. Algo em seu rosto parecia não-natural – uma cor bronzeada e saudável parecia existir sob a palidez de sua pele.

- Yun Shatu! – gritei – Há um espião na casa!

Então, as coisas aconteceram com velocidade perturbadora. O homem no leito ergueu-se de um pulo com um movimento de tigre, e um revólver brilhou em sua mão. Um braço forte me lançou para um lado, enquanto eu tentava me engalfinhar com ele, e uma voz violenta e decidida soou acima da tagarelice que explodiu.

- Você aí! Pare! Pare!

A pistola na mão do forasteiro estava apontada para o leproso, que estava alcançando a porta a passos largos.

Tudo ao redor era confusão; Yun Shatu guinchava de forma desconexa em Chinês, e os quatro jovens chineses e Yussef Ali entraram correndo por todos os lados, as facas lhes cintilando nas mãos.

Eu via tudo isso com clareza não-natural, enquanto eu distinguia o rosto do forasteiro. Quando o leproso que fugia não deu evidência de parar, vi os olhos se endurecerem em pontos inflexíveis de determinação, mirando com o cano da pistola – as feições endurecidas com o propósito sombrio de matar. O leproso estava quase na parte externa da porta, mas a morte o atingiria antes que ele pudesse alcançá-la.

E então, no exato momento em que o dedo do forasteiro apertava o gatilho, lancei-me para a frente e meu punho direito golpeou-lhe o queixo. Ele caiu, como se atingido por um martinete de báscula, o revólver disparando inofensivamente no ar.

Naquele instante, com o cegante clarão de luz que às vezes vem a mim, percebi que o leproso não era outro senão o Homem Atrás do Biombo!

Curvei-me sobre o homem caído, o qual, embora não totalmente inconsciente, havia ficado temporariamente indefeso por aquele tremendo golpe. Ele se esforçava, atordoado, para se levantar, mas eu o empurrei asperamente para baixo de novo e, agarrando a barba falsa que ele usava, eu a arranquei. Um magro rosto bronzeado foi revelado, um rosto cujas linhas fortes nem mesmo a sujeira artificial e maquiagem poderiam alterar.

Yussef Ali se curvava sobre ele agora, de adaga na mão e olhos semicerrados com intenção assassina. A forte mão marrom se ergueu... eu agarrei o pulso.

- Não tão rápido, seu demônio negro! O que vai fazer?

- Este é John Gordon – ele sibilou –, o maior inimigo do Mestre! Ele deve morrer, seu maldito!

John Gordon! O nome era, de alguma forma, familiar, embora não me parecesse ter conexão com a polícia de Londres, nem explicasse a presença do homem na casa de entorpecentes de Yun Shatu. Entretanto, em um ponto, eu estava decidido.

- Não o mate de jeito nenhum. Levante-se! – Esta última frase foi para Gordon, que, com minha ajuda, se ergueu cambaleando, ainda muito atordoado.

- Aquele soco seria capaz de derrubar um touro. – eu disse, admirado – Eu não sabia que era capaz disso.

O falso leproso havia desaparecido. Yun Shatu ficou me encarando, tão imóvel quanto um ídolo, as mãos dentro de suas mangas largas; e Yussef Ali ficou atrás, resmungando de forma sanguinária e passando o polegar no fio de sua adaga, enquanto eu guiava Gordon para fora da sala do ópio e através do bar de aspecto inocente, que ficava entre aquela sala e a rua.

Na rua, eu disse a ele:

- Não tenho idéia de quem você é, nem do que está fazendo aqui, mas você está vendo que esse é um lugar doentio. A partir de agora, siga meu conselho e fique longe.

Sua única resposta foi um olhar indagador, e então ele deu a volta e andou rápido, porém vacilante, rua afora.


6) A Moça do Sonho

“Alcancei estas terras agora
Desde uma remota e obscura Thule”.
(Poe)


Do lado de fora de meu quarto, soou um leve som de passos. A maçaneta da porta girou cuidadosa e vagarosamente; a porta se abriu. Ergui-me de um pulo com uma arfada. Lábios vermelhos e entreabertos, olhos escuros como mares límpidos de maravilha, uma massa de cabelos tremeluzentes... destacada contra o insípido vão de minha porta, se encontrava a moça dos meus sonhos!

Ela entrou e, dando meia-volta com um movimento sinuoso, fechou a porta. Dei um pulo para a frente, com minhas mãos estendidas, e logo parei quando ela pôs um dedo nos lábios.

- Você não deve falar alto. – ela quase sussurrou – Ele não disse que eu não poderia vir; mas...

Sua voz era suave e melodiosa, com apenas um pouco de sotaque estrangeiro, o qual achei encantador. Quanto à jovem propriamente dita, cada entonação, cada movimento, proclamava o Oriente. Ela era um sopro perfumado do Leste. Desde o cabelo, negro como a noite e arrumado bem acima de sua testa alva como alabastro, até seus pés pequenos, calçados em chinelos pontiagudos com salto alto, ela retratava o mais alto ideal de beleza asiática – um efeito que era mais aumentado do que diminuído pela blusa e saia inglesas, as quais ela vestia.

- Você é linda! – eu disse, deslumbrado – Quem é você?

- Sou Zuleika. – ela respondeu, com um sorriso tímido – Eu... eu estou feliz que você goste de mim. Estou feliz por você não ter mais sonhos de haxixe.

Estranho que uma coisa tão pequena fizesse meu coração pular selvagemente!

- Devo tudo a você, Zuleika. – eu disse asperamente – Se eu não tivesse sonhado com você, desde a primeira vez em que você me tirou da sarjeta, eu não teria forças sequer para ter esperança de ser libertado da minha maldição.

Ela se enrubesceu lindamente e entrelaçou os dedos brancos, como que em nervosismo.

- Você deixará a Inglaterra amanhã? – ela disse subitamente.

- Sim. Hassim não retornou com minha passagem... – hesitei subitamente, lembrando-me da ordem de silêncio.

- Sim, eu sei, eu sei! – ela sussurrou suavemente, seus olhos se arregalando – E John Gordon esteve aqui! Ele viu você!

- Sim!

Ela se aproximou de mim, com um movimento rápido e gracioso:

- Você vai se passar por outro homem! Escute: enquanto fizer isso, nunca deixe Gordon lhe ver! Ele lhe reconheceria, independente do seu disfarce! Ele é um homem terrível!

- Não estou entendendo. – eu disse, completamente perplexo – Como foi que o Mestre me libertou de meu vício por haxixe? Quem é este Gordon, e como ele chegou até aqui? Por que o Mestre anda disfarçado como um leproso... e quem é ele? E, acima de tudo, por que tenho que me disfarçar de um homem que eu nunca vi, e de quem nunca ouvi falar?

- Não posso... não ouso lhe dizer! – ela sussurrou, o rosto empalidecendo – Eu...

Em algum lugar da casa, soou fracamente um gongo chinês. A garota se sobressaltou como uma gazela assustada.

- Tenho que ir! Ele me chama!

Ela abriu a porta, atravessou-a rapidamente e parou por um momento para me eletrificar com sua exclamação ardente:

- Oh, tenha cuidado; tenha muito cuidado, senhor!

Em seguida, ela foi embora.


7) O Homem da Caveira

“Qual o martelo? Qual a corrente?
Em qual fornalha teu cérebro estava?
Qual a forja? Qual aperto terrível
Ousa prender seus terrores mortíferos?”
(Blake)


Pouco depois de minha bela e misteriosa visitante partir, me sentei meditabundo. Acreditei que eu finalmente havia me deparado com uma explicação de uma parte do enigma, de alguma forma. Esta era a conclusão à qual eu havia chegado: Yun Shatu, o senhor do ópio, era simplesmente o agente ou empregado de alguma organização, ou indivíduo, cujo trabalho era de uma escala bem maior do que simplesmente abastecer viciados em entorpecentes no Templo dos Sonhos. Este homem – ou estes homens – precisava de colaboradores em todas as classes de pessoas; em outras palavras: minha entrada havia sido permitida num grupo contrabandistas de ópio de uma escala gigantesca. Gordon, sem dúvida, havia investigado o caso, e sua presença, por si só, mostrava que não era um caso comum, pois eu sabia que ele ocupava uma alta posição no governo inglês, embora eu não soubesse exatamente qual.

Com ou sem ópio, eu resolvi cumprir minha obrigação com o Mestre. Meu senso de moral havia sido embotado pelos caminhos obscuros pelos quais eu havia viajado, e o pensamento de crime desprezível não me entrava na cabeça. Eu estava realmente endurecido. Mais: o mero débito de gratidão foi aumentado mil vezes pelo pensamento na garota. Se eu era capaz de me erguer e olhar nos olhos límpidos dela como um homem, eu devia isso ao Mestre. Assim, se ele desejava meus serviços como contrabandista de entorpecentes, ele os teria. Sem dúvida, eu teria de me fazer passar por um homem com tão alta estima para o governo, que as ações usuais dos oficiais da alfândega seriam consideradas desnecessárias, traria eu algum raro gerador de sonhos para dentro da Inglaterra?

Estes pensamentos estavam em minha mente enquanto eu ia para o andar inferior, mas, por trás deles, sempre pairavam outras e mais atrativas suposições: qual o motivo para a jovem estar aqui, neste antro imundo – uma rosa numa pilha de lixo –, e quem era ela?

Quando adentrei o recinto externo, Hassim também entrou, sua testa fechada numa careta sombria de ira e, eu acreditei, medo. Ele trazia um jornal dobrado na mão.

- Eu disse para você esperar na sala do ópio. – ele rosnou.

- Você saiu há tanto tempo, que subi até meu quarto. Está com a passagem?

Ele simplesmente grunhiu e passou por mim, em direção à sala do ópio, e, na porta, eu o vi cruzar o chão e desaparecer dentro da sala dos fundos. Fiquei lá, minha perplexidade aumentando. Pois, enquanto Hassim passava por mim, eu havia notado uma pequena notícia na frente do papel, contra a qual seu polegar negro estava pressionando, como que para marcar aquela coluna especial de notícias.

E, com a rapidez incomum de ação e julgamento, que pareciam ser minhas naqueles dias, eu havia lido naquele rápido instante:


Comissário Especial Africano Encontrado Assassinado!

O corpo do Major Fairlan Morley foi descoberto ontem, no porão apodrecido de um navio em Bordeaux...


Não vi mais dos detalhes, mas aquilo foi o bastante para me fazer pensar! O assunto parecia estar assumindo um aspecto medonho. Mas...

Outro dia se passou. Diante de minhas perguntas, Hassim rosnou que os planos haviam mudado e que eu não iria para a França. Depois, tarde da noite, ele veio me chamar mais uma vez para a sala de mistério.

Fiquei diante do biombo envernizado, a fumaça amarela pungente em minhas narinas, os dragões sinuosos se contorcendo ao longo das tapeçarias, as palmeiras se erguendo densas e opressivas.

- Houve uma mudança em nossos planos. – disse a voz oculta – Você não navegará, como foi decidido antes. Mas tenho outro trabalho que você pode fazer. Talvez este seja mais adequado ao seu tipo de utilidade, pois admito que você me desapontou um pouco em termos de sutileza. Outro dia, você interferiu de tal modo, que, sem dúvida, me causará grande inconveniência no futuro.

Eu não disse nada, mas uma sensação de ressentimento começou a se agitar dentro de mim.

- Mesmo após a garantia de um de meus servos de maior confiança – a voz sem tom continuou, sem nenhum traço de emoção, exceto um som levemente ascendente –, você insistiu em libertar meu inimigo mais mortífero. Seja mais prudente no futuro.

- Salvei sua vida! – eu disse furiosamente.

- E somente por esse motivo, eu perdôo seu erro... desta vez!

Uma fúria lenta subitamente se ergueu dentro de mim:

- Desta vez! Tire o melhor partido disso desta vez, pois lhe asseguro que não haverá próxima vez. Tenho com você uma dívida maior do que eu posso um dia ter esperança de pagar, mas isso não faz de mim seu escravo. Salvei sua vida; o débito está quase tão pago quanto um homem pode pagar. Siga seu caminho, e eu seguirei o meu!

Uma risada baixa e horrenda me respondeu, como o sibilar de um réptil.

- Seu tolo! Você me pagará labutando por toda a sua vida! Você disse que não é meu escravo. Eu digo que você é... exatamente como o negro Hassim, aí ao seu lado, é meu escravo... exatamente como Zuleika, que lhe enfeitiçou com a beleza dela.

Estas palavras mandaram uma onda de sangue até meu cérebro, e eu estava consciente de uma inundação de fúria que afundou completamente minha razão por um segundo. Exatamente como todos os meus humores e sentidos pareciam exagerados naqueles dias, esta explosão de fúria transcendia cada momento da raiva que eu houvesse tido antes.

- Demônios do Inferno! – eu gritei em voz estridente – Seu diabo... quem é você, e qual o seu poder sobre mim? Vou lhe ver ou morrer!

Hassim saltou em minha direção, mas eu o lancei para trás e, com uma passada larga, alcancei o biombo e o lancei para o lado, com um incrível esforço. Então recuei, as mãos abertas e guinchando. Uma figura alta e magra se erguia diante de mim, uma figura vestida grotescamente numa toga com brocado de seda, a qual caiu ao chão.

Das mangas desta toga, saíam mãos que me encheram de horror arrepiante... mãos longas e predatórias, com finos dedos ossudos e garras curvas... a pele definhada, semelhante a um pergaminho amarelo-pardo, como as mãos de um homem há muito tempo morto.

As mãos... mas, oh Deus, o rosto! Um crânio no qual não parecia haver vestígios de carne, mas no qual pele esticada e amarelo-parda se grudava, destacando cada detalhe daquela terrível cabeça de morte. A testa era alta e, num aspecto, imponente; mas a cabeça era curiosamente estreita através das têmporas e, sob sobrancelhas em forma de marquise, olhos grandes reluziam como poços de fogo amarelo. O nariz tinha a ponte alta e era muito estreito; a boca era um mero talho sem cor entre lábios finos e cruéis. Um longo pescoço ossudo sustentava esta visão assustadora, e completava o efeito de um demônio reptiliano de algum inferno medieval.

Eu estava face a face com o homem de rosto de caveira dos meus sonhos!


Cool Sabedoria Negra

“Através de uma ruína rastejante,
Pela vida, um pântano saltitante.
Por um coração partido no peito do mundo
E o fim do desejo do mundo”.
(Chesterton)


O terrível espetáculo afastou, por um instante, todo o pensamento de rebelião de minha mente. Meu próprio sangue congelou nas veias e fiquei paralisado. Ouvi Hassim rir sombriamente atrás de mim. Os olhos do rosto cadavérico ardiam diabolicamente para mim, e eu empalideci devido à concentrada fúria satânica neles.

Então, o horror riu de forma sibilante:

- Concedo-lhe uma honra, Sr. Costigan: dentre muito poucos, até mesmo de meus próprios servos, você pode dizer que viu meu rosto e viveu. Acho que você me será mais útil vivo do que morto.

Eu estava calado e completamente acovardado. Era difícil acreditar que este homem vivia, pois sua aparência certamente desmentia o pensamento. Ele parecia horrivelmente com uma múmia. Mas seus lábios se moviam quando ele falava, e seus olhos flamejavam com vida horrenda.

- Você fará o que eu disser. – ele falou abruptamente, e sua voz havia adquirido um tom de comando – Você, sem dúvida, conhece, ou já ouviu falar em Sir Haldred Frenton.

- Sim.

Todo homem culto, na Europa e América, estava familiarizado com os livros de viagem de Sir Haldred Frenton, escritor e soldado da fortuna.

- Você irá à casa de Sir Haldred esta noite...

- Sim?

- E o matará!

Eu literalmente oscilei. Esta ordem era inacreditável... indizível! Eu havia afundado muito; baixo o bastante para contrabandear ópio, mas assassinar deliberadamente um homem que nunca vi; um homem conhecido por suas ações bondosas! Isso era monstruoso demais, até mesmo para pretender.

- Você não recusa?

O tom era tão asqueroso e zombeteiro quanto o sibilar de uma serpente.

- Recusar? – gritei, finalmente encontrando minha voz – Recusar? Seu demônio encarnado! É claro que recuso! Seu...

Algo na fria convicção de suas maneiras me fez parar... congelou-me em silêncio apreensivo.

- Seu tolo! – ele disse calmamente – Quebrei os grilhões do haxixe... você sabe como? Daqui a quatro minutos, você saberá como, e amaldiçoará o dia em que nasceu! Você não achou estranha a rapidez do cérebro e a elasticidade do corpo... o cérebro que deveria estar enferrujado e lento; o corpo que deveria estar fraco e indolente por anos de abuso? Aquele golpe que derrubou John Gordon... você não se maravilhou com tal força? A facilidade como você gravou os registros do Major Morley... você não se maravilhou com isso? Seu idiota, você está amarrado a mim por correntes de aço, sangue e fogo! Eu lhe mantive vivo e mentalmente são... Somente eu. Todos os dias, e elixir salva-vida lhe era dado em seu vinho. Você não conseguiria viver e manter seu juízo sem ele. E somente eu conheço seu segredo!

Ele olhou de relance para um estranho relógio sobre uma mesa, próximo ao seu ombro:

- Neste momento, mandei Yun Shatu excluir o elixir... eu esperava uma rebelião. A hora está próxima... há, ela chegou!

Ele disse algo mais, mas não ouvi. Não vi, nem senti, no significado humano da palavra. Eu me retorcia aos pés dele, gritando e tagarelando nas chamas de infernos com quais os homens nunca haviam sonhado.

Sim, eu soube como! Ele simplesmente me dera um entorpecente bem mais forte, o qual havia afogado o haxixe. Minha habilidade não-natural era explicável agora – eu havia simplesmente agido sob o estímulo de algo que combinava todos os infernos em sua composição, e que estimulava – algo semelhante à heroína –, mas cujo efeito passava despercebido pela vítima. Eu não fazia idéia do que fosse, nem acreditava que alguém soubesse, exceto essa coisa infernal que me olhava com divertimento sombrio. Mas aquilo mantinha meu cérebro intacto, incutindo em meu organismo uma necessidade por essa droga, e agora minha ânsia assustadora rasgava minha alma em pedaços.

Nunca, em meus piores momentos de neurose de guerra ou de ânsia por haxixe, eu havia experimentado algo como aquilo. Eu queimava com o calor de mil infernos e me congelava com uma gelidez mais fria que qualquer gelo, por mil vezes. Desci aos fossos mais profundos de tortura e subi aos penhascos mais altos de tormento – um milhão de demônios urrantes me encurralavam, guinchando e esfaqueando. Osso por osso, veia por veia, célula por célula, eu sentia meu corpo se desintegrar e voar em átomos sangrentos por todo o universo – e cada célula separada era um sistema inteiro de nervos palpitantes que gritavam. E elas se aglomeravam, desde vácuos distantes, e se reuniam com um tormento maior.

Através das ardentes brumas vermelhas, ouvi minha própria voz gritar – um lamento monótono. Então, com os olhos distendidos, vi um copo para vinho, seguro por uma mão em forma de garra, flutuando para dentro da visão – um copo cheio de um líquido cor de âmbar.

Com um guincho bestial, eu o agarrei com ambas as mãos, vagamente consciente de que o pé do corpo cedia sob meus dedos, e levei a beirada até meus lábios. Bebi com pressa frenética, o líquido escorrendo sobre meu peito.


9) Kathulos do Egito

“A noite será três vezes noite sobre você,
E o Paraíso será um copo de ferro”.
(Chesterton)


O Ser de Rosto de Caveira me olhava criticamente, enquanto eu me sentava ofegante num leito, completamente exaurido. Ele segurava o copo na mão e examinava o pé deste, o qual estava esmagado e deformado. Meus dedos delirantes haviam feito isto, no momento em que eu bebia.

- Força super-humana, mesmo para um homem na sua condição. – ele disse, com uma espécie de pedantismo rangente – Duvido que até mesmo Hassim pudesse fazer algo igual. Está pronto para as suas instruções agora?

Assenti sem palavras. A força infernal do elixir já estava fluindo por minhas veias, renovando meu vigor apagado. Eu me perguntava por quanto tempo um homem poderia viver como eu vivia, sendo constantemente enfraquecido e artificialmente reconstruído.

- Um disfarce lhe será dado, e você irá sozinho à propriedade de Frenton. Ninguém suspeita de qualquer plano contra Sir Haldred, e sua entrada na propriedade e na própria casa será algo relativamente fácil. Você não usará o disfarce... o qual será de natureza única... até estar pronto para adentrar a propriedade. Então, você prosseguirá até o quarto de Sir Haldred e o matará, quebrando-lhe o pescoço com as mãos nuas... isto é essencial...

A voz ficou monótona, dando-me ordens de uma maneira assustadoramente indiferente e trivial. O suor frio brotou em minha testa.

- Depois, você deixará a propriedade, tendo o cuidado de deixar a marca de sua mão em algum lugar claramente visível; e o automóvel, que estará lhe esperando em algum lugar seguro por perto, lhe trará de volta para cá, você tendo primeiro removido o disfarce. Eu tenho, em caso de complicações, uma quantidade de homens, os quais jurarão que você passou a noite toda no Templo dos Sonhos, e nunca saiu dele. Mas aqui não pode haver descobertas! Vá cautelosamente e faça seu trabalho inabalavelmente, pois você conhece as opções.

Não retornei à casa do ópio, mas segui através de corredores sinuosos, enfeitados com pesadas tapeçarias penduradas, até um pequeno quarto, contendo apenas um leito oriental. Hassim me fez entender que eu deveria permanecer nele até depois do anoitecer, e então me deixou. A porta estava fechada, mas não me esforcei para descobrir se ela estava trancada. O Mestre de Rosto de Caveira me segurava com grilhões mais fortes do que fechaduras e ferrolhos.

Sentado sobre o leito no assentamento bizarro de um aposento que deve ter sido uma sala numa zenana (5) indiana, confrontei os fatos e lutei minha batalha. Ainda havia em mim alguns traços de hombridade – mais do que aquele demônio havia pensado e, adicionado a isto, negro desespero. Escolhi e determinei meu próprio rumo.

Súbito, a porta se abriu suavemente. Uma intuição me disse a quem esperar, e eu não me desapontei. Zuleika estava lá: uma visão gloriosa diante de mim – uma visão que zombava de mim, tornava meu desespero mais negro e, mesmo assim, me emocionava com anseio selvagem e alegria irracional.

Ela trazia uma bandeja de comida, a qual colocou ao meu lado, e em seguida ela se sentou no leito, com seus olhos grandes fixos em meu rosto. Ela era uma flor num antro de serpentes, e sua beleza tomava conta de meu coração.

- Steephen! – ela sussurrou, e eu me arrepiei quando ela falou meu nome pela primeira vez.

Seus olhos luminosos brilharam subitamente com lágrimas, e ela pôs sua pequena mão em meu braço. Eu a segurei com ambas as minhas mãos ásperas.

- Eles lhe encarregaram de um serviço que você teme e odeia! – ela balbuciou.

- Sim – eu quase ri –, mas ainda vou enganá-los! Diga-me, Zuleika... qual o significado de tudo isto?

Ela olhou temerosa ao redor de si.

- Não sei nada... – ela hesitou – Sua situação é toda por minha culpa, mas eu... eu tinha esperança... Steephen, eu lhe observei durante meses, todas as vezes que você ia para Yun Shatu. Você não me via, mas eu lhe via; e eu via em você, não o beberrão alquebrado que seus farrapos proclamavam, mas uma alma ferida, uma alma terrivelmente machucada nas trincheiras da vida. E, de coração, eu tive dó de você. Então, quando Hassim abusou de você naquele dia... – lágrimas lhe brotaram novamente dos olhos – Não consegui suportar, e eu sabia que você sofria por desejo de haxixe. Assim, eu paguei Yun Shatu e, dirigindo-me ao Mestre, eu... eu... oh, você vai me odiar por isso! – ela soluçou.

- Não... não... nunca...

- Eu disse a ele que você era um homem que poderia ser útil para ele, e implorei a ele para que Yun Shatu lhe fornecesse o que você precisava. Ele já havia lhe notado, pois o olho dele é o do escravizador, e o mundo todo é seu mercado de escravos! Assim, ele ordenou que Yun Shatu fizesse como pedi; e agora... seria melhor se você tivesse continuado como estava, meu amigo.

- Não! Não! – exclamei – Conheci alguns dias de regeneração, mesmo que tenham sido falsos! Estive diante de você, como um homem, e isso vale por todo o resto!

E tudo o que eu sentia por ela deve ter avultado em meus olhos, pois ela baixou os seus e ficou ruborizada. Não me pergunte como o amor chega até um homem; mas eu sabia que amava Zuleika... amava aquela misteriosa garota oriental, desde a primeira vez em que eu a vi... e, de alguma forma, eu sentia que ela, em certa medida, retribuía minha afeição. Esta percepção tornou ainda mais negra e árida a estrada que escolhi; mas – pois o puro amor sempre fortalece um homem – isto me encorajou para o que eu deveria fazer.

- Zuleika – eu disse, falando apressadamente –, o tempo voa, e há coisas que eu preciso saber; diga-me: quem é você, e por que fica neste covil do Hades?

- Eu sou Zuleika... isso é tudo o que sei. Sou circassiana de sangue e berço; quando eu era muito pequena, fui capturada numa incursão turca e criada num harém de Istambul. Embora eu fosse jovem demais para me casar, meu dono me deu de presente a... a Ele.

- E quem é ele? Este homem de rosto de caveira?

- Ele é Kathulos do Egito... isso é tudo o que sei. Meu mestre.

- Um egípcio? Então, o que ele está fazendo em Londres? Por que todo este mistério?

Ela entrelaçou nervosamente os dedos:

- Steephen, por favor, fale mais baixo; tem sempre alguém ouvindo em todos os lugares. Não sei quem é o Mestre, nem por que ele está aqui nem por que ele faz estas coisas. Juro por Alá! Se eu soubesse, eu lhe contaria. Às vezes, homens de aparência ilustre vêm aqui até a sala onde o mestre os recebe... não é a sala onde você o viu... e me faz dançar diante deles e, logo depois, flertar com eles um pouco. E eu sempre tenho que repetir exatamente o que dizem para mim. É o que devo fazer sempre... na Turquia, Berbéria, Egito, França e Inglaterra. O Mestre me ensinou Francês e Inglês, e ele próprio me educou de várias formas. Ele é o maior feiticeiro de todo o mundo, e conhece toda a magia antiga e tudo.

- Zuleika – eu disse –, minha raça está desaparecendo rapidamente, mas deixe-me tirá-la disto... venha comigo, e eu juro que vou lhe colocar longe desse demônio!

Ela se estremeceu e escondeu o rosto:

- Não, não; não posso!

- Zuleika – perguntei gentilmente –; qual o domínio que ele tem sobre você, menina? Entorpecente também?

- Não, não! – ela choramingou – Eu não sei... não sei... mas não consigo... nunca consigo escapar dele!

Sentei-me, frustrado por alguns momentos; depois, perguntei:

- Zuleika, onde estamos neste momento?

- Esta construção é um armazém abandonado, nos fundos do Templo do Silêncio.

- Imaginei isso. O que há nas arcas do túnel?

- Não sei.

Então, ela subitamente começou a chorar de forma suave:

- Você também é um escravo, como eu... você, que é tão forte e bondoso... oh, Steephen, não consigo agüentar isso!

Sorri:

- Chegue mais perto, Zuleika, e eu lhe contarei como vou enganar esse Kathulos.

Ela olhou apreensiva para a porta:

- Você deve falar baixo. Deitarei-me em seus braços e, enquanto você finge me acariciar, sussurre suas palavras para mim.

Ela deslizou para dentro dos meus braços e lá, no leito com estampa de dragões naquela casa de horror, conheci pela primeira vez a glória da forma esguia de Zuleika se aconchegando em meus braços... do rosto macio de Zuleika pressionado em meu peito. A fragrância dela estava em minhas narinas, o cabelo dela em meus olhos, e meus sentidos vacilaram; então, com meus lábios ocultos por seu cabelo sedoso, sussurrei suavemente:

- Primeiro irei avisar Sir Haldred Frenton... depois, encontrar John Gordon e falar a ele sobre este covil. Você trará a polícia para cá, e deve observar de perto e ficar pronta para se esconder Dele... até que possamos fugir e matá-lo, ou capturá-lo. Então, você estará livre.

- Mas você! – ela ofegou, empalidecendo – Você precisa ter o elixir, e só ele...

- Tenho um meio de sobrepujá-lo, menina. – respondi.

Ela ficou lamentavelmente pálida, e sua intuição feminina estalou na conclusão certa:

- Você vai se matar!

E, embora me torturasse ver sua comoção, senti uma alegria dolorosa ao saber que era por minha causa. Seus braços se apertaram ao redor do meu pescoço.

- Não, Steephen! – ela implorou – É melhor viver, até mesmo...

- Não; não a esse preço. É melhor uma morte limpa do que abandonar minha hombridade.

Ela me encarou selvagemente por um instante; então, pressionando subitamente seus lábios vermelhos contra os meus, ela se ergueu de um pulo e desapareceu do quarto. Estranhos, os caminhos do amor são estranhos. Dois navios abandonados nas praias da vida, nos encontramos inevitavelmente e, embora nenhuma palavra de amor tenha passado entre nós, conhecíamos o coração um do outro – através de fuligem e farrapos, e através de vestuários de escravos, conhecemos o coração um do outro, e desde o início amamos tão natural e puramente quanto foi pretendido desde o começo do Tempo.

O começo da vida agora, e o final para mim, pois, assim que eu completasse minha tarefa e antes que eu sentisse novamente os tormentos de minha maldição, o amor, a vida, a beleza e a tortura seriam apagados juntos no duro caráter terminante de uma bala de pistola, espalhando meus miolos decadentes. Melhor uma morte limpa do que...

A porta se abriu de novo, e Yussef Ali entrou.

- Chegou a hora de sair. – ele disse brevemente – Levante-se e me siga.

Eu, é claro, não tinha idéia de que horas eram. Não havia janela aberta no quarto onde eu estava – eu não vira nenhuma janela externa. Os quartos eram iluminados por velas finas em turíbulos que balançavam desde o teto. Quando eu me levantei, o esguio mouro jovem me olhou atravessado e de forma sinistra.

- Isto fica entre eu e você. – ele disse, sibilando – Somos servos do mesmo Mestre... mas isto só interessa a nós. Fique longe de Zuleika... o Mestre a prometeu para mim nos dias do império.

Meus olhos se estreitaram até se tornarem fendas, enquanto eu olhava para o belo rosto franzido do oriental, e um ódio como eu raramente conhecia se ergueu dentro de mim como uma onda. Meus dedos se abriram e fecharam involuntariamente, e o mouro, percebendo a ação, deu um passo para trás, com a mão no cinto.

- Agora não... há trabalho para nós... talvez mais tarde. – Então, numa súbita rajada fria de ódio: – Suíno! Homem-macaco! Quando o Mestre acabar com você, vou saciar a sede de minha adaga em seu coração!

Eu ri sombriamente:

- Faça isso logo, cobra do deserto, ou esmagarei sua espinha com minhas mãos.

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Re: Contos de Howard - Rosto de Caveira (Originalmente publicado em Weird Tales 1929).

Mensagem por Rogerio Rocha em Ter Jan 10, 2012 9:08 pm

10) A Casa Escura

“Contra todos os grilhões feitos pelo homem, e um inferno feito pelo homem...
Sozinho – finalmente – e sem ajuda... eu me rebelo!”
(Mundy)


Segui Yussef Ali ao longo dos corredores sinuosos, escadas abaixo – Kathulos não estava na sala do ídolo – e ao longo do túnel; depois, através das salas do Templo dos Sonhos, até a rua, onde as luzes da cidade brilhavam fraca e lugubremente, através das brumas e de um leve chuvisco. Do outro lado da rua, havia um automóvel, com as cortinas hermeticamente fechadas.

- É seu. – disse Hassim, que havia se juntado a nós – Caminhe naturalmente até ele. Não aja de forma suspeita. O local pode estar sendo vigiado. O motorista sabe o que fazer.

Então, ele e Yussef voltaram para o bar, e dei apenas um passo em direção ao meio-fio.

- Steephen!

Uma voz que fazia meu coração pular falou meu nome! Uma mão branca acenava das sombras de uma portada. Caminhei rapidamente para lá.

- Zuleika!

- Shhh!

Ela agarrou meu braço e colocou algo em minha mão; distingui vagamente um pequeno frasco de ouro.

- Esconda isto, rápido! – ela sussurrou com urgência – Não volte, mas vá embora e se esconda. Isto está cheio de elixir... tentarei lhe providenciar um pouco mais, antes que este acabe totalmente. Você deve encontrar um meio de se comunicar comigo.

- Sim, mas como você conseguiu isto? – eu perguntei, espantado.

- Eu roubei do Mestre! Agora, por favor, vá antes que ele sinta minha falta.

E ela saltou de volta à portada e desapareceu. Fiquei indeciso. Eu sabia que ela havia arriscado nada menos que sua vida ao fazer isto, e fui rasgado pelo medo do que Kathulos poderia fazer com ela, se o roubo fosse descoberto. Mas retornar à casa de mistério certamente atrairia suspeitas, e eu poderia executar meu plano e dar o troco, antes que o Ser de Rosto de Caveira soubesse da duplicidade de seu escravo.

Desse modo, atravessei a rua até o automóvel que me esperava. O motorista era um negro a quem eu nunca tinha visto antes; um homem magro, de estatura mediana. Olhei fixamente para ele, me indagando o que ele teria visto. Ele não deu evidência de ter visto nada, e concluí que, mesmo que ele tivesse percebido que eu recuara para dentro das sombras, ele não conseguiria ver o que aconteceu lá, nem seria capaz de reconhecer a garota.

Ele simplesmente acenou com a cabeça, quando fui para o banco de trás; e, no momento seguinte, corríamos para longe das ruas desertas e cheias de névoas. Havia um pacote ao meu lado, o qual concluí ser o disfarce mencionado pelo egípcio.

Recapturar as sensações que experimentei, enquanto passeava pela noite chuvosa e brumosa, seria impossível. Senti como se eu já estivesse morto, e as ruas vazias e sombrias ao meu redor fossem as estradas da morte, sobre as quais meu fantasma havia sido condenado a vagar para sempre. Havia uma alegria torturante em meu coração, e desespero negro – o desespero de um homem condenado. Não que a morte em si fosse tão repulsiva – uma vítima de narcótico morre vezes demais para recuar da última –, mas era duro ir embora logo quando o amor havia entrado na minha vida árida. E eu ainda era jovem.

Um sorriso sarcástico cruzou meus lábios – eles também eram jovens, os homens que morreram naquela Terra de Ninguém. Arregacei minha manga e fechei os punhos, contraindo os músculos. Não havia excesso de peso em minha estrutura, e grande parte da carne firme havia definhado, mas os músculos do grande bíceps ainda se sobressaíam como nós de aço, parecendo indicar grande força. Mas eu sabia que minha força era falsa; que, na verdade, eu era um homem enorme e alquebrado, animado apenas pelo fogo artificial do elixir, sem o qual uma garota frágil seria capaz de me derrubar.

O automóvel parou entre umas árvores. Estávamos nos arredores de um subúrbio aristocrático, e era mais de meia-noite. Através das árvores, vi uma casa grande avultar sombriamente contra as luzes distantes da Londres noturna.

- Esperarei aqui. – disse o negro – Ninguém é capaz de ver o automóvel desde a casa, ou desde a estrada.

Segurando um palito de fósforo, para que sua luz não pudesse ser vista do lado de fora do carro, examinei o “disfarce”, e foi difícil conter uma gargalhada insana. O disfarce era a pele inteira de um gorila. Segurando o pacote sob meu braço, caminhei até o muro que cercava a propriedade de Frenton. Poucas passos depois, as árvores onde o negro escondeu o carro mergulharam numa massa escura. Eu não acreditava que ele pudesse me ver, mas, por segurança, eu me dirigi, não ao portão alto de ferro na frente, mas para o muro ao lado, onde não havia portão.

Não se via nenhuma luz dentro da casa. Sir Haldred era um homem solteiro, e eu tinha certeza de que os empregados estavam todos na cama há muito tempo. Transpus o muro facilmente e andei furtivamente, através do gramado escuro, até uma porta lateral, ainda carregando o medonho “disfarce” sob meu braço. A porta estava trancada, como eu havia esperado, e eu não queria acordar ninguém até estar em segurança na casa, onde o som de vozes não chegaria a ninguém que pudesse me seguir. Agarrei a maçaneta com ambas as mãos e, empregando lentamente minha força inumana, comecei a torcer. A haste girou em minhas mãos, e a fechadura dentro dela se despedaçou subitamente, com um barulho que parecia o espatifar de um canhão no silêncio. Mais um instante, e eu estava dentro e fechava a porta atrás de mim.

Dei uma única passada no escuro, na direção onde eu acreditava que estivesse a escada, e logo parei quando um raio de luz brilhou em meu rosto. Ao lado daquele raio, vi o lampejo da boca de uma pistola. Atrás dele, pairava um rosto magro e sombreado.

- Fique onde está e mãos ao alto!

Levantei minhas mãos, deixando o pacote cair ao chão. Eu só ouvira aquela voz uma vez, mas eu a reconhecia – percebi instantaneamente que o homem que segurava aquela lanterna era John Gordon.

- Quantos vieram com você?

A voz dele era brutal e imponente.

- Estou só. – respondi – Leve-me para uma sala onde uma luz não possa ser vista lá fora, e lhe direi algumas coisas que você quer saber.

Ele estava quieto; então, mandando que eu pegasse o pacote ao qual deixara cair, ele deu um passo para um lado e gesticulou para que eu fosse à frente dele até o cômodo mais próximo. Lá, ele me guiou até uma escadaria e, no alto, abriu uma porta e acendeu as luzes.

Eu estava numa sala, cujas cortinas estavam totalmente fechadas. Durante este percurso, a vigilância de Gordon não relaxara, e agora ele ainda me apontava seu revólver. Vestido em trajes convencionais, ele revelava ser um homem alto e magro, mas poderosamente constituído; mais alto que eu, mas não tão pesado – com olhos cinzentos como o aço, e feições bem proporcionadas. Algo naquele homem me chamou a atenção, enquanto eu percebia uma contusão em seu maxilar, onde meu punho havia batido em nosso último encontro.

- Não consigo acreditar – ele disse vigorosamente – que esta aparente falta de sutileza e de astúcia seja verdadeira. Sem dúvida, você tem seus próprios motivos para me querer numa sala isolada agora, mas Sir Haldred está eficientemente protegido agora mesmo. Fique quieto.

Com o cano da arma pressionado contra meu peito, ele correu a mão sobre minhas vestimentas, em busca de armas escondidas, parecendo levemente surpreso quando não encontrou nenhuma.

- Mesmo assim – ele murmurou, como que para si mesmo –, um homem que consegue arrombar uma tranca de ferro com as mãos nuas, tem pouca necessidade de armas.

- Você está perdendo um tempo valioso. – eu disse impacientemente – Fui mandado aqui esta noite, para matar Sir Haldred Frenton...

- Mandado por quem? – a pergunta foi disparada contra mim.

- Pelo homem que, às vezes, se disfarça de leproso.

Ele assentiu, com um brilho em seus olhos cintilantes:

- Minhas suspeitas estavam corretas, então.

- Sem dúvida. Escute-me de perto: você deseja a morte ou a prisão daquele homem?

Gordon sorriu sombriamente:

- Para alguém que leva a marca do escorpião na mão, minha resposta seria supérflua.

- Então siga minhas instruções, e seu desejo se realizará.

Seus olhos se estreitaram em suspeita.

- Então é esta a explicação para sua entrada aberta e não-resistência? – ele disse lentamente – Será que o entorpecente que lhe dilata os olhos também deforma seu pensamento, para você achar que me guiou até uma armadilha?

Pressionei minhas mãos contra as têmporas. O tempo corria, e cada momento era precioso... como convencer este homem da minha honestidade?

- Ouça: meu nome é Stephen Costigan, da América. Eu era um freqüentador da espelunca de Yun Shatu, e um viciado em haxixe... como você havia pensado, mas somente agora um escravo de droga mais forte. Por causa desta escravidão, o homem a quem você conhece como um falso leproso, e a quem Yun Shatu e seus amigos chamam de “Mestre”, ganhou dominância sobre mim e me mandou aqui para matar Sir Haldred... por que, só Deus sabe. Mas ganhei um espaço de tempo ao cair na posse de parte de seu entorpecente, que eu devo ter para viver; e temo e odeio este Mestre. Ouça-me, e eu juro, por todas as coisas sagradas e profanas, que antes do sol se levantar, o falso leproso estará em seu poder!

Eu poderia dizer que Gordon estava impressionado, apesar de si mesmo.

- Fale depressa! – ele disse abruptamente.

Eu ainda poderia sentir sua descrença, e uma onda de impotência caiu sobre mim.

- Se não quiser agir comigo – eu disse –, deixe-me ir e, de alguma forma, encontrarei um meio de chegar até o Mestre e matá-lo. Meu tempo é curto... minhas horas estão cronometradas, e minha vingança ainda está para ser realizada.

- Deixe-me ouvir seu plano, e fale depressa. – Gordon respondeu.

- É bem simples. Retornarei ao covil do Mestre e direi a ele que realizei o que ele me mandou fazer. Você deve me seguir de perto, com seus homens e, enquanto ocupo o Mestre com conversam cerque a casa. Então, após o sinal, invada o local e o mate ou capture.

Gordon franziu a sobrancelha:

- Onde é essa casa?

- O armazém no fundo da casa foi transformado num verdadeiro palácio oriental.

- O armazém! – ele exclamou – Como pode ser? Eu havia pensado nisso antes, mas eu o examinei cuidadosamente pelo lado de fora. As janelas estão firmemente trancadas, e as aranhas já fizeram teias por elas. As portas estão pregadas no lado externo; e os lacres, que marcam o armazém como abandonado, nunca foram quebrados ou perturbados de forma alguma.

- Eles se abrem em túneis de baixo para cima. – respondi – O Templo dos Sonhos está diretamente conectado com o armazém.

- Já atravessei o beco entre as duas construções – disse Gordon –, e as portas do armazém que se abrem para o beco estão, como já disse, pregadas do lado de fora, exatamente como os donos as deixaram. Aparentemente, não há nenhum tipo de saída pelos fundos do Templo dos Sonhos.

- Um túnel conecta as construções, com uma porta na sala dos fundos de Yun Shatu, e a outra na sala do ídolo do armazém.

- Já estive na sala dos fundos de Yun Shatu, e não encontrei tal porta.

- A mesa fica sobre ela. Já notou a pesada mesa no centro da sala? Se você a girasse, a porta secreta se abriria no chão. Agora eis o meu plano: atravessarei o Templo dos Sonhos e encontrarei o Mestre na sala do ídolo. Você postará homens secretamente, em frente ao armazém, e outros na outra rua, em frente ao Templo dos Sonhos. A casa de Yun Shatu, como você sabe, fica em frente à margem do rio, enquanto o armazém, na direção oposta, fica em frente a uma rua estreita que corre paralela ao rio. Após o sinal, deixe os homens na rua arrombarem a frente do armazém e o invadirem, enquanto, simultaneamente, aqueles em frente à casa de Yun Shatu invadem o Templo dos Sonhos. Deixe-os alcançarem a sala dos fundos, baleando sem piedade a quem tentar impedi-los, e lá abrirem a porta secreta, como eu havia dito. Não havendo, até onde sei, outra saída do covil do Mestre, ele e seus criados irão forçosamente tentar escapar através do túnel. Desse modo, nós os teremos em ambos os lados.

Gordon refletia, enquanto eu examinava seu rosto com ávido interesse.

- Isto pode ser uma armadilha – ele murmurou –, ou uma tentativa de me afastar de Sir Haldred; mas...

Prendi meu fôlego.

- Sou um apostador por natureza. – ele disse pausadamente – Vou seguir o que vocês, americanos, chamam de palpite... mas Deus lhe ajude, se você estiver mentindo para mim!

Fiquei ereto:

- Graças a Deus! Agora, ajude-me com este traje, pois terei que estar usando-o, quando retornar ao automóvel que me aguarda.

Seus olhos se estreitaram, enquanto eu desembrulhava o horrível disfarce e me preparava para vesti-lo.

- Isto mostra, como sempre, o toque da mão do mestre. Você foi, sem dúvida, instruído a deixar marcas de suas mãos, vestidas nessas luvas horrendas...

- Sim, embora eu não tenha idéia do motivo.

- Acho que tenho... o Mestre é famoso por não deixar pistas verdadeiras para marcar seus crimes... um macaco grande escapou de um zoológico na vizinhança esta tarde, e isso parece óbvio demais para ser puro acaso, à luz deste disfarce. O macaco levaria a culpa pela morte de Sir Haldred.

O disfarce foi facilmente colocado, e a ilusão de realidade que ele criava era tão perfeita que me fez estremecer quando me vi num espelho.

- Agora são duas da manhã. – disse Gordon – Tendo em conta o tempo que levará para você voltar à Limehouse, e o tempo que levarei para deixar meus homens estacionados, prometo-lhe que, às 4:30, a casa estará bem cercada. Dê-me uma vantagem... espere aqui, até eu ter saído desta casa, para que eu possa chegar ao mesmo tempo em que você.

- Ótimo! – eu impulsivamente lhe apertei a mão – Sem dúvida, haverá lá uma garota que não está, de modo algum, envolvida nas ações maléficas do Mestre; é apenas uma vítima das circunstâncias, como fui. Trate-a brandamente.

- Será feito. Qual o sinal que devo esperar?

- Não tenho meios de lhe sinalizar, e eu duvido que qualquer som dentro da casa possa ser ouvido na rua. Leve seus homens para atacarem de surpresa às cinco.

Eu me virei para partir.

- Um homem está lhe esperando num carro, eu presumo. Ele é capaz de suspeitar de algo?

- Tenho um meio de verificar; e, se ele suspeitar – respondi sombriamente –, retornarei sozinho ao Templo dos Sonhos.


11) Às Quatro e Trinta e Quatro

“Duvidando, tendo sonhos que nenhum mortal ousou sonhar antes”.
(Poe)


A porta se fechou suavemente atrás de mim, a grande casa escura avultando mais desolada que nunca. Andando com os ombros curvados, atravessei correndo o gramado molhado – uma figura grotesca e profana, eu não duvido, pois qualquer um que me olhasse rapidamente juraria que eu não era um homem, mas um macaco gigante. O Mestre havia planejado de forma bem astuta!

Escalei o muro, pousei no chão além dele e avancei, através da escuridão e chuvisco, até o grupo de árvores que escondiam o automóvel.

O motorista negro se inclinou no banco da frente. Eu respirava com dificuldade e procurava, de várias formas, simular a atitude de um homem que havia acabado de matar a sangue-frio, e que fugia do cenário do crime.

- Você não ouviu nada? Nenhum som, nenhum grito? – sibilei, agarrando-lhe o braço.

- Nenhum som, exceto um leve espatifar, quando você começou a entrar. – ele respondeu – Você fez um bom trabalho... ninguém que passou pela estrada suspeitou de qualquer coisa.

- Você ficou no carro o tempo todo? – perguntei. E, quando ele me respondeu que sim, eu lhe agarrei o tornozelo e corri minha mão sobre a sola de seu sapato; estavam perfeitamente secos, assim como a bainha de sua calça. Satisfeito, fui para o banco de trás. Se ele tivesse dado um passo para fora, o sapato e a roupa teriam delatado sua umidade.

Ordenei a ele que evitasse dar a partida no carro, até que eu tivesse tirado a pele de macaco, e logo corremos através da noite e eu me tornei vítima de dúvidas e incertezas. Por que Gordon daria qualquer confiança à palavra de um estranho, anteriormente aliado do Mestre? Ele rebaixaria minha história a delírios de um viciado enlouquecido por drogas, ou a uma mentira para emboscá-lo ou enganá-lo? Mesmo assim, se ele não acreditava em mim, por que me deixou partir?

Eu só poderia confiar. De qualquer modo, o que Gordon fizesse, ou deixasse de fazer, dificilmente afetaria meu destino final, embora Zuleika tivesse me fornecido algo que iria meramente aumentar a quantidade de meus dias. Meu pensamento se centralizou nela e, maior que minha esperança de me vingar de Kathulos, era a esperança de que Gordon pudesse ser capaz de salvá-la das garras daquele demônio. De qualquer forma, pensei sombriamente, se Gordon me falhasse, eu ainda tinha minhas mãos e, se eu pudesse colocá-las sobre a forma ossuda do Ser de Rosto de Caveira...

Súbito, me peguei pensando em Yussef Ali e suas estranhas palavras, cuja importância acabara de me ocorrer: “O Mestre a prometeu para mim nos dias do império!”.

Os dias do império... o que isso poderia significar?

O automóvel finalmente parou diante da construção que escondia o Templo do Silêncio – agora escuro e silencioso. O trajeto parecia ter sido interminável e, quando saí do carro, olhei para o relógio no pára-lama do mesmo. Meu coração pulou – eram 4:34 e, a menos que meus olhos estivessem me enganando, vi um movimento nas sombras através da rua, longe do brilho das luzes da mesma. Àquela hora da noite, só poderia significar uma das duas coisas: algum criado do Mestre aguardava pelo meu retorno, ou Gordon havia mantido sua palavra. O negro se afastou, dirigindo o carro, e eu abri a porta, cruzei o bar abandonado e adentrei a sala do ópio. Os beliches e o chão estavam alastrados por sonhadores, pois tais lugares nada sabem da luz do dia ou da noite como as pessoas normais, mas todos dormiam profundamente um sono embriagado.

As lâmpadas bruxuleavam através da fumaça, e um silêncio pairava sobre tudo, como uma bruma.


12) O Bater das Cinco

“Ele viu pegadas gigantes de morte
E muitos contornos de condenação”.
(Chesterton)


Dois dos jovens chineses se agachavam entre os fogos fumarentos, encarando-me sem piscarem os olhos, enquanto eu abria meu caminho com dificuldade por entre os corpos deitados e seguia até a porta dos fundos. Pela primeira vez, atravessei sozinho o corredor e encontrei tempo para me perguntar novamente sobre o conteúdo dos estranhos baús que se alinhavam nas paredes.

Quatro batidas no lado inferior do chão, e no momento seguinte, eu estava na sala do ídolo. Ofeguei de espanto: o fato de que, do outro lado da mesa, Kathulos se sentava, em todo o seu horror, não foi a causa de minha exclamação. Exceto pela mesa, a cadeira onde o Ser de Rosto de Caveira se sentava e o altar – agora sem incenso –, a sala estava perfeitamente vazia! Paredes pardacentas e feias do armazém abandonado encontraram meu olhar, ao invés das tapeçarias caras às quais eu me acostumara. As palmeiras, o ídolo, o biombo envernizado – tudo havia sumido.

- Ah, Sr. Costigan, você sem dúvida está se perguntando.

A voz morta do Mestre entrou em meus pensamentos. Seus olhos de serpente cintilavam funestamente. Os longos dedos amarelos se enroscavam sinuosamente sobre a mesa.

- Você sem dúvida achou que eu fosse um idiota confiante! – ele disse abruptamente – Pensou que eu não lhe seguiria? Seu idiota... Yussef Ali esteve em seus calcanhares em cada movimento!

Por um instante, fiquei mudo, congelado pelo espatifar destas palavras contra meu cérebro; então, quando a importância delas esmoreceu, eu me lancei para a frente com um urro. No mesmo instante, antes que meus dedos curvados pudessem se fechar no horror zombeteiro do outro lado da mesa, homens vieram correndo de todos os lados. Eu rodopiei e, com a clareza do ódio, distingui, dentre o redemoinho de rostos ferozes, o de Yussef Ali, e acertei meu punho direito contra sua têmpora com toda a minha força. Enquanto ele caía, Hassim me derrubou de joelhos e um chinês arremessou uma rede sobre meus ombros. Ergui-me ereto, arrebentando as cordas resistentes como se fossem barbantes, e logo um cassetete nas mãos de Ganra Singh me lançou, atordoado e sangrando, sobre o chão.

Mãos magras e fortes me seguraram e amarraram com cordas, que me cortavam cruelmente a pele. Emergindo das névoas da semi-inconsciência, eu me vi deitado no altar, com o mascarado Kathulos se erguendo sobre mim como uma torre magra de marfim. Ao redor, num semi-círculo, estavam Ganra Singh, Yar Khan, Yun Shatu e muitos outros aos quais eu conhecia como freqüentadores do Templo dos Sonhos. Atrás deles – e a visão me cortou o coração –, eu vi Zuleika se agachando na soleira de uma porta, seu rosto pálido e suas mãos pressionadas contra as bochechas, numa atitude de abjeto terror.

- Não confiei totalmente em você – disse Kathulos, de forma sibilante –, e por isso mandei que Yussef Ali lhe seguisse. Ele alcançou o grupo de árvores antes de você e, seguindo-lhe propriedade adentro, ouviu sua bastante interessante conversa com John Gordon... pois ele escalou o muro como um gato e se agarrou à saliência da janela! Seu motorista demorou de propósito, para dar a Yussef Ali tempo suficiente para que voltasse... De qualquer modo, decidi mudar minha moradia. Minha mobília já está em seu caminho para outra casa, e assim que tivermos nos livrado do traidor... você!... partiremos também, deixando uma pequena surpresa para seu amigo Gordon, quando ele chegar às cinco e meia.

Meu coração deu um súbito pulo de esperança. Yussef Ali havia entendido mal, e Kathulos demorava aqui em falsa segurança, enquanto a força de detetives de Londres já havia cercado silenciosamente a casa. Sobre meu ombro, vi Zuleika desaparecer da porta.

Olhei para Kathulos, absolutamente desatento do que ele estava dizendo. Não faltava muito para as cinco... se ele demorasse mais... Então, eu me congelei quando o egípcio deu uma ordem, e Li Kung, um chinês magro e cadavérico, saiu do silencioso semi-círculo e puxou de sua manga uma adaga longa e fina. Meus olhos procuravam o cronômetro que ainda descansava sobre a mesa, e meu coração esmoreceu. Ainda faltavam dez minutos para as cinco. Minha morte não importava muito, vez que ela simplesmente apressava o inevitável, mas, no olho de minha mente, eu poderia ver Kathulos e seus assassinos fugindo, enquanto a polícia aguardava o bater das cinco.

O Rosto de Caveira parou seu discurso, e ficou numa atitude de escuta. Creio que sua intuição sobrenatural o alertava do perigo. Ele deu uma ordem rápida e curta para Li Kung, e o chinês avançou, com a adaga erguida sobre meu peito.

O ar foi repentinamente sobrecarregado com tensão dinâmica. A ponta afiada da adaga pairou acima de mim... o som estridente de um apito policial veio alto e claro, e logo atrás do som, veio um tremendo estardalhaço desde a frente do armazém!

Kathulos entrou em atividade desvairada. Sibilando ordens como um gato que bufava, ele pulou em direção à porta escondida, e os demais o seguiram. As coisas aconteceram com a velocidade de um pesadelo. Li Kung havia seguido os outros, mas Kathulos lançou um comando sobre seu ombro, e o chinês voltou e veio correndo em direção ao altar onde eu jazia, a adaga erguida e o desespero em seu rosto.

Um grito atravessou o clamor e, enquanto eu me retorcia desesperadamente para evitar a adaga que descia, tive um vislumbre de Kathulos arrastando Zuleika dali. Então, com uma torção desesperada, desabei do altar, no exato momento em que a adaga de Li Kung, roçando meu peito, afundou vários centímetros na superfície com manchas escuras e vibrou ali.

Eu havia caído do lado próximo à parede, e não pude ver o que estava acontecendo na sala; mas eu parecia ouvir, de longe, homens gritando fraca e horrendamente. Então, Li Kung soltou sua lâmina e pulou como um tigre ao redor da extremidade do altar. Simultaneamente, um revólver disparou da portada... o chinês girou, a adaga lhe voou da mão e ele despencou ao chão.

Gordon veio correndo da porta onde, alguns momentos antes, Zuleika havia estado; sua pistola ainda lhe fumegava em sua mão. Atrás dele, havia três homens de membros longos e traços bem-proporcionados, usando roupas simples. Ele cortou minhas amarras e me puxou de pé.

- Rápido! Para onde foram?

Não havia ninguém vivo na sala, exceto eu mesmo, Gordon e seus homens, embora dois homens jazessem mortos no chão.

Encontrei a porta secreta e, após alguns segundos de procura, achei a alavanca que a abria. Com os revólveres prontos, os homens se agruparam ao meu redor e olharam fixa e nervosamente para dentro da escada escura. Nenhum som saía da escuridão total.

- Isto é misterioso! – murmurou Gordon – Acho que o Mestre e seus criados seguiram este caminho, quando abandonaram a construção... assim como certamente não estão aqui agora!... e Leary e seus homens deveriam tê-los detido, ou no próprio túnel, ou na sala dos fundos de Yun Shatu. De qualquer forma, se eles o fizessem, deveriam ter se comunicado conosco a esta hora.

- Cuidado, sir! – um dos homens exclamou subitamente, e Gordon, com uma exclamação, bateu com o cano de sua pistola e esmagou a vida de uma enorme serpente, a qual havia rastejado silenciosamente pelos degraus desde a escuridão sob nós.

- Vamos averiguar este assunto. – ele disse, se endireitando.

Mas, antes que ele pudesse dar um passo sobre o primeiro degrau, eu o detive; pois, com a pele se arrepiando, comecei a entender vagamente algo do que havia acontecido... comecei a entender o silêncio no túnel, a ausência dos detetives, e os gritos que eu havia escutado alguns minutos antes, enquanto jazia no altar. Examinando a alavanca que abria a porta, achei uma alavanca menor... comecei a acreditar que eu sabia o que aqueles baús misteriosos continham.

- Gordon – eu disse roucamente –; você tem uma lanterna?

Um dos homens mostrou uma de tamanho grande.

- Dirija a luz para dentro do túnel; mas, por amor à sua vida, não coloque um pé sobre os degraus.

O raio de luz atravessou as sombras, iluminando o túnel e emoldurando claramente uma cena que assombrará meu cérebro pelo resto de minha vida. No chão do túnel, entre os baús agora abertos, jaziam dois homens do melhor serviço secreto de Londres. Eles jaziam com os membros torcidos e os rostos horrivelmente desfigurados; e, acima e ao redor deles se retorciam, em longas escamas brilhantes, vários répteis horrendos.

O relógio bateu cinco horas.


13) O Mendigo Cego que Andava a Carro

“Ele parecia um mendigo que caminha devagar,
Procurando pedaços de pão e cerveja”.
(Chesterton)


A fria aurora cinzenta se aproximava do rio, quando estávamos no bar abandonado do Templo dos Sonhos. Gordon estava interrogando os dois homens, que haviam ficado de guarda do lado de fora da construção, enquanto seus infelizes companheiros entraram para explorar o túnel.

- Assim que ouvimos o apito, sir, Leary e Murken atravessaram correndo o bar e entraram na sala do ópio, enquanto esperávamos aqui, na porta do bar, de acordo com as ordens. Imediatamente, vários viciados esfarrapados vieram saindo aos tombos, e nós os pegamos. Mas ninguém mais saiu, e nada ouvimos de Leary e Murken; deste modo, apenas esperamos até você chegar, sir.

- Você não viu nenhum sinal de um gigante negro, ou do chinês Yun Shatu?

- Não, sir. Após algum tempo, a guarda de patrulha chegou e lançamos um cordão de isolamento ao redor da casa, mas ninguém foi visto.

Gordon encolheu os ombros; poucas e breves perguntas o haviam convencido de que os cativos eram viciados inofensivos, e ele os soltou.

- Tem certeza de que mais ninguém saiu?

- Sim, senhor... não, espere um momento. Um infeliz e velho mendigo cego saiu, todo esfarrapado e sujo, com uma jovem esfarrapada guiando-o. Nós o paramos, mas não o prendemos... um infeliz como aquele jamais poderia ser nocivo.

- Não? – Gordon falou abruptamente – Para onde ele foi?

- A garota o guiou rua abaixo, até o quarteirão seguinte, e logo um automóvel parou; eles o pegaram e saíram, senhor.

Gordon o olhou ferozmente.

- A estupidez dos detetives de Londres se tornou legitimamente uma piada internacional. – ele disse, de forma ácida – Sem dúvida, nunca lhe ocorreu ser estranho um mendigo da Limehouse sair andando por aí em seu próprio automóvel.

Então, deixando impacientemente o homem de lado, embora este tentasse falar mais, ele se voltou para mim, e vi rugas de cansaço sob seus olhos.

- Sr. Costigan, se você vier ao meu apartamento, poderemos ser capazes de esclarecer algumas coisas novas.


14) O Império Negro

“Oh, as novas lanças mergulhadas em sangue vital, enquanto as mulheres guincham em vão!
Oh, os dias antes dos ingleses! Quando esses dias retornarão?”.
(Mundy)


Gordon riscou um fósforo, e distraidamente o deixou palpitar e apagar em sua mão. Seu cigarro turco pendia, sem acender, entre seus dedos.

- Esta é a conclusão mais lógica a ser tirada. – ele dizia – O elo fraco de nossa corrente foi a falta de homens. Mas, dane-se, ninguém pode organizar um exército às duas da manhã, mesmo com a ajuda da Scotland Yard. Prossegui até a Limehouse, deixando ordens para vários guardas de patrulha me seguirem o mais rápido possível, se reunirem e lançarem um cordão de isolamento ao redor da casa.

“Chegaram tarde demais para impedir que os criados do Mestre escapulissem pelas portas laterais e janelas, não há dúvidas, o que conseguiram fazer com apenas Finnegan e Hansen de guarda em frente à casa. No entanto, chegaram a tempo de impedirem que o Mestre fugisse por aquele caminho... sem dúvida, ele demorou para poder colocar seu disfarce, e foi pego daquela maneira. Ele deve sua fuga à sua astucia e à falta de cuidados de Finnegan e Hansen. A garota que o acompanhava...”.

- Era Zuleika, sem dúvida. – respondi apaticamente, perguntando-me novamente quais grilhões prendiam-na ao feiticeiro egípcio.

- Você deve a ela sua vida. – Gordon disse abruptamente – Estávamos nas sombras em frente ao armazém, esperando a hora do ataque e, é claro, sem sabermos o que acontecia dentro da casa, quando uma jovem apareceu numa das janelas com barras de madeira e nos implorou, pelo amor de Deus, que fizéssemos alguma coisa, que um homem estava sendo assassinado. Então invadimos imediatamente. No entanto, ela não foi vista quando entramos.

- Ela voltou para a sala, sem dúvida – murmurei –; e foi forçada a acompanhar o Mestre. Deus permita que ele nada saiba do truque dela.

- Realmente não sei – disse Gordon, deixando pender o palito meio queimado de fósforo – se ela acertou sobre nossa verdadeira identidade, ou se ela simplesmente fez aquele apelo por desespero.

“Contudo, o ponto principal é este: evidências apontam para o fato de que, ao ouvirem o apito, Leary e Murken invadiram a casa de Yun Shatu pela frente, ao mesmo tempo em que meus três homens e eu fizemos nossa investida pela frente do armazém. Enquanto levamos alguns segundos para arrombar a porta, é lógico supor que eles encontraram a porta secreta e entraram no túnel antes que invadíssemos o armazém.

“O Mestre, sabendo antecipadamente de nossos planos, estando consciente de que uma invasão seria feita através do túnel e tendo há muito se preparando para tal emergência...”.

Um estremecimento involuntário me sacudiu.

- ... o Mestre usou a alavanca que abria o cofre... os gritos que você ouviu, quando estava deitado no altar, foram os guinchos de morte de Leary e Murken. Então, deixando o chinês para trás, para acabar com você, o Mestre e os restantes desceram túnel adentro... por incrível que pareça... e, trilhando ilesos o caminho deles por entre as serpentes, entraram na casa de Yun Shatu e escaparam de lá, como eu havia dito.

- Parece impossível. Por que as serpentes não os atacariam?

Gordon finalmente acendeu seu cigarro, e deu umas baforadas, poucos segundos antes de responder:

- Os répteis talvez ainda estivessem dando sua total e horrenda atenção aos moribundos, ou mais: já fui, em ocasiões anteriores, confrontado com provas incontestáveis do domínio do Mestre sobre feras e répteis, até mesmo das ordens mais baixas e perigosas. Como ele e seus escravos passaram, sãos e salvos, por entre aqueles demônios escamosos, é, por enquanto, um dos muitos mistérios insolúveis relativos àquele homem estranho.

Agitei-me inquieto em minha cadeira. Isto trouxe à tona um ponto para o propósito de esclarecimento, pelo qual fui até os aposentos simples e elegantes, porém bizarros, de Gordon.

- Você ainda não me contou – eu disse abruptamente – quem é esse homem, e qual a missão dele.

- Sobre quem é ele, só sei dizer que é conhecido como você o chama: o Mestre. Eu nunca o vi sem máscara, nem sei seu verdadeiro nome nem sua nacionalidade.

- Posso lhe esclarecer isso um pouco. – interrompi – Já o vi sem máscara e ouvi o nome pelo qual os escravos o chamavam.

Os olhos de Gordon brilharam, e ele se curvou para frente.

- Seu nome – continuei – é Kathulos, e ele diz ser um egípcio.

- Kathulos! – Gordon repetiu – Você diz que ele afirma ser um egípcio... você tem algum motivo para duvidar da reivindicação dele dessa nacionalidade?

- Ele deve ser do Egito – respondi pausadamente –, mas ele é, de alguma forma, diferente de qualquer humano que já vi, ou esperava ver. A idade avançada pode explicar algumas das peculiaridades dele, mas há certas diferenças lineares, as quais meus estudos antropológicos dizem estarem presentes desde o nascimento... traços físicos que seriam anormais em qualquer outro homem, mas que são perfeitamente normais em Kathulos. Isso soa contraditório, eu admito, mas para compreender totalmente a horrenda inumanidade do homem, você teria que vê-lo pessoalmente.

Gordon prestou atenção, enquanto eu rascunhava rapidamente a aparência do egípcio da maneira como eu me lembrava dele – e aquela aparência estava inesquecivelmente gravada em meu cérebro para sempre.

Quando terminei, ele balançou a cabeça:

- Como já disse, nunca vi Kathulos, exceto quando disfarçado de mendigo, ou leproso ou algo do tipo... quando ele estava bastante enfaixado em farrapos. Mesmo assim, também fui impressionado por uma estranha diferença nele... algo que não está presente em outros homens.

Gordon bateu de leve no joelho com os dedos – um hábito dele, quando profundamente absorvido por algum tipo de problema.

- Você me perguntou sobre a missão desse homem. – ele começou a falar, devagar – Vou lhe contar tudo que sei.

“Minha posição com o governo britânico é única e peculiar. Possuo o que poderia ser chamada de comissão de perambulação – um cargo criado unicamente com o propósito de satisfazer minhas necessidades especiais. Como oficial do serviço secreto durante a guerra, convenci as autoridades da necessidade de tal cargo, e de minha habilidade para preenchê-lo.

“Algo em torno de 17 meses atrás, fui mandado para a África do Sul, a fim de investigar a agitação que estava crescendo entre os nativos do interior, desde a Guerra Mundial, e a qual havia depois assumido proporções alarmantes. Lá, eu comecei a seguir o rastro desse homem chamado Kathulos. Percebi, por vias indiretas, que a África era um caldeirão fervilhante de rebelião, do Marrocos até a Cidade do Cabo. Aquela velha, velha promessa havia sido feita novamente: os negros e muçulmanos, juntos, expulsariam os brancos para dentro do mar.

“Este pacto havia sido feito antes, mas sempre quebrado até o momento. Agora, contudo, senti um intelecto gigante e um gênio monstruoso por trás do véu; um gênio suficientemente poderoso para realizar esta união e mantê-la. Trabalhando completamente com insinuações e pistas vagamente sussurradas, segui a trilha através da África Central e dentro do Egito. Lá, eu finalmente encontrei evidências definitivas de que tal homem existia. Os sussurros insinuavam sobre um homem morto-vivo – um homem com rosto de caveira. Soube que esse homem era o sumo-sacerdote da misteriosa sociedade do Escorpião, do norte da África. Ele era mencionado de vários modos, como Rosto de Caveira, o Mestre e o Escorpião.

“Seguindo uma trilha de oficiais subornados e segredos surrupiados de estado, eu finalmente o rastreei até Alexandria, onde o avistei pela primeira vez, numa espelunca, no bairro dos nativos – disfarçado de leproso. Eu o ouvi sendo chamado de ‘Poderoso Escorpião’ pelos nativos, mas ele escapou de mim.

“Todas as pistas desapareceram então; a trilha sumiu totalmente, até que rumores de estranhos acontecimentos me alcançaram e eu retornei à Inglaterra, para investigar um aparente rombo no cargo da guerra.

“Como eu havia pensado, o Escorpião me precedera. Esse homem, cuja educação e astúcia transcendiam qualquer coisa que eu já tivesse encontrado, é simplesmente o líder e instigador de um movimento mundial como o mundo nunca tinha visto antes. Ele planeja simplesmente a destruição das raças brancas!

“Seu propósito definitivo e supremo é um império negro, com ele próprio sendo imperador do mundo! E, com esta finalidade, ele juntou, numa conspiração monstruosa, os negros, marrons e amarelos”.

- Agora entendo o que Yussef Ali quis dizer, quando ele falou “os dias do império”. – murmurei.

- Exato. – Gordon disse abruptamente, com agitação reprimida – O poder de Kathulos é ilimitado e incalculável. Como um polvo, seus tentáculos se estendem até os lugares mais elevados da civilização e os cantos mais distantes do mundo. E sua arma principal é: narcótico! Ele inundou a Europa e, não duvido, a América, com ópio e haxixe; e, apesar de todos os esforços, tem sido impossível descobrir a ruptura nas barreiras pelas quais aquele material infernal está chegando. Com isto, ele captura e escraviza homens e mulheres.

“Você me falou de homens e mulheres da aristocracia, os quais você viu chegando ao antro de Yun Shatu. Sem dúvida, eles eram viciados em drogas – pois, como eu disse, o hábito se esconde em lugares nobres: detentores de posições governamentais, sem dúvida, chegando em viagem atrás do material que solicitavam, e dando em troca segredos de estado, informações confidenciais e promessa de proteção para os crimes do Mestre.

“Ah, ele não trabalha ao acaso! Antes mesmo que a maré negra invada, ele estará preparado; se ele conseguir o que quer, os governos das raças brancas serão minas de corrupção – os homens mais fortes das raças brancas estarão mortos. Os segredos de guerra dos homens serão deles. Quando isso acontecer, imagino uma rebelião simultânea contra a supremacia branca, vinda de todas as raças coloridas – raças que, na última guerra, aprenderam os modos de batalha dos brancos, e que, lideradas por um homem como Kathulos e usando as melhores armas dos brancos, serão quase invencíveis.

“Uma corrente regular de fuzis e munição adentrou a África Oriental, e só parou quando descobri a fonte dela. Descobri que uma sensata e confiável firma escocesa estava contrabandeando estas armas entre os nativos, e descobri mais: o diretor desta firma era um viciado em ópio. Foi o bastante. Vi a mão de Kathulos no assunto. O diretor foi preso e cometeu suicídio em sua cela – esta é apenas uma das muitas situações com as quais tenho de lidar.

“Novamente o caso do Major Fairlan Morley. Ele, assim como eu, possuía uma comissão bem flexível e havia sido mandado para Transval, a fim de trabalhar com o mesmo caso. Ele mandou, para Londres, vários papéis secretos para serem guardados. Eles chegaram algumas semanas atrás, e foram postos no caixa forte de um banco. A carta que os acompanhava dava instruções explícitas de que eles não deveriam ser entregues a ninguém, exceto o próprio major, quando este os pedisse pessoalmente, ou, no caso de sua morte, para mim mesmo.

“Assim que eu soube que ele navegou da África, enviei homens de confiança para Bordeaux, onde ele pretendia fazer seu primeiro desembarque na Europa. Não conseguiram salvar a vida do major, mas atestaram sua morte, pois encontraram o corpo dele num navio abandonado, cujo casco desmantelado estava encalhado na praia. Foram feitos esforços para manter o assunto em segredo, mas, de alguma forma, isso vazou para os papéis como conseqüência...”.

- Comecei a entender por que eu deveria me fazer passar pelo infeliz major. – interrompi.

- Exatamente. Uma barba falsa lhe foi fornecida, e com seu cabelo negro pintado de loiro, você se apresentaria no banco, teria recebido os papéis do banqueiro, o qual conhecia o Major Morley só intimamente o bastante para ser enganado por sua aparência, e então os papéis cairiam nas mãos do Mestre.

“Tudo o que posso fazer é imaginar sobre o conteúdo daqueles papéis, pois as coisas têm acontecido rápido demais para que eu os solicite e obtenha. Mas devem tratar de assuntos intimamente ligados às atividades de Kathulos. Como ele soube deles e das estipulações da carta que os acompanha, eu não tenho idéia, mas, como eu disse, Londres está coalhada pelos espiões dele.

“Em minha busca por pistas, eu freqüentemente visitava a Limehouse, disfarçado como você primeiramente me viu. Eu ia com freqüência ao Templo dos Sonhos e, mais de uma vez, consegui entrar na sala dos fundos, pois eu suspeitava de algum tipo de encontro combinado nos fundos da construção. A ausência de qualquer porta me frustrava, e eu não tinha tempo para procurar portas secretas antes de ser expulso pelo gigante negro Hassim, o qual não suspeitava de minha verdadeira identidade. Eu percebi o quão freqüentemente o leproso entrava e saía da casa de Yun Shatu, e por fim me veio à mente que, passada uma sombra de dúvida, este suposto leproso era o próprio Escorpião.

“Naquela noite em que você me viu no leito na sala do ópio, eu tinha vindo para cá sem nenhum plano especial em mente. Ao ver Kathulos saindo, decidi me levantar e segui-lo, mas você estragou aquilo”.

Ele dedilhou o queixo e riu sombriamente.

- Eu fui um campeão de boxe amador em Oxford – ele disse –, mas o próprio Tom Cribb não conseguiria resistir àquele golpe... ou desferi-lo.

- Eu me arrependi disso, assim como me arrependi de algumas coisas.

- Não precisa se desculpar. Você salvou minha vida logo depois... eu estava atordoado, mas não tanto para não perceber que aquele demônio marrom chamado Yussef Ali estava ansioso para arrancar meu coração.

- Como você chegou até a propriedade de Sir Haldred Frenton? E por que você não deu batida no antro de Yun Shatu?

- Não dei batida naquele local porque eu sabia que, de alguma forma, Kathulos seria avisado, e nossos esforços se reduziriam a zero. Eu estava na propriedade de Sir Haldred naquela noite, porque eu havia tramado passar pelo menos parte de cada noite com ele, desde quando ele havia retornado do Congo. Previ um atentado contra a vida dele, quando soube, dos seus próprios lábios, que ele estava preparando, com base nos estudos que fizera naquela viagem, um tratado sobre as sociedades secretas nativas da África Ocidental. Ele insinuou que as revelações que pretendia fazer nesse ponto poderiam ser, no mínimo, sensacionais. Vez que é vantagem para Kathulos destruir tais homens capazes de despertar o mundo ocidental para seu perigo, eu sabia que Sir Haldred era um homem marcado. De fato, dois atentados diferentes foram feitos contra sua vida, em sua jornada para a costa, partindo do interior da África. Assim, pus dois homens de confiança de guarda, e eles estão em seus postos agora mesmo.

“Perambulando ao redor da casa às escuras, ouvi o barulho de sua entrada e, avisando meus homens, desci furtivamente para lhe interceptar. Durante nossa conversa, Sir Haldred estava sentado em seu gabinete com as luzes apagadas, um homem da Scotland Yard com pistola pronta a cada lado dele. A vigilância deles sem dúvida explica a falha no atentado de Yussef Ali para aquilo para o qual você foi mandado.

“Algo em seus modos me convenceu, apesar de você”, ele meditou. “Admito que tive alguns maus momentos de dúvida, enquanto eu esperava na escuridão que precede a aurora, no lado de fora do armazém”.

Gordon se levantou subitamente e, dirigindo-se a um cofre num canto da sala, puxou dele um grosso envelope.

- Embora Kathulos tenha me frustrado em quase todos os atos – ele disse –, não fui totalmente inútil. Notando os freqüentadores da casa de Yun Shatu, compilei uma lista parcial dos homens de confiança do egípcio e seus registros. O que você me contou me permitiu completar essa lista. Como sabemos, seus adeptos estão espalhados pelo mundo, e há possivelmente centenas deles aqui em Londres. No entanto, aqui está uma lista daqueles que creio pertencerem ao seu conselho mais próximo, e que agora estão com ele na Inglaterra. Ele mesmo lhe contou que poucos, mesmo entre seus próprios seguidores, já o viram sem máscara.

Nós nos inclinamos sobre a lista, a qual continha os seguintes nomes: “Yun Shatu, chinês de Hong Kong, suspeito de contrabando de ópio, encarregado do Templo dos Sonhos e morador da Limehouse por sete anos. Hassim, ex-chefe senegalês, procurado no Congo Francês por assassinato. Santiago, negro; fugiu do Haiti sob suspeita de atrocidades em culto de vodu. Yar Khan, afridi (6), registro desconhecido. Yussef Ali, mouro, traficante de escravos, suspeito de ter sido um espião dos alemães na Guerra Mundial e um instigador da Rebelião Felá no alto Nilo. Ganra Singh, um sikh de Lahore, Índia, contrabandista de armas no Afeganistão; participou ativamente dos motins em Lahore e Déli, suspeito de assassinato em duas ocasiões – um homem perigoso. Stephen Costigan, americano; mora na Inglaterra desde a guerra; viciado em haxixe, e homem de força extraordinária. Li Kung, do norte da China, contrabandista de ópio”.

As linhas estavam desenhadas de forma significativa em três nomes: o meu, o de Li Kung e o de Yussef Ali. Não havia nada escrito próximo ao meu, mas, após o nome de Li Kung, estava brevemente rabiscado na caligrafia irregular de Gordon: “Baleado por John Gordon, durante o ataque-surpresa à casa de Yun Shatu”. E, seguindo o nome de Yussef Ali: “Morto por Stephen Costigan, durante o ataque a Yun Shatu”.

Eu ri sem alegria. Com império negro ou não, Yussef Ali jamais teria Zuleika nos braços, pois ele nunca havia se erguido de onde eu o derrubei.

- Eu não sei – disse sombriamente Gordon, enquanto dobrava a lista e a colocava de volta ao envelope – que poder Kathulos tem, para unir negros e amarelos a fim de servirem-no... para unir antigos inimigos. Hindus, muçulmanos e pagãos estão entre seus seguidores. E, lá nas névoas do Leste, onde forças misteriosas e gigantescas trabalham, esta união está culminando a uma escala monstruosa.

Ele deu uma olhada no relógio:

- São quase dez. Sinta-se em casa aqui, enquanto eu visito a Scotland Yard e vejo se foi achada alguma pista sobre o novo endereço de Kathulos. Acredito que as redes estejam se fechando sobre ele e, com sua ajuda, prometo que localizaremos a quadrilha dentro de, no máximo, uma semana.


15) A Marca do Tulwar

“O lobo alimentado se enrosca pela sua companheira sonolenta
Numa terra bem trabalhada; mas os lobos magros aguardam”.
(Mundy)


Sentei-me só nos aposentos de John Gordon e ri sem alegria. Apesar do estímulo do elixir, a tensão da noite anterior, com sua falta de sono e suas ações aflitivas, estava surtindo efeito em mim. Minha mente era um redemoinho caótico, onde os rostos de Gordon, Kathulos e Zuleika mudavam de posição com rapidez entorpecente. Toda a quantidade de informações que Gordon havia me dado parecia confusa e incoerente.

Através deste estado em que eu me encontrava, um fato se sobressaía vigorosamente. Eu devia achar o último esconderijo do egípcio e tirar Zuleika de suas mãos – se, de fato, ela ainda estivesse viva.

Uma semana, Gordon havia dito – eu ri novamente –; uma semana, e eu estaria incapaz de ajudar qualquer pessoa. Eu havia achado a quantidade apropriada de elixir para usar... eu sabia a quantidade mínima que meu organismo necessitava – e sabia que conseguiria fazer o frasco durar, no máximo, quatro dias. Quatro dias! Quatro dias para vasculhar os buracos de rato da Limehouse e de Chinatown – quatro dias para desentocar, em algum dos labirintos de East End, o covil de Kathulos.

Eu ardia de impaciência para começar, mas a natureza se rebelou e, cambaleando até uma cama, caí sobre ela e adormeci instantaneamente.

Logo, alguém me sacudia:

- Acorde, Sr. Costigan!

Sentei-me, piscando os olhos. Gordon se erguia próximo a mim, o rosto com expressão desvairada.

- Há trabalho diabólico feito, Costigan! O Escorpião atacou novamente!

Ergui-me de um pulo, ainda meio sonolento e entendendo apenas em parte o que ele estava dizendo. Ele me ajudou a vestir o paletó, pôs meu chapéu em mim, e logo seu aperto forte em meu braço estava me levando para fora da porta e escadaria abaixo. As luzes da rua brilhavam; eu havia dormido durante um tempo incrivelmente longo.

- Uma vítima lógica! – percebi que meu camarada estava dizendo – Ele iria me notificar sobre o instante de sua chegada!

- Não estou entendendo... – comecei a falar atordoado.

Estávamos agora no meio-fio, e Gordon chamou um táxi, dando o endereço de um hotel pequeno e modesto, numa parte sossegada e afetada da cidade.

- O Barão Rokoff – ele disse abruptamente, enquanto avançávamos em velocidade temerária –, um colaborador russo, conectado com o ministério da guerra. Ele retornou da Mongólia ontem, e aparentemente se escondeu. Sem dúvida, ficou sabendo de algo importante sobre o lento despertar do Leste. Ele ainda não havia se comunicado conosco, e eu não sabia que ele estava na Inglaterra até agora há pouco.

- E você soube...

- O barão foi encontrado em seu quarto, seu cadáver mutilado de forma horrenda!

O respeitável e formal hotel, o qual o barão condenado havia escolhido como esconderijo, se encontrava num estado de leve tumulto, dominado pela polícia. A gerência havia tentado manter o assunto em segredo, mas, de alguma forma, os convidados ficaram sabendo da atrocidade, e muitos saíam às pressas – ou prontos para saírem, enquanto a polícia os continha para investigar.

O quarto do barão, o qual ficava no último andar, estava num estado que desafiava descrições. Nem mesmo na Guerra Mundial eu tinha visto tal carnificina. Nada havia sido tocado; tudo continuava como a camareira havia achado meia hora depois. Mesas e cadeiras estavam espatifadas sobre o chão, e a mobília, chão e paredes estavam salpicados de sangue. O barão, um homem alto e musculoso em vida, jazia no meio do quarto, um espetáculo medonho. Seu crânio havia sido partido até as sobrancelhas; um corte profundo, sob sua axila esquerda, lhe havia atravessado as costelas, e seu braço esquerdo estava pendurado por uma tira de carne. O frio rosto barbado estava com uma aparência de horror indescritível.

- Alguma arma pesada e curva deve ter sido usada – disse Gordon –; algo semelhante a um sabre, manejado com força terrível. Veja que um golpe ao acaso afundou bastante no parapeito. Além disso, o encosto desta cadeira grossa foi partido como se fosse uma telha. Um sabre, com certeza.

- Um tulwar. – murmurei sombriamente – Você não reconhece o trabalho do carniceiro da Ásia Central? Yar Khan esteve aqui.

- O afegão! Ele veio pelo teto, é claro, e desceu até o parapeito da janela através de uma corda de nós, amarrada a alguma coisa na beirada do teto. Por volta de 01h30min, a camareira, passando pelo corredor, ouviu um terrível tumulto no quarto do barão: o esmagar de cadeiras, e um súbito guincho curto que morreu abruptamente num gorgolejo medonho e logo parou – até o som de golpe pesados, curiosamente abafados, como os de uma espada quando afunda em carne humana. Então, todos os barulhos pararam abruptamente.

“Ela chamou o gerente, eles forçaram a porta e, encontrando-a trancada e não recebendo resposta aos seus gritos, abriram-na com a chave da escrivaninha. Somente o cadáver estava lá, mas a janela estava aberta. Isto é estranhamente diferente do procedimento usual de Kathulos. Falta sutileza. Suas vítimas freqüentemente pareciam ter morrido de causas naturais. Mal consigo entender”.

- Vejo pouca diferença no resultado. – respondi – Não há nada que possa ser feito para capturar o assassino.

- Verdade. – Gordon franziu a testa – Nós sabemos quem fez isso, mas não há provas... nem mesmo uma impressão digital. Mesmo que soubéssemos onde o afegão está escondido e o prendêssemos, não conseguiríamos provar nada... haveria uns 20 homens para jurarem álibis para ele. O barão só retornou ontem. Kathulos provavelmente não sabia de sua chegada, até esta noite. Ele sabia que, no dia seguinte, Rokoff me informaria de sua presença e me comunicaria o que ele soube no norte da Ásia. O egípcio sabia que deveria atacar logo e, faltando tempo para preparar uma forma mais segura e bem-elaborada de assassinato, ele enviou o afridi com seu tulwar. Não há nada que possamos fazer, pelo menos não até descobrirmos o esconderijo do Escorpião; o que o barão descobriu na Mongólia nós nunca saberemos, mas podemos estar certos de que tem a ver com os planos e aspirações de Kathulos.

Descemos novamente as escadas e saímos à rua, acompanhados por Hansen, um dos homens da Scotland Yard. Gordon sugeriu que andássemos de volta ao seu apartamento, e eu acolhi a oportunidade, para deixar o ar frio da noite apagar algumas das teias de aranha de meu cérebro perplexo.

Enquanto caminhávamos ao longo das ruas abandonadas, Gordon subitamente praguejou de forma selvagem:

- É um verdadeiro labirinto, este que estamos seguindo, e que não leva a lugar algum! Aqui, no próprio coração da metrópole da civilização, o inimigo direto dessa civilização comete crimes da mais abominável natureza e fica livre! Somos crianças, perambulando na noite, engalfinhando-nos com um demônio invisível... lidando com um demônio encarnado, de cuja verdadeira identidade nada sabemos e de cujas verdadeiras ambições só podemos supor.

“Nunca conseguimos deter um dos adeptos mais próximos do egípcio, e suas poucas pessoas ingênuas e ferramentas que capturamos morreram misteriosamente, antes que pudessem nos contar qualquer coisa. Mais uma vez, eu repito: qual o estranho poder que Kathulos tem para dominar estes homens, de diferentes credos e raças? Os homens em Londres com eles são, é claro, a maioria renegados e escravos de drogas, mas seus tentáculos se estendem por todo o Leste. Algum domínio é dele: o poder que mandou o chinês Li Kung de volta para lhe matar, diante da morte certa; que mandou Yar Khan, o muçulmano, para cima dos telhados de Londres para assassinar; que mantém Zuleika, a circassiana, em laços invisíveis de escravidão.

“Claro que sabemos”, ele continuou, após um silêncio meditativo, “que o Leste tem sociedades secretas, as quais estão além e acima de todas as considerações e credos. Há cultos na África e Oriente, cujas origens remontam a Ophir e à queda da Atlântida. Este homem deve ser um poder em algumas, ou possivelmente em todas as sociedades. Ora, além dos judeus, não conheço nenhuma outra raça oriental que seja tão sinceramente menosprezada pelas outras raças do Leste quanto os egípcios! Mas temos aqui um homem, um egípcio como ele mesmo diz, controlando as vidas e destinos de muçulmanos ortodoxos, hindus, xintoístas e adoradores do demônio. Não é natural.

“Você já ouviu falar”, ele se voltou abruptamente para mim, “sobre o oceano, mencionado em conexão com Kathulos?”

- Nunca.

- Há uma superstição muito difundida no norte da África, baseada numa lenda muito antiga, de que o grande líder das raças coloridas sairia do mar! E uma vez, ouvi um berbere falar do Escorpião como “Filho do Oceano”.

- É uma expressão de respeito entre aquela tribo, não?

- Sim; mesmo assim, eu às vezes tenho dúvidas.


16) A Múmia Que Ria

“Rindo como caveiras que jazem espalhadas,
Após batalhas perdidas, viradas para o céu,
Uma risada eterna”.
(Chesterton)


- Uma loja aberta a esta hora tardia. – Gordon comentou subitamente.

Uma neblina havia descido sobre Londres e, ao longo da rua silenciosa que atravessávamos, as luzes brilhavam com a característica bruma avermelhada de tais condições atmosféricas. Nossos passos ecoavam lugubremente. Mesmo no coração de uma grande cidade, sempre há locais que parecem despercebidos e esquecidos. Tal rua era assim. Não havia um policial sequer à vista.

A loja que havia atraído a atenção de Gordon estava bem à nossa frente, no mesmo lado da rua. Não havia anúncio sobre a porta – somente um tipo de emblema, semelhante a um dragão. A luz fluía da porta aberta e das pequenas janelas de exibição a cada lado. Como não era nenhum café-restaurante, nem entrada para um hotel, nos vimos especulando ociosamente sobre o motivo para estar aberta. Normalmente, eu suponho, nenhum de nós pensaria a esse respeito, mas estávamos tão enervados que nos vimos suspeitando instintivamente de qualquer coisa fora do comum. Então, aconteceu algo que era distintamente fora do comum.

Um homem muito alto, muito magro e bastante curvado subitamente avultou para fora da neblina à nossa frente, e além da loja. Só o vi de relance – uma impressão de incrível magreza, de roupas gastas e franzidas, um chapéu alto de seda puxado para perto das sobrancelhas e um rosto totalmente oculto por uma manta; então, ele virou para o lado e adentrou a loja. Um vento frio sussurrava rua abaixo, transformando a névoa em pequenos fantasmas, mas o frio que veio sobre mim transcendia o do vento.

- Gordon! – exclamei numa voz feroz e baixa – Ou meus sentidos não são mais confiáveis, ou o próprio Kathulos acabou de entrar naquela casa!

Os olhos de Gordon arderam. Estávamos agora próximos à loja e, transformando suas passadas numa corrida, ele se lançou para dentro da porta, o detetive e eu bem próximos aos seus calcanhares.

Nós nos deparamos com um estranho sortimento de mercadorias. Armas antigas cobriam as paredes, e o chão estava empilhado de objetos curiosos. Ídolos maoris se amontoavam ao lado de divindades chinesas, e trajes de armadura medieval avultavam obscuramente contra pilhas de raros e pequenos tapetes orientais, bem como xales de feitio latino. O lugar era uma loja de antiguidades. Não vimos sinal da figura que havia despertado nosso interesse.

Um homem idoso, bizarramente vestido em fez (7) vermelho, jaqueta tecida com desenhos em relevos e chinelos turcos, veio dos fundos da loja. Era algum tipo de levantino (Cool.

- Desejam alguma coisa, senhores?

- Aqui fica aberto até bem tarde. – disse abruptamente Gordon, seus olhos percorrendo rapidamente a loja, em busca de algum esconderijo que pudesse ocultar o alvo de nossa busca.

- Sim, senhor. Meus clientes incluem muitos professores e estudantes, que ficam em horários bastante irregulares. Freqüentemente, os botes da noite descarregam peças especiais para mim, e eu muito freqüentemente tenho fregueses mais tarde que agora. Fico aberto a noite inteira, senhor.

- Estamos apenas dando uma olhada. – Gordon respondeu e, virando-se à parte para Hansen: – Vá para os fundos e pare qualquer um que tente abandonar o caminho.

Hansen assentiu e passeou casualmente para os fundos da loja. A porta dos fundos estava claramente visível para nós, embora houvesse uma fileira de mobília antiga e cortinas manchadas sendo exibida. Havíamos seguido o Escorpião – caso fosse ele – tão de perto, que eu não acreditava que ele teria tempo de atravessar toda a distância da loja, e sair sem que o víssemos na hora de entrarmos. Para nossos olhos, havia sido a porta dos fundos, desde que entramos.

Gordon e eu perambulávamos casualmente por entre as raridades, manuseando e discutindo algumas delas, mas não tenho idéia de sua natureza. O levantino havia se sentado de pernas cruzadas numa esteira mourisca, próxima ao centro da loja, e aparentemente assumiu apenas um interesse polido em nossas explorações.

Após algum tempo, Gordon me sussurrou:

- Não é vantagem continuar com esta simulação. Já olhamos para todos os lugares onde o Escorpião possa estar habitualmente escondido. Vou revelar minha identidade e autoridade, e procuraremos abertamente por toda a construção.

Enquanto ele falava, um caminhão parou do lado de fora da porta, e dois negros robustos entraram. O levantino parecia estar esperando por eles, pois ele simplesmente fez um gesto para que se dirigissem aos fundos da loja, e eles responderam com um grunhido de entendimento.

Gordon e eu os observávamos de perto, enquanto se dirigiam a um grande caixão de múmia, o qual estava de pé contra a parede, pouco distante dos fundos. Eles o baixaram a uma posição horizontal, e então se dirigiram à porta, carregando-o cuidadosamente entre eles.

- Parem! – Gordon deu um passo para a frente, erguendo sua mão com autoridade.

“Represento a Scotland Yard”, ele disse rapidamente “e tenho autorização para qualquer coisa que eu queira fazer. Abaixem essa múmia; nada sai desta loja, até termos investigado minuciosamente”.

Os negros obedeceram sem dizer uma palavra, e meu amigo se voltou para o levantino, que, aparentemente imperturbado ou até mesmo desinteressado, se sentava, fumando num bong turco.

- Quem era o homem alto, que entrou logo antes de nós, e para onde ele foi?

- Ninguém entrou antes de você, senhor. Ou, se alguém o fez, eu estava nos fundos da loja e não o vi. Vocês, sem dúvida, têm liberdade para vasculhar minha loja.

E nós vasculhamos, com a astúcia combinada de um especialista de um serviço secreto e de um habitante do submundo... enquanto Hansen permanecia imperturbável em seu posto; os dois negros, que se erguiam sobre o entalhado caixão de múmia, nos olhavam impassivelmente, e o levantino se sentava como uma esfinge sobre sua esteira, soprando uma nuvem de fumaça no ar. Tudo tinha um efeito distinto de irrealidade.

Finalmente, frustrados, retornamos ao caixão de múmia, o qual era certamente longo o bastante para esconder um homem do tamanho de Kathulos. Aquilo não parecia estar selado, como é o costume normal, e Gordon o abriu sem dificuldade. Uma figura sem forma, enfaixada em panos amassados, ficou à mostra. Gordon partiu um dos panos, e revelou uns 2 ou 3 centímetros de braço murcho, pardacento e coriáceo. Ele estremeceu involuntariamente ao tocá-lo, como um homem faria ao toque de um réptil ou de alguma coisa inumanamente fria. Pegando um pequeno ídolo de metal de uma estante próxima, ele bateu no braço e peito enrugados. Ambos soaram um baque sólido, como algum tipo de madeira.

Gordon encolheu os ombros:

- Morto há dois mil anos, de qualquer forma, e não acho que eu me arriscaria a destruir uma múmia valiosa, só para provar que o que sabemos que é verdade.

Ele fechou a caixa novamente:

- A múmia pode ter se deteriorado um pouco, mesmo com esta exposição tão leve, mas talvez não.

Esta última sentença foi dirigida ao levantino, o qual respondeu com um mero e cortês gesticular de sua mão, e os negros mais uma vez ergueram o caixão e o carregaram até o caminhão, dentro do qual eles o colocaram e, no momento seguinte, múmia, caminhão e negros haviam desaparecido na névoa.

Gordon ainda espionava pela loja, mas eu me erguia imóvel no centro do chão. Eu a atribuí ao meu cérebro caótico e dominado pela droga, mas tive a sensação de que, através dos panos no rosto da múmia, olhos grandes haviam brilhado para os meus; olhos semelhantes a poços de fogo amarelo, que me queimavam a alma e congelavam-me onde eu estava. E, quando o caixão estava sendo carregado através da porta, eu sabia que a coisa sem vida dentro dele, morta sabe Deus há quando séculos, estava rindo horrenda e silenciosamente.

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Re: Contos de Howard - Rosto de Caveira (Originalmente publicado em Weird Tales 1929).

Mensagem por Rogerio Rocha em Ter Jan 10, 2012 9:10 pm

17) O Homem Morto do Mar

“Os deuses cegos rugem, deliram e sonham
Com todas as cidades sob o mar”.
(Chesterton)


Gordon soltou uma baforada feroz de seu cigarro turco, encarando distraída e despercebidamente Hansen, que se sentava no lado oposto a ele.

- Suponho que devamos anotar outro fracasso contra nós mesmos. Aquele levantino, Kamonos, é evidentemente um instrumento do egípcio, e as paredes e pisos de sua loja estão provavelmente cheias de painéis e portas secretas, capazes de burlar um mágico.

Hansen respondeu alguma coisa, mas não falei nada. Desde nosso retorno ao apartamento de Gordon, eu estava consciente de uma sensação de intensa languidez e indolência, à qual nem mesmo minha condição conseguiria explicar. Eu sabia que meu organismo estava cheio de elixir... mas minha mente parecia estranhamente lenta e com dificuldade de compreensão, em contraste direto com o estado normal de minha mentalidade quando estimulada pela droga infernal.

Esta condição estava me abandonando lentamente, e eu me senti como se estivesse acordando gradualmente de um sono longo e artificialmente sadio.

Gordon dizia:

- Eu daria muito para saber se Kamonos é realmente um dos escravos de Kathulos, ou se o Escorpião conseguiu escapar através de alguma saída natural quando entramos.

- Kamonos é quase certamente servo dele. – eu me vi dizendo lentamente, como se procurando as palavras corretas – Quando saímos, vi o olhar dele brilhar sobre o escorpião que está desenhado em minha mão. Os olhos dele se estreitaram e, quando estávamos saindo, ele conseguiu encostar-se a mim... e sussurrar numa voz rápida e baixa: “Soho 48”.

Gordon ficou ereto como um arco de aço desprendido.

- Deveras! – ele disse bruscamente – Por que não me contou naquela hora?

- Não sei.

Meu amigo me observou intensamente.

- Percebi que você parecia um homem intoxicado durante todo o caminho desde a loja. – ele disse – Eu o atribuí a algum efeito colateral do haxixe. Mas não. Kathulos é, sem dúvida, um discípulo poderoso de Mesmer (9)... seu poder sobre répteis venenosos mostra isso, e estou começando a acreditar que essa seja a verdadeira fonte de seu poder sobre os humanos.

“De alguma forma, o Mestre lhe pegou desprevenido naquela loja e manteve parcialmente o domínio dele sobre sua mente. De qual canto escondido ele enviou as ondas mentais dele para lhe despedaçar o cérebro, eu não sei, mas Kathulos estava em algum lugar daquela loja, eu tenho certeza”.

- Ele estava. Estava no caixão de múmia.

- O caixão de múmia! – Gordon exclamou, um tanto impaciente – Isso é impossível! A múmia o preenchia completamente, e nem sequer uma coisa tão magra quanto o Mestre conseguiria achar lugar ali.

Encolhi meus ombros, incapaz de argumentar sobre esse detalhe, mas, de alguma forma, convicto da verdade de minha afirmação.

- Kamonos – Gordon prosseguiu – certamente não é um membro do círculo interno, e não sabe de sua mudança de lealdade. Ao ver a marca do escorpião, ele sem dúvida achou que você fosse um espião do Mestre. Tudo pode ser uma tramóia para nos pegarem, mas tenho a sensação de que o homem foi sincero... Soho 48 pode ser nada menos que o novo ponto de encontro do Escorpião.

Eu também achei que Gordon estava certo, embora uma suspeita se escondesse em minha mente.

- Peguei os papéis do Major Morley ontem – ele continuou – e, enquanto você dormia, eu os reli. A maioria deles só fez confirmar o que eu já sabia... falou da inquietação dos nativos, e repetiu a teoria de que havia um enorme gênio por trás de tudo. Mas havia outro assunto que me interessou grandemente, e o qual eu acho que irá lhe interessar também.

De seu cofre, ele tirou um manuscrito, escrito na caligrafia compacta e bem-feita do infeliz major, e, numa voz monótona, a qual delatava pouco de sua intensa agitação, ele leu a seguinte narrativa de pesadelo:

- Este assunto eu considero digno de nota... se tiver algum sentido no caso à mão, novos acontecimentos irão mostrar. Em Alexandria, onde passei algumas semanas procurando outras pistas para a identidade do homem conhecido como o Escorpião, fiquei informado, através de meu amigo Ahmed Shah, sobre o notável professor de Egiptologia Ezra Shuyler, de Nova Iorque. Ele verificou a afirmação, feita por vários leigos, sobre a lenda do “homem-oceano”. Este mito, passado de geração a geração, remete às próprias brumas da antiguidade e é, em poucas palavras, a história de que, um dia, um homem virá do mar e liderará o povo do Egito para triunfar. Esta lenda se espalhou pelo continente, de modo que agora todas as raças negras acham que ela se aplica à chegada de um imperador universal. O professor Shuyler opinou que o mito estava, de alguma forma, conectado com a perdida Atlântida, a qual, ele sustenta, se localizava entre o continente africano e sul-americano, e para cujos habitantes os ancestrais dos egípcios eram tributários. Os motivos para sua conexão são muito prolixos e vagos para se anotar aqui, mas, seguindo a linha de sua teoria, ele me contou uma história estranha e fantástica. Disse que um amigo próximo dele, Von Lorfman da Alemanha, um tipo de cientista independente, agora falecido, estava navegando na costa do Senegal alguns anos atrás, com o objetivo de investigar e classificar as raras espécies de vida marinha encontradas lá. Estava usando, para seu propósito, um pequeno navio de viagem, equipado por uma tripulação de mouros, gregos e negros.

“A alguns dias de distância da terra, algo foi avistado boiando; e este objeto, fisgado e trazido à bordo, provou ser um caixão de múmia do tipo mais curioso. O professor Schuyler me explicou que o aspecto diferia do estilo egípcio comum, mas de seu relato técnico, eu simplesmente tive a impressão de que era uma forma estranhamente esculpida com caracteres que não eram cuneiformes nem hieroglíficos. A caixa estava bastante envernizada, impermeável e hermeticamente fechada, e Von Lorfmon teve dificuldade considerável em abri-la. Contudo, ele conseguiu fazê-lo sem danificar a caixa, e uma múmia bastante incomum foi revelada. Schuyler disse que nunca vira a múmia ou caixão, mas que, pelas descrições dadas a ele pelo comandante grego que estava presente durante a abertura do caixão, a múmia diferia tanto do homem comum quanto o caixão do tipo convencional.

“Exames provaram que o morto não foi submetido ao procedimento usual de mumificação. Todas as partes estavam intactas exatamente como em vida, mas a forma inteira estava encolhida e endurecida como se fosse de madeira. Os panos que enfaixavam a coisa viraram pó e se dissiparam no instante em que o ar caiu sobre ela.

“Von Lorfmon ficou impressionado com o efeito sobre a tripulação. Os gregos não demonstraram interesse algum, além do que seria normalmente demonstrado por qualquer homem, mas os mouros, e mais ainda os negros, pareciam ter ficado súbita e temporariamente insanos! Enquanto a caixa era içada à bordo, todos eles caíram prostrados no convés e entoaram um tipo de canto de adoração, e foi necessário usar a força para tirá-los da cabine onde a múmia estava exposta. Várias brigas começaram entre eles e o elemento grego da tripulação, e o comandante e Von Lorfmon acharam melhor colocá-la, a toda pressa, no porto mais próximo. O comandante atribuiu isso à aversão natural de marinheiros com relação à presença de um cadáver a bordo, mas Von Lorfmon parecia perceber um significado mais profundo.

“Ancoraram em Lagos e, naquela mesma noite, Von Lorfmon foi assassinado em sua cabine, e a múmia e seu caixão desapareceram. Todos os marinheiros mouros e negros abandonaram o navio na mesma noite. Schuyler disse – e aqui o assunto adquiriu um aspecto mais sinistro e misterioso – que, imediatamente após isto, a vasta agitação entre os nativos começou a arder e adquirir forma tangível; ele a conectou, de alguma forma, com a velha lenda.

“Além disso, uma aura de mistério pairou sobre a morte de Von Lorfmon. Ele havia levado a múmia para a sua cabine e, prevendo um ataque da tripulação fanática, ele cuidadosamente gradeou e trancou a porta e vigias. O comandante, um homem confiável, jurou que era virtualmente impossível entrar lá. E os sinais apontaram para o fato de que as trancas foram manipuladas por dentro. O cientista foi morto por uma adaga que fazia parte de sua coleção, e que lhe foi enfiada no peito.

“Como eu já havia dito, imediatamente após, o caldeirão africano começou a ferver. Schuyler disse que, em sua opinião, os nativos consideraram a antiga profecia realizada. A múmia era o homem do mar.

“Schuyler opinou que a coisa era trabalho de atlantes, e que o homem no caixão de múmia era um nativo da perdida Atlântida. Como o caixão chegou a flutuar através das braças de água que cobrem a terra esquecida, ele não se aventura a propor uma teoria. Ele está certo de que, em algum lugar dos labirintos dominados por fantasmas das selvas africanas, a múmia havia sido entronizada como um deus e, inspirados pela coisa morta, os guerreiros negros estão se reunindo para um massacre indiscriminado. Ele também acredita que algum muçulmano astuto seja o poder direto que move a ameaça de rebelião”.

Gordon parou e olhou para mim.

- As múmias parecem compor uma dança bizarra através do desenrolar da história. – ele disse – O cientista alemão tirou várias fotos da múmia com sua câmera, e foi após vê-las... e elas muito estranhamente não foram roubadas junto com a coisa... que o Major Morley começou a se imaginar na beirada de alguma descoberta monstruosa. Seu diário reflete o estado de seu pensamento, e se torna incoerente... sua condição parece ter chegado às raias da loucura. O que ele soube para desequilibrá-lo assim?

- Essas fotos... – comecei a falar.

- Elas caíram nas mãos de Schuyler, e ele deu uma para Morley. Achei uma entre os manuscritos.

Ele a entregou para mim, observando-me atentamente. Olhei fixamente, e logo me ergui vacilante e servi a mim mesmo um copo de vinho.

- Não é um ídolo morto numa cabana vodu – eu disse debilmente –, mas um monstro animado por vida medonha, percorrendo o mundo em busca de vítimas. Morley viu o Mestre... é por isso que o cérebro dele se destruiu. Gordon, tão certo quanto eu espero viver novamente, este rosto é o de Kathulos!

Gordon me encarou sem palavras.

- A mão do Mestre, Gordon. – eu ri. Certo prazer sombrio penetrou as brumas de meu horror, ao ver o inglês de nervos de aço sem palavras, sem dúvida pela primeira vez em sua vida.

Ele umedeceu os lábios, e falou numa voz mal-reconhecível:

- Então, em nome de Deus, Costigan, nada é estável nem certo, e a humanidade vacila na beira de abismos incalculáveis de horror sem nome. Se aquele monstro morto, achado por Von Lorfmon, for de fato o Escorpião trazido à vida de alguma forma hedionda, o que o esforço dos mortais pode fazer contra ele?

- A múmia, na loja de Kamonos... – comecei a falar.

- Sim, o homem cuja carne, endurecida por mil anos de inexistência... deve ser o próprio Kathulos! Ele teve tempo de se despir, se envolver nos tecidos brancos e entrar no caixão, antes que chegássemos. Você se lembra que o caixão, encostado em pé contra a parede, estava parcialmente oculto por um grande ídolo birmanês, o qual cobriu nossa visão, e sem dúvida deu a ele tempo para realizar seu propósito. Meu Deus, Costigan, com qual horror do mundo pré-histórico estamos lidando?

- Já ouvi falar em faquires hindus que conseguiam produzir uma sensação que quase lembrava a morte. – comecei – Não é possível que Kathulos, um oriental sagaz e astuto, pudesse se colocar neste estado, e seus seguidores tenham colocado o caixão no oceano onde era certo ser encontrado? E ele não poderia estar naquela forma esta noite, na loja de Kamonos?

Gordon sacudiu sua cabeça:

- Não, eu já vi esses faquires. Nenhum deles jamais fingiu estar morto a ponto de ficar enrugado e duro... seco, numa só palavra. Morley, ao narrar em um outro local a descrição do caixão de múmia como anotada por Von Lorfmon e passada para Schuyler, menciona o fato de que grandes porções de algas marinhas se aderirem a ele... algas de um tipo encontrado apenas em grandes profundezas, no fundo do oceano. A madeira também era de um tipo o qual Von Lorfmon falhou em reconhecer ou classificar, apesar do fato de que ele era uma das maiores autoridades vivas em flora. E suas anotações enfatizam, repetidas vezes, a idade enorme da coisa. Ele admitiu que não havia meio de dizer qual a idade da múmia, mas suas insinuações sugeriam que ele acreditava que ela tivesse, não milhares de anos, mas milhões de anos!

“Não. Temos que encarar os fatos. Uma vez que você é categórico de que a foto da múmia é de Kathulos – e há pouco espaço para fraude –, uma das duas coisas é praticamente certa: o Escorpião nunca esteve morto, mas, eras atrás, ele foi colocado no caixão de múmia e teve sua vida preservada de alguma forma; ou então... ele estava morto e foi ressuscitado! Ambas as teorias, vistas à luz fria da razão, são absolutamente insustentáveis. Será que estamos todos loucos?”

- Se você tivesse andado na estrada para a terra do haxixe – eu disse sombriamente –, você conseguiria acreditar que qualquer coisa é verdade. Se você tivesse olhado fixamente dentro dos olhos do feiticeiro Kathulos, não duvidaria que ele estivesse ao mesmo tempo morto e vivo.

Gordon olhou para fora da janela, seu delicado rosto desvairado à luz cinza, a qual começava a surgir furtivamente.

- De qualquer modo – ele disse –, há dois lugares que eu pretendo explorar minuciosamente, antes do sol se erguer outra vez: a loja de antiguidades de Kamonos e Soho 48.


18) O Aperto do Escorpião

“Embora desde uma torre orgulhosa na cidade,
A morte olhe gigantescamente para baixo”.
(Poe)


Hansen roncava na cama, enquanto eu andava pela sala. Mais um dia havia se passado em Londres, e novamente as lâmpadas da rua luziam através da bruma. Suas luzes me afetavam estranhamente. Pareciam bater ondas sólidas de energia contra meu cérebro. Elas torciam a névoa em estranhas formas sinistras. No palco que são as ruas de Londres, quantas cenas pavorosas elas haviam iluminado? Pressionei fortemente minhas mãos contra minhas têmporas latejantes, esforçando-me para trazer meus pensamentos de volta do labirinto caótico onde eles perambulavam.

Eu não via Gordon desde o amanhecer. Seguindo a pista de “Soho 48”, ele havia partido para preparar um ataque-surpresa no local, e achou melhor que eu permanecesse abrigado. Ele receava um atentado contra minha vida, e novamente temia que, se eu saísse procurando por entre os antros que freqüentei anteriormente, isso despertasse suspeita.

Hansen continuava roncando. Eu me sentei e comecei a examinar os sapatos turcos que calçavam meus pés. Zuleika usava chinelos turcos – como ela flutuava através de meus devaneios, dourando coisas insípidas com seu encanto! Seu rosto sorria para mim, desde a bruma; seus olhos brilhavam das lâmpadas tremulantes; seus passos ilusórios ressoavam pelas salas nebulosas de meu crânio.

Batiam um rufar incessante, seduzindo e assombrando, até parecer que estes ecos encontravam ecos no saguão fora do quarto onde eu me encontrava, de forma suave e furtiva. Uma súbita batida na porta, e eu me sobressaltei.

Hansen continuava dormindo, quando atravessei a sala e abri rápida e bruscamente a porta. Um feixe rodopiante de névoa havia invadido o corredor, e através dele, como um véu de prata, eu a vi: Zuleika estava diante de mim, com seu cabelo reluzente, seus lábios vermelhos entreabertos e seus grandes olhos escuros.

Fiquei como um idiota sem fala, ela olhou rapidamente para o saguão, e então entrou e fechou a porta.

- Gordon! – ela sussurrou numa meia-voz trêmula de emoção – Seu amigo! O Escorpião o capturou!

Hansen havia acordado e agora se sentava, estupidamente boquiaberto diante da estranha cena com a qual se deparava.

Zuleika não deu atenção.

- E... oh, Steephen! – ela exclamou, e lágrimas lhe brilharam nos olhos – Tentei tão duramente obter mais elixir, mas não consegui.

- Isso não tem importância. – finalmente encontrei minha fala – Conte-me sobre Gordon.

- Ele voltou sozinho à loja de Kamonos; Hassim e Ganra Singh o capturaram e levaram à casa do Mestre. Esta noite se reúne uma grande multidão do povo do Escorpião para o sacrifício.

- Sacrifício! – uma onda medonha de aversão desceu por minha espinha. Será que não havia limite para os horrores disto? – Rápido, Zuleika, onde fica esta casa do Mestre?

- Soho, 48. Você deve chamar a polícia e mandar vários homens para cercá-la, mas não deve ir só...

Hansen se ergueu de um pulo, palpitando por ação, mas me dirigi a ele. Meu cérebro agora estava claro, ou parecia estar, e funcionando de forma rápida e não-natural.

- Espere! – dirigi-me novamente a Zuleika – Quando este sacrifício vai acontecer?

- Ao erguer da lua.

- Apenas algumas horas antes da aurora. Tempo suficiente para salvá-lo, mas se atacarmos a casa, eles o matarão antes que possamos alcançá-los. E só Deus sabe quantas coisas diabólicas cada caminho de acesso guarda.

- Realmente não sei. – Zuleika choramingou – Tenho que ir agora, senão o Mestre me mata.

Alguma coisa cedeu em meu cérebro diante daquilo; algo como uma inundação de selvagem e terrível exultação caiu sobre mim.

- O Mestre não matará ninguém! – gritei, lançando meus braços para o alto – Antes mesmo que o leste se avermelhe com a aurora, o Mestre morrerá! Por todas as coisas sagradas e profanas, eu juro!

Hansen me encarava desvairadamente, e Zuleika recuou quando me virei para ela. Ao meu cérebro inspirado pela droga, veio uma súbita explosão de luz, verdadeira e infalível. Eu sabia que Kathulos era um hipnotizador – portanto, ele conhecia totalmente o segredo de dominar a mente e alma do outro. E percebi que eu finalmente havia descoberto a razão de seu poder sobre a jovem. Mesmerismo! Assim como uma cobra fascina e atrai um pássaro até ela, assim o Mestre dominava Zuleika com grilhões invisíveis. Seu poder sobre ela era tão absoluto, que ele a dominava mesmo quando ela estava fora de sua visão, trabalhando a grandes distâncias.

Só havia uma única coisa que poderia quebrar esse domínio: o poder magnético de alguma outra pessoa, cujo controle fosse mais forte nela que o de Kathulos. Coloquei minhas mãos sobre seus ombros esguios e pequenos, e fiz com que ela me encarasse.

- Zuleika – eu disse, de forma imponente –, aqui você está segura; você não retornará para Kathulos. Não há necessidade disso. Agora você está livre.

Mas percebi que eu havia falhado, antes mesmo de começar. Seus olhos tinham uma expressão de medo pasmado e irracional, e ela se torcia timidamente em minhas mãos.

- Steephen, por favor, deixe-me ir! – ela implorou – Eu preciso... eu devo!

Eu a puxei para perto da cama e pedi a Hansen por suas algemas. Ele as deu para mim, interrogativo, e prendi um elo à coluna da cama, e o outro ao pulso esguio dela. A garota choramingou, mas não ofereceu resistência, seus olhos límpidos procurando os meus em apelo mudo.

Partia meu coração impor minha vontade sobre ela desta forma aparentemente brutal, mas eu me endureci.

- Zuleika – eu disse com ternura –, você agora é minha prisioneira. O Escorpião não pode lhe condenar por não voltar para ele, quando você é incapaz de fazê-lo... e, antes do amanhecer, você estará completamente livre do domínio dele.

Eu me voltei para Hansen, e falei num tom que não admitia contra-argumentação:

- Fique aqui, do lado de fora da porta, até eu retornar. Não permita a entrada de estranhos sob hipótese alguma... ou seja, a de qualquer um que você não conheça pessoalmente. E eu lhe encarrego, por sua honra de homem, a não libertar a garota, não importa o que ela diga. Se nem eu nem Gordon retornarmos amanhã às dez, leve-a para este endereço... essa família já foi amiga da minha, e cuidará de uma jovem sem lar. Estou indo para a Scotland Yard.

- Steephen – Zuleika chorou –, você está indo para o covil do Mestre! Você será morto! Mande a polícia, não vá!

Eu me curvei, puxei-a para dentro de meus braços, senti seus lábios contra os meus, e então me afastei bruscamente.

A névoa me puxava com dedos fantasmagóricos, fria como as mãos de homens mortos, enquanto eu corria rua abaixo. Eu não tinha planos, mas um estava se formando em minha mente, começando a fervilhar no caldeirão estimulado que era meu cérebro. Parei ao ver um policial fazendo sua ronda e, acenando para ele, rabisquei um bilhete conciso, arrancado de um caderno de notas, e entreguei a ele.

- Leve isto para a Scotland Yard; é um assunto de vida ou morte, e tem a ver com os negócios de John Gordon.

Diante daquele nome, uma mão enluvada se ergueu em consentimento, mas sua garantia de pressa desapareceu atrás de mim enquanto eu voltava à minha corrida. O bilhete relatava brevemente que Gordon era um prisioneiro em Soho 48, e recomendava uma imediata batida policial em grande número – recomendava, não; em nome de Gordon, ordenava.

O motivo para minhas ações era simples: eu sabia que o primeiro barulho da incursão selaria o destino de Gordon. De alguma forma, eu primeiramente devia alcançá-lo e o proteger ou libertar, antes que a polícia chegasse.

O tempo parecia sem fim, mas finalmente os contornos sombrios da casa que era Soho 48 se ergueram diante de mim – um fantasma gigante na bruma. Era bastante tarde; poucas pessoas se aventuravam nas névoas e umidade, quando parei na rua, diante desta construção proibida. Nenhuma luz aparecia das janelas, tanto no andar de cima quanto no de baixo. Parecia abandonada. Mas o covil do escorpião freqüentemente parece abandonado, até a morte silenciosa atacar subitamente.

Parei aqui, e um pensamento feroz me ocorreu. De uma forma ou de outra, o drama acabaria antes do amanhecer. Esta noite era o clímax de minha carreira, o topo supremo da vida. Esta noite, eu era o elo mais forte da estranha corrente de eventos. Amanhã não teria importância se eu vivi ou morri. Puxei o frasco de elixir de meu bolso e olhei para ele. Suficiente para dois dias, se devidamente economizado. Mais dois dias de vida! Ou... Eu precisava de estímulo como nunca precisei antes; a tarefa à minha frente era algo que nenhum humano simples teria esperança de executar. Se eu bebesse todo o restante, não teria idéia da duração de seu efeito, mas duraria por toda a noite. E minhas pernas estavam fracas; minha mente tinha estranhas fases de vazio total; a fraqueza do cérebro e corpo me atacava. Ergui o frasco e, num só gole, bebi seu conteúdo.

Por um instante, pensei que eu estivesse morto. Eu nunca havia tomado tal quantidade.

O céu e o mundo oscilaram, e eu me senti como se fosse voar em um milhão de fragmentos palpitantes, como a explosão de um globo de aço quebradiço. Como fogo, como o fogo do inferno, o elixir corria em minhas veias, e eu era um gigante! Um monstro! Um super-homem!

Girando, andei a passos largos até a portada ameaçadora e sombria. Eu não tinha planos; não sentia necessidade de nenhum. Assim como um bêbado anda alegremente em direção ao perigo, eu caminhava até o covil do Escorpião, magnificamente consciente de minha superioridade, esplendidamente confiante em meu estímulo e tão certo quanto as estrelas imutáveis de que o caminho se abriria diante de mim.

Ah, nunca houve um super-homem como aquele que bateu de forma imponente à porta de Soho 48, naquela noite de chuva e bruma!

Bati quatro vezes – o velho sinal que nós, escravos, usávamos para sermos admitidos na sala do ídolo de Yun Shatu. Uma portinhola se abriu no centro da porta, e olhos oblíquos miraram desconfiados para fora. Eles se arregalaram levemente, quando o dono deles me reconheceu, e logo se estreitaram perversamente.

- Idiota! – eu disse furioso – Não está vendo a marca?

Ergui minha mão até a portinhola:

- Não me reconhece? Deixe-me entrar, maldito.

Acho que a própria audácia do artifício obteve seu sucesso. Certamente, todos os escravos do Escorpião agora sabiam da rebelião de Stephen Costigan e sabiam que ele estava marcado para morrer. E o próprio fato de eu ter ido para lá, atraindo a condenação, confundiu o porteiro.

A porta foi aberta e entrei. O homem que me deixara entrar era um chinês alto e magro, ao qual eu havia conhecido como um servo de Kathulos. Ele fechou a porta atrás de mim, e vi que estávamos numa espécie de vestíbulo, iluminado por uma lâmpada fosca, cujo brilho não se via desde a rua, pois as janelas estavam densamente encortinadas. O chinês me olhava feroz e indecisamente. Eu o olhava, tenso. Então, a suspeita luziu em seus olhos, e sua mão deslizou velozmente até sua manga. Mas, imediatamente, eu estava sobre ele, e seu pescoço magro se quebrou como um galho podre entre minhas mãos.

Deixei o cadáver cair ao chão densamente atapetado e agucei os ouvidos. Nenhum som quebrava o silêncio. Caminhando tão furtivamente quanto um lobo, os dedos estendidos como garras, deslizei até a próxima sala. Esta se encontrava mobiliada em estilo oriental, com leitos, pequenos tapetes felpudos e cortinas trabalhadas a ouro, mas não tinha ninguém. Eu a atravessei e adentrei a próxima. A luz fluía suavemente dos turíbulos que pendiam do teto, e os pequenos tapetes orientais amorteciam o som de meus passos; eu parecia me mover através de um castelo de bruxaria.

A cada movimento, eu esperava uma investida de assassinos silenciosos, saídos das portas, ou de trás das cortinas ou biombos com seus dragões contorcidos. Reinava o silêncio total. Explorei sala após sala, e finalmente parei ao pé da escadaria. O inevitável turíbulo lançava uma luz incerta, mas muitas das escadas estavam veladas por sombras. Quais os horrores que me aguardavam no alto?

Mas o medo e o elixir são estranhos um ao outro, e subi a escadaria de terror oculto tão audaciosamente quanto eu havia adentrado aquela casa de terror. As salas do andar superior, eu percebi, pareciam muito com as do inferior e, com estas, tinham algo de comum: não tinham ninguém. Procurei por um sótão, mas não parecia haver uma porta que me levasse até um. Voltando ao térreo, procurei por uma entrada no porão, mas meus esforços foram novamente inúteis. A espantosa verdade caiu sobre mim: exceto por mim mesmo e o morto que jazia esparramado no vestíbulo externo, não havia ninguém naquela casa, vivo ou morto.

Eu não conseguia entender. Se a casa estivesse desprovida de mobília, eu chegaria à conclusão natural de que Kathulos havia fugido – mas não me deparei com sinais de fuga. Isto não era natural, e era misterioso. Eu estava na grande biblioteca sombria, e ponderava. Não, eu não me enganei sobre a casa. Mesmo que o cadáver quebrado no vestíbulo não estivesse lá para fornecer mudo testemunho, tudo na sala apontava para a presença do Mestre. Havia palmeiras artificiais, os biombos envernizados, as tapeçarias e até mesmo o ídolo – embora nenhuma fumaça de incenso subisse diante dele. Ao redor das paredes, se enfileiravam longas prateleiras de livros, encadernados em feitio estranho e caro... livros em todas as línguas do mundo, percebi após um rápido exame, e sobre todos os assuntos – muitos deles bizarros.

Lembrando-me da passagem secreta no Templo dos Sonhos, investiguei a pesada mesa de mogno no centro da sala. Mas não houve resultado algum. Um súbito arroubo de fúria se ergueu em mim, primitivo e irracional. Agarrei uma estatueta da mesa e a lancei contra a parede coberta por estantes. O barulho do seu quebrar certamente tiraria a quadrilha de seu esconderijo. Mas o resultado foi muito mais surpreendente.

A estatueta bateu na beirada de uma prateleira e, instantaneamente, toda uma seção de estantes girou silenciosamente para fora, revelando uma porta estreita! Como na outra porta secreta, uma série de degraus guiava para baixo. Em outros tempos, eu estremeceria ao pensamento de descer, com os horrores do outro túnel ainda recentes em meu pensamento, mas, inflamado como eu estava pelo elixir, caminhei para a frente sem qualquer hesitação instantânea.

Vez que não havia ninguém na casa, eles deveriam estar em algum lugar do túnel, ou em qualquer covil para onde o túnel guiasse. Atravessei a portada, deixando a porta aberta; a polícia poderia encontrá-la daquele jeito e me seguir, embora de alguma forma eu sentisse como se eu fosse agir sozinho do começo até o final sombrio.

Desci a uma distância considerável, e logo a escadaria saiu num corredor plano de uns 6 metros de largura – algo extraordinário. Apesar da largura, o teto era um pouco baixo e dele pendiam pequenas lâmpadas de feitio curioso, as quais lançavam uma luz fosca. Caminhei rapidamente pelo corredor, como se eu fosse a velha Morte procurando vítimas e, enquanto avançava, percebi o feitio da coisa. O chão era feito de grandes e largas lajes, e as paredes pareciam ser de enormes blocos de pedras encaixadas uniformemente. Esta passagem claramente não era trabalho de dias modernos; os escravos de Kathulos nunca abriram túnel aqui. Alguma passagem secreta de tempos medievais, eu pensei... e afinal, quem sabe quais catacumbas ficam sob Londres, cujos segredos são maiores e mais obscuros que os da Babilônia e Roma?

Continuei avançando, e agora eu sabia que deveria estar bem abaixo da terra. O ar estava úmido e pesado, e umidade fria pingava das pedras das paredes e teto. De vez em quando, eu via pequenas passagens que guiavam para a escuridão, mas me determinei a continuar no caminho principal e mais largo.

Uma impaciência feroz tomava conta de mim. Eu parecia estar caminhando há horas, e mesmo assim, eu só via paredes úmidas, lajes nuas e velas pingando. Olhei com atenção, em busca de baús de aparência sinistra, ou coisa parecida – não vi tais coisas.

Quando eu estava prestes a explodir em pragas selvagens, outra escadaria avultou nas sombras à minha frente.


19) Fúria Escura

“O lobo cercado olhou o círculo ao seu redor
Através de olhos malignos e acesos,
Sem esquecer sua dívida.
Ele disse: ‘Ainda farei algum estrago
Antes que chegue minha hora de morrer’”.
(Mundy)


Como um lobo magro, deslizei escadaria acima. Uns seis metros acima, havia uma espécie de patamar do qual divergiam outros corredores, bem semelhante ao mais baixo, do qual eu viera. Veio-me o pensamento de que a terra sob Londres deveria ser esburacada com tais passagens secretas, uma sobre a outra.

Um pouco acima deste patamar, os degraus paravam numa porta, e aqui eu hesitei, incerto se eu deveria bater nela ou não. Enquanto eu refletia, a porta começou a abrir. Recuei contra a parede, achatando-me o máximo possível. A porta se escancarou, e um mouro a atravessou. Só tive um vislumbre da sala após ela, com o canto do olho, mas meus sentidos artificialmente alertas registraram o fato de que a sala estava vazia.

E, no instante seguinte, antes que ele pudesse girar, acertei no mouro um único e mortífero golpe, atrás do canto de seu maxilar, e ele caiu de ponta-cabeça escadaria abaixo, para jazer como uma pilha amarrotada no patamar, seus membros revolvidos grotescamente ao redor.

Minha mão esquerda agarrou a porta, quando esta começou a se fechar e, num instante eu a atravessei e estava na sala após ela. Como eu havia pensado, não havia ocupante nesta sala. Eu a atravessei rapidamente e adentrei a próxima. Estas salas eram mobiliadas de uma forma que tornaria insignificantes as mobílias da casa de Soho. Bárbaras, terríveis, profanas... estas simples palavras transmitem uma vaga idéia das visões medonhas com as quais me deparei. Caveiras, ossos e esqueletos completos formavam boa parte das decorações, se é que eram. Múmias olhavam esquivamente desde seus caixões, e répteis dissecados se enfileiravam nas paredes. Entre estas relíquias sinistras, pendiam escudos africanos de couro e bambu, cruzados por azagaias e adagas de guerra. Aqui e ali se erguiam ídolos obscenos, negros e horríveis.

E, tanto no meio quanto espalhados ao redor destas evidências de selvageria e barbarismo, havia vasos, biombos, carpetes felpudos e cortinas do mais alto acabamento oriental; um efeito estranho e incongruente.

Eu havia atravessado duas ou três destas salas, sem ver nenhum ser humano, quando cheguei até uma escadaria que guiava para o alto. Eu a subi rapidamente, até alcançar uma entrada num teto. Eu me perguntava se eu ainda estava sob a terra. Certamente, as primeiras escadas haviam entrado num tipo de casa. Ergui a abertura cautelosamente. Deparei-me com a luz das estrelas e me icei cautelosamente para fora. Parei ali. Um largo teto plano se estendia por todos os lados e, além de sua borda, em todos os lados se vislumbravam as luzes de Londres. Em qual construção eu estava, eu não tinha idéia, mas eu poderia dizer que era alta, pois eu parecia estar acima da maioria das luzes que via. Então, vi que não estava só.

Acima das sombras da saliência que corria ao redor da beirada do teto, uma grande forma ameaçadora avultou à luz das estrelas. Um par de olhos brilhou para mim, com uma luz que não era totalmente sã; a luz das estrelas deu um brilho prateado a um comprimento curvo de aço. Yar Khan, o assassino afegão, me encarava nas sombras silenciosas.

Uma exultação feroz e selvagem se ergueu em mim. Agora eu poderia pagar a dívida que eu tinha com Kathulos e todo o seu bando infernal! A droga incendiava minhas veias, e enviava ondas de força inumana e fúria negra através de mim. Com um pulo, eu estava de pé, numa investida silenciosa e mortal.

Yar Khan era um gigante, mais alto e volumoso que eu. Ele segurava um tulwar e, desde o instante em que eu o vi, percebi que ele estava cheio da droga com a qual estava viciado: heroína.

Quando me aproximei, ele girou sua arma pesada no alto, mas antes que ele pudesse atacar, agarrei seu punho da espada num aperto de ferro e, com minha mão livre, lhe acertei golpes esmagadores em seu diafragma.

Daquela luta hedionda, executada em silêncio, lembro-me de pouca coisa. Eu me lembro de tombar para trás e para frente, apertado num abraço mortal. Lembro-me da barba crespa raspando minha pele, enquanto seus olhos incendiados pela droga fitavam selvagemente os meus. Lembro-me do gosto de sangue quente em minha boca, do travo de temível exultação em minha alma, da investida e agitação de força e fúria inumanas.

Deus, que visão para um olho humano, se alguém estivesse olhando para aquele teto sombrio, onde dois leopardos humanos drogados despedaçavam um ao outro!

Eu me lembro de seu braço quebrando como madeira podre em meu aperto, e o tulwar caindo de sua mão inutilizada. Dificultado por um braço quebrado, o fim era inevitável e, com uma selvagem e gritante inundação de poder, eu o arremessei até a beirada do teto e o curvei para trás lá fora, sobre a saliência. Por um instante, nos engalfinhamos ali; logo, eu me livrei de seu aperto com um puxão e o lancei para cima, e um único grito agudo se ergueu quando ele caiu dentro da escuridão abaixo.

Eu me erguia ereto, os braços levantados para as estrelas – uma terrível estátua de triunfo primordial. E, pelo meu peito, escorria gotas de sangue dos longos ferimentos, deixando pelas unhas desvairadas do afegão em meu pescoço e rosto.

Então, girei com a astúcia de um maníaco. Será que ninguém ouvira o som daquela luta? Meus olhos estavam na porta através da qual eu havia chegado, mas um barulho me fez girar e, pela primeira vez, percebi algo semelhante a uma torre se projetar do teto. Ali não havia janela, mas havia uma porta e, enquanto eu olhava, aquela porta se abriu e uma volumosa forma negra se destacou na luz que fluía de dentro dela. Hassim!

Ele saiu à cobertura e fechou a porta, seus ombros curvados e o pescoço estendido enquanto olhava este e aquele caminho. Eu o derrubei sem sentidos ao teto com um único golpe, guiado pelo ódio. Agachei-me sobre ele, esperando algum sinal de retorno de consciência; logo, distante no céu próximo ao horizonte, vi uma cor fracamente vermelha. O erguer da lua!

Onde, em nome de Deus, estava Gordon? Enquanto eu me via indeciso, um barulho estranho me alcançou. Era curiosamente parecido com o zumbido de muitas abelhas.

Andando na direção da qual parecia vir, atravessei o teto e me inclinei sobre a saliência. Deparei-me com uma visão incrível e de pesadelo.

Uns seis metros abaixo do nível do teto onde eu estava, havia outro teto, do mesmo tamanho e claramente uma parte da mesma construção. De um lado, era limitado por uma parede; nos outros três lados, um parapeito bem alto tomava o lugar de uma saliência.

Havia uma grande multidão, sentada e ancorada, e bastante aglomerada no teto... e, sem exceção, eram negros! Havia centenas deles, e havia sido sua conversa baixa que eu escutara. Mas o que prendeu meu olhar foi aquilo sobre o que seus olhos estavam fixos.

Quase no centro da sala, se erguia uma espécie de teocalli (10), com uns três metros de altura, quase exatamente igual aos encontrados no México e nos quais os sacerdotes sacrificavam vítimas humanas. Esta, apesar de seu tamanho infinitamente menor, era uma cópia exata daquelas pirâmides sacrificais. No topo plano, havia um altar curiosamente entalhado e, ao lado dele, se erguia uma forma parda, à qual nem mesmo a máscara medonha que ele usava poderia disfarçar do meu olhar: Santiago, o feiticeiro haitiano de vodu. No altar, jazia John Gordon, despido até a cintura, e com as mãos e pés amarrados, porém consciente.

Cambaleei para trás da saliência do teto, dividido pela indecisão. Nem mesmo o estímulo do elixir conseguiria competir com isto. Então um barulho me fez girar, para ver Hassim se esforçando atordoado para se erguer sobre os joelhos. Eu o alcancei com duas passadas e, mais uma vez, o derrubei impiedosamente. Então, percebi um estranho tipo de instrumento pendurado em seu cinto. Inclinei-me e o examinei. Era uma máscara similar à usada por Santiago. Então, surgiu rápida e subitamente um plano feroz e desesperado em minha mente – plano este que não parecia nada feroz e desesperado ao meu cérebro drogado. Caminhei rapidamente até a torre e, abrindo a porta, olhei atentamente para dentro. Não vi ninguém que precisasse ser silenciado, mas vi um longo robe de seda pendurado num cabide na parede. A sorte do drogado! Eu o agarrei e fechei novamente a porta. Hassim não deu sinais de consciência, mas dei outro golpe no queixo dele para ter certeza e, pegando sua máscara, corri até a saliência.

Um canto baixo e gutural flutuou até a mim – desafinado, bárbaro, com um meio-tom de maníaca sede de sangue. Os negros, homens e mulheres, balançavam para trás e para a frente ao ritmo selvagem de seu cântico de morte. Santiago se erguia sobre o teocalli como uma estátua de basalto negro, encarando o leste, a adaga bem erguida – uma visão selvagem e terrível, nu como ele estava, exceto por um cinto largo de seda e aquela máscara inumana em seu rosto. A lua lançava um aro vermelho sobre o horizonte oriental, e uma brisa fraca agitava as grandes plumas negras que balouçavam acima da máscara vodu do homem. O canto dos adoradores caiu até um sussurro sinistro.

Rapidamente coloquei a máscara da morte, vesti o robe e me preparei para descer. Eu estava preparado para saltar a distância inteira, estando certo, na confiança soberba de minha insanidade, de que eu aterrissaria ileso; mas, quando galguei a saliência, encontrei uma escada de mão, feita de aço, guiando para baixo. Evidentemente, Hassim, um dos sacerdotes vodus, pretendia descer por este caminho. Assim eu desci às pressas, pois sabia que, no instante em que a beirada mais baixa da lua clareasse o horizonte da cidade, aquela adaga imóvel desceria para dentro do peito de Gordon.

Puxando o robe para mais perto de mim, a fim de esconder minha pele branca, desci do teto e caminhei através de fileiras de adoradores negros, que se encolhiam para o lado, a fim de me darem passagem. Andei altivamente até o pé do teocalli e pela escadaria que subia ao redor dele, até ficar ao lado do altar da morte e distinguir as manchas vermelho-escuras sobre ele. Gordon estava deitado sobre as costas, os olhos abertos, o rosto contraído e desvairado, mas seu olhar destemido e firme.

Os olhos de Santiago ardiam para mim através das fendas de sua máscara, mas não vi suspeita em seu olhar até eu avançar e tomar a adaga de sua mão. Ele estava espantado demais para resistir, e a multidão negra ficou subitamente silenciosa. Que ele viu que minha mão não era a de um negro, isso é certo, mas ele simplesmente se calou de repente, espantado. Movendo-me rapidamente, cortei as amarras de Gordon e o coloquei de pé. Então, Santiago pulou sobre mim com um guincho... gritou novamente e, com os braços levantados, caiu de ponta-cabeça do teocalli, com sua própria adaga enterrada até o cabo em seu peito.

Logo, os adoradores negros estavam sobre nós com um guincho e um rugido – pulando sobre os degraus do teocalli, como leopardos negros ao luar, as facas reluzindo e os olhos com brilho branco.

Tirei minha máscara e robe, e respondi à exclamação de Gordon com uma risada selvagem. Eu havia tido esperança de que, em virtude do meu disfarce, eu pudesse sair com ele em segurança, mas eu agora estava satisfeito em morrer ali, ao lado dele.

Ele arrancou um grande ornamento de metal do altar e, quando os atacantes vieram, ele o brandiu. Por um momento, ele os tinha encurralados, e logo eles fluíram sobre nós como uma onda negra. Isto para mim era o Valhalla! Facas passavam de raspão em mim e cassetetes se chocavam contra mim, mas eu ria e dirigia meus punhos de aço em golpes precisos e semelhantes aos do martelo de um ferreiro, os quais despedaçavam carne e ossos. Vi a arma tosca de Gordon subir e descer, e toda hora um homem cair. Crânios eram despedaçados, sangue borrifava e a fúria negra me arrebatava. Rostos de pesadelo rodopiavam ao meu redor, e eu estava ajoelhado; ergui-me novamente, e os rostos se amarrotaram diante de meus golpes. Através de brumas distantes, eu parecia ouvir uma horrenda voz familiar se erguer em comando imperioso.

Gordon foi afastado de mim, mas, a julgar pelos sons, eu sabia que o trabalho mortal ainda continuava. As estrelas cambaleavam através de névoas de sangue, mas a alegria do Inferno estava sobre mim, e eu me deleitava em marés escuras de fúria, até uma maré mais escura e profunda cair sobre mim e eu perder os sentidos.


20) Horror Antigo

“Aqui e agora, em seu triunfo, onde todas as coisas caem
Estendidas sobre os despojos que sua própria mão espalhou,
Como um Deus que se matou em seu próprio e estranho altar,
A Morte jaz morta”.
(Swinburne)


Voltei lentamente à vida... lenta, muito lentamente. Uma névoa me envolvia, e nela eu vi uma Caveira...

Eu estava deitado numa jaula de aço, como um lobo capturado, e as barras eram fortes demais, eu percebia, até mesmo para minha força. A jaula parecia se situar numa espécie de nicho na parede, e eu estava olhando para uma sala grande. Esta sala ficava sob a terra, pois o chão era de lajes de pedra, e as paredes e teto eram compostos de blocos gigantescos do mesmo material. Estantes se enfileiravam nas paredes, cobertas por estranhos aparelhos, aparentemente de natureza científica, e havia mais na grande mesa que ficava no centro da sala. Ao lado da mesa, Kathulos estava sentado.

O feiticeiro vestia um serpentino robe amarelo, e aquelas mãos horrendas e aquela cabeça terrível estavam mais pronunciadamente reptilianas do que nunca. Ele virou seus grandes olhos amarelos em minha direção, como poços de fogo cadavérico, e seus lábios finos – enrugados como pergaminho – se moveram no que provavelmente se passaria por um sorriso.

Ergui-me cambaleando e agarrei as barras, praguejando.

- Gordon, seu maldito, onde está Gordon?

Kathulos pegou um tubo de ensaio da mesa, olhou-o firmemente e o esvaziou em outro.

- Ah, meu amigo está acordando. – ele murmurou em sua voz... a voz de um homem morto-vivo.

Ele enfiou as mãos em suas longas mangas, e se voltou totalmente para mim.

- Penso em você. – ele disse com clareza – Criei um monstro de Frankenstein. Fiz de você uma criatura super-humana, para servir meus desejos, e você escapou de mim. Você é a ruína de meu poder, pior até do que Gordon. Você matou servos valiosos e interferiu em meus planos. Entretanto, sua maldade terminará esta noite. Seu amigo Gordon fugiu, mas ele está sendo caçado pelos túneis, e não conseguirá escapar.

“Você”, ele prosseguiu, com o sincero interesse do cientista, “é um assunto mais interessante. Seu cérebro deve ter uma formação diferente da de qualquer outro homem que já viveu. Farei um estudo minucioso disso e irei adicioná-lo ao meu laboratório. Como um homem, com a aparente necessidade do elixir em seu organismo, conseguiu permanecer dois dias ainda estimulado pelo último gole, é mais do que posso entender”.

Meu coração pulou. Apesar de toda a sabedoria dele, a pequena Zuleika o enganou, e ele evidentemente não percebeu que ela lhe havia furtado um frasco da substância vital.

- O último gole que você tinha de mim – prosseguiu – era suficiente apenas para umas oito horas. Eu repito, isso me deixa perplexo. Pode me oferecer alguma sugestão?

Rosnei sem dizer uma palavra. Ele suspirou:

- Como sempre, o bárbaro. O provérbio diz a verdade: “Brinque com o tigre ferido e aqueça a víbora em seu coração, antes de tentar erguer o selvagem de sua selvageria”.

Ele meditou em silêncio por algum tempo. Eu o observava, desconfortável. Havia nele uma vaga e curiosa diferença... seus dedos longos, que saíam das mangas, tamborilavam nos braços das cadeiras, e certa exultação oculta vibrou por trás de sua voz, dando a ela uma vibração pouco comum.

- E você poderia ser um rei no novo regime. – ele disse subitamente – Sim, no novo... novo e inumanamente velho!

Estremeci quando sua risada seca e cacarejante rascou.

Ele curvou a cabeça como que para escutar. De bem longe, parecia vir um zumbido de vozes guturais. Seus lábios se torceram num sorriso.

- Minhas crianças negras. – ele murmurou – Elas despedaçam meu inimigo Gordon nos túneis. Eles, Sr. Costigan, são meus verdadeiros homens de confiança, e foi para edificá-los que coloquei John Gordon na pedra sacrifical. Eu preferia fazer alguns experimentos nele, baseado em certas teorias científicas, mas meus filhos precisavam ficar dispostos. Mais tarde, sob minha tutela, eles superarão suas superstições infantis e deixarão seus costumes tolos de lado, mas agora eles devem ser guiados brandamente pela mão.

“Você gosta destes corredores subterrâneos, Sr. Costigan? – ele disse bruscamente – Você pensou o que sobre eles? Sem dúvida, que os selvagens brancos de sua Idade Média os construíram? Bah! Estes túneis são mais velhos que o seu mundo! Foram feitos por reis poderosos, há eons demais para sua mente entender, quando uma cidade imperial se erguia aqui, onde se ergue esta aldeia tosca chamada Londres. Todos os vestígios daquela metrópole se desmoronaram em pó e desapareceram, mas estes corredores foram construídos por mais que habilidade humana... há, há! De todos os numerosos milhares que se movem diariamente acima deles, ninguém sabe de sua existência, exceto meus servos – e nem todos eles. Zuleika, por exemplo, não os conhece, pois mais tarde comecei a duvidar da lealdade dela e, sem dúvida, eu logo farei dela um exemplo”.

Diante disso, eu me lancei cegamente contra o lado da jaula, com uma onda vermelha de ódio e fúria me sacudindo em seu aperto. Agarrei as barras e me esforcei até as veias se sobressaírem em minha testa, e os músculos se salientarem e estalarem em meus braços e ombros. E as barras se curvaram diante de meu ataque furioso... um pouco, mas não mais do que isso, e finalmente a força sumiu de meus membros, e caí trêmulo e enfraquecido. Kathulos me observava imperturbável.

- As barras resistem. – ele proclamou, com algo que parecia quase um alívio em seu tom – Francamente, eu prefiro estar do lado oposto delas. Você é um macaco humano, se alguma vez existiu algum.

Ele riu súbita e selvagemente.

- Mas por que você tenta se opor a mim? – ele guinchou inesperadamente – Por que desafia a mim, que sou Kathulos, o Feiticeiro, poderoso mesmo nos dias do antigo império? Hoje, invencível! Um mago, um cientista, entre selvagens ignorantes! Há, há!

Estremeci, e uma súbita luz cegante apareceu dentro de mim. O próprio Kathulos era um viciado, e se incendiava com o conteúdo da sua escolha! Qual mistura infernal era suficientemente forte e terrível para eletrizar e inflamar o Mestre, eu não sei, nem gostaria de saber. De todo o conhecimento misterioso que ele tinha, eu, conhecendo o homem como conhecia, considero este o mais bizarro e pavoroso.

- Você, seu idiota insignificante! – ele berrou, com seu rosto iluminado de forma sobrenatural – Você sabe quem sou? Kathulos do Egito! Bah! Eles me conheceram nos velhos dias! Reinei nas obscuras e nebulosas terras do mar, eras e eras antes que o mar se erguesse e engolfasse a terra. Morri, não como morrem os homens; o gole mágico da vida eterna era nosso! Bebi profundamente e dormi. Por muito tempo, dormi em meu caixão envernizado! Minha carne murchou e endureceu; meu sangue secou nas veias. Fiquei como um morto. Mas, dentro de mim, ainda queimava o espírito da vida, dormindo, mas esperando ansiosamente o despertar. As grandes cidades viraram pó. O mar bebeu a terra. Os altos santuários e elevadas espirais afundaram sob as ondas verdes. Tudo isso, eu soube enquanto dormia; como um homem sabe em sonhos! Kathulos do Egito? Bah! Kathulos da Atlântida!

Soltei um grito repentino e involuntário. Isto era horrível demais para a sanidade.

- Sim, o mago, o feiticeiro.

“E durante os longos anos de selvageria, através dos quais as raças bárbaras se esforçavam para se erguer sem seus amos, surgiu a lenda do dia do império, quando alguém da Velha Raça se ergueria do mar. Sim, e guiaria à vitória o povo negro, que era nosso escravo nos velhos dias.

“Estes povos marrons e amarelos, que importância eles têm para mim? Os negros eram os escravos de minha raça, e eu sou hoje o deus deles. Eles me obedecerão. Os povos amarelos e marrons são tolos – faço deles minhas ferramentas, e chegará o dia em que os guerreiros negros se voltarão contra eles e matarão ao meu comando. E vocês, seus bárbaros brancos, cujos ancestrais simiescos sempre desafiaram a minha raça e a mim, seu destino está próximo! E quando eu subir ao meu trono universal, os únicos brancos serão escravos brancos!

“O dia chegou, como profetizado, quando meu caixão, se livrando dos salões onde ele jazia... onde jazia quando a Atlântida ainda era soberana do mundo... onde, depois que seu império afundou sob as profundezas verdes... quando meu caixão, eu digo, foi golpeado pelas profundas marés, se moveu e agitou, empurrou para um lado as algas aderentes que disfarçam templos e minaretes, e veio flutuando além dos grandiosos pináculos azul-safira e dourados, para o alto através das águas verdes, para flutuar sobre as ondas preguiçosas do mar.

“Então, veio um branco idiota, cumprindo o destino que ele não conhecia. Os homens em seu navio, verdadeiros crentes, sabiam que a hora havia chegado. E eu – o ar entrou em minhas narinas, e eu acordei do longo, longo sono. Agitei-me, me movi e vivi. E, me erguendo na noite, matei o idiota que havia me içado do oceano, e meus servos me reverenciaram e levaram para dentro da África, onde eu morei por algum tempo, aprendi novas línguas e novos meios de um mundo novo, e me fortaleci.

“A sabedoria de seu mundo monótono – há, há! Eu, que mergulhei mais profundamente nos mistérios dos antigos do que qualquer homem ousou! Tudo o que os homens sabem hoje, eu sei, e esse conhecimento, ao lado daquele que eu trouxe pelos séculos, é como um grão de areia ao lado de uma montanha! Você deveria saber algo daquele conhecimento! Por isso, lhe tirei de um inferno para lhe mergulhar em outro maior! Seu idiota, aqui está, à minha mão, aquilo que lhe ergueria deste! Sim, lhe libertaria das correntes com as quais lhe amarrei!”.

Ele ergueu um frasco de ouro e o sacudiu diante de minha vista. Eu o olhei como homens moribundos no deserto devem fazer com miragens distantes. Kathulos o dedilhou meditativamente. Sua agitação não-natural parecia ter passado subitamente, e logo, quando ele voltou a falar, foi com o tom tranqüilo e comedido do cientista.

- Seria de fato uma experiência proveitosa... libertar-lhe do hábito do elixir, e ver se seu corpo crivado pela droga se manteria vivo. Nove entre dez vítimas, com a necessidade e o estímulo removidos, morrem... mas você é um bruto tão colossal...

Ele suspirou e pôs o frasco de volta ao lugar de onde o erguera:

- O sonhador se opõe ao homem de destino. Meu tempo não é minha propriedade, ou eu escolheria passar minha vida enclausurado em meus laboratórios, executando meus experimentos. Mas agora, como nos dias do antigo império, quando reis procuravam meus conselhos, devo trabalhar e me esforçar pelo bem da raça em geral. Sim, devo labutar e plantar a semente da glória antes da chegada total dos dias imperiais, quando os mares abandonarem todos os seus mortos-vivos.

Estremeci. Kathulos riu selvagemente outra vez. Seus dedos começaram a tamborilar os braços de sua cadeira, e seu rosto brilhava mais uma vez com a luz não-natural. As visões vermelhas haviam começado a lhe fervilhar no crânio novamente:

- Sob os mares verdes eles jazem, os antigos mestres, em seus caixões envernizados, mortos como os homens imaginam a morte, mas apenas dormindo. Dormindo através das longas eras como horas, aguardando o dia do despertar! Os velhos mestres, os homens sábios, que previram o dia em que o mar engoliria a terra e se prepararam. Prepararam-se para a possibilidade de se erguerem novamente, nos dias bárbaros do futuro. Como eu fiz. Estão dormindo, os antigos reis e os feiticeiros sombrios, que morreram como morrem os homens, antes da Atlântida afundar. Eles, que, dormindo, submergiram com ela, mas irão ressurgir!

“A glória é minha! Ressuscitei primeiro. Procurei a localização das velhas cidades, em litorais que não afundaram. Desaparecidas, há muito desaparecidas. A maré bárbara as varreu há milhares de anos, quando as ondas verdes caíram sobre suas irmãs mais antigas das profundezas. Em algumas, os desertos se estendem vazios. Sobre algumas, como aqui, jovens cidades bárbaras se erguem”.

Ele parou subitamente. Seus olhos procuraram uma das aberturas escuras que indicavam um corredor. Acho que sua estranha intuição o avisou de algum perigo iminente, mas não acredito que ele tivesse qualquer idéia do quão dramaticamente nossa cena seria interrompida.

Enquanto olhávamos, soaram passos rápidos e um homem apareceu na porta... um homem desgrenhado, esfarrapado e ensangüentado. John Gordon! Kathulos se ergueu com um grito, e Gordon, ofegando como se de algum esforço sobre-humano, puxou o revólver que trazia na mão e atirou à queima-roupa. Kathulos cambaleou, batendo a mão no peito, e então, tateando selvagemente, oscilou até a parede e caiu contra ela. Uma portada se abriu, e ele cambaleou através dela, mas quando Gordon pulou selvagemente através da sala, uma superfície branca de pedra lhe barrou a visão, sem ceder aos seus murros selvagens.

Ele girou e correu como um bêbado até a mesa, onde havia um molho de chaves que o Mestre havia deixado cair lá.

- O frasco! – eu guinchei – Pegue o frasco! – E ele o enfiou no bolso.

De dentro do corredor pelo qual ele viera, soou um clamor fraco, o qual crescia rapidamente como uma alcatéia uivando a plenos pulmões. Poucos segundos preciosos gastos com a procura pela chave certa, e logo a porta da jaula estava aberta e eu pulei para fora. Nós dois éramos uma visão para os deuses! Cortados, contundidos e retalhados, nossas roupas pendendo em farrapos – meus ferimentos haviam parado de sangrar, mas agora que eu me mexia, começaram novamente; e, pela rigidez de minhas mãos, percebi que as juntas de meus dedos estavam quebradas. Quanto a Gordon, ele estava totalmente encharcado de sangue, da cabeça aos pés.

Fugimos por uma passagem, na direção oposta ao barulho ameaçador, o qual eu sabia serem os criados negros do Mestre em total perseguição a nós. Nenhum de nós estava em boa forma para correr, mas fizemos o nosso melhor. Para onde estávamos indo, eu não tinha idéia. Minha força super-humana havia me abandonado, e eu agora prosseguia apenas com minha força de vontade. Fomos parar em outro corredor, e ainda não tínhamos dado vinte passos até que, olhando para trás, vi o primeiro dos demônios negros dar a volta no canto da parede.

Um esforço desesperado aumentou levemente nossa vantagem. Mas eles haviam nos visto, estavam totalmente à vista agora, e um grito de fúria irrompeu deles para ser sucedido por um silêncio mais sinistro, enquanto empregavam todos os esforços para nos alcançarem.

A pouca distância à nossa frente, vimos uma escadaria avultar subitamente na escuridão. Se pudéssemos alcançá-la... mas vimos algo mais.

Contra o teto, entre nós e as escadas, pendia algo semelhante a uma grade de ferro, com pontas grandes no fundo – um rastrilho. E, enquanto olhávamos, sem pararmos nossas passadas ofegantes, ele começou a se mover.

- Estão baixando o rastrilho! – Gordon rosnou, seu rosto riscado de sangue uma máscara de exaustão e determinação.

Agora, os negros estavam apenas três metros atrás de nós... agora, a enorme grade, ganhando movimento com um rangido de mecanismo enferrujado e sem uso, caiu. Um esforço final, um ofegante e fatigante pesadelo de esforço... e Gordon, empurrando-nos numa explosão selvagem de pura força nervosa, nos lançou para baixo e para a frente, e a grade se espatifou atrás de nós!

Por um momento, ficamos ofegando, sem dar atenção à horda delirante que rugia e guinchava do outro lado da grade. Aquele pulo final fora tão próximo, que as grandes pontas, ao descerem, haviam arrancado retalhos de nossas roupas.

Os negros estocavam em nossas direções com adagas, através das barras, mas estávamos fora de alcance, e me parecia que eu estava contente em me deitar ali e morrer de exaustão. Mas Gordon se ergueu vacilante, e me puxou com ele.

- Temos que sair – ele rosnou –; irmos avisar... a Scotland Yard... labirintos no coração de Londres... grandes explosivos... armas... munição.

Subimos os degraus às cegas e, diante de nós, eu parecia ouvir um som de metal raspando contra metal. As escadas pararam abruptamente, num patamar que terminava numa parede sem aberturas. Gordon bateu contra ela, e a inevitável porta secreta se abriu. A luz fluiu para dentro, através das barras de uma espécie de grade. Homens com uniformes da polícia de Londres as estavam serrando com serras de arcos e, enquanto nos cumprimentavam, foi feita uma abertura através da qual rastejamos.

- Você está ferido, senhor! – Um dos homens pegou o braço de Gordon.

Meu camarada se livrou dele:

- Não há tempo a perder! Fora daqui, o mais rápido que pudermos!

Vi que estávamos numa espécie de subsolo. Subimos apressadamente os degraus, até lá fora, onde o início da aurora estava tornando o leste escarlate. Sobre os topos de casas menores, vi à distância uma grande construção sinistra, sobre cujo topo, eu sentia instintivamente, aquele drama feroz havia sido encenado na noite anterior.

- Aquele prédio foi arrendado há alguns meses, por um chinês misterioso. – disse Gordon, seguindo meu olhar – Originalmente, uma repartição de trabalho... a vizinhança se degenerou, e o prédio ficou vazio por algum tempo. O novo inquilino adicionou várias histórias a ele, mas o deixou aparentemente vazio. Mantive-o sob observação por algum tempo.

Isto foi dito na maneira convulsiva e rápida de Gordon, enquanto andávamos apressadamente ao longo da calçada. Escutei mecanicamente, como um homem em transe. Minha vitalidade estava declinando rapidamente, e eu sabia que eu teria um colapso a qualquer momento.

- As pessoas vivas nos arredores haviam relatado estranhas visões e barulhos. O dono do porão ao qual acabamos de deixar ouviu sons estranhos, vindos da parede do porão, e chamou a polícia. Naquele tempo, eu estava correndo para um lado e para outro, ao longo daqueles malditos corredores, feito um rato caçado, e ouvi a polícia batendo na parede. Achei a porta secreta e a abri, mas a encontrei barrada por uma grade. Foi enquanto eu dizia ao policial espantado para procurar uma serra, que os perseguidores negros, aos quais eu evitara por um momento, aparecerem e eu fui obrigado a fechar a porta e correr novamente. Por pura sorte, eu lhe achei, e por pura sorte consegui achar o caminho de volta à porta.

“Agora, temos que chegar à Scotland Yard. Se atacarmos rapidamente, poderemos capturar todo aquele bando de demônios. Se matei Kathulos ou não, eu não sei; nem sei se ele pode ser morto pelas armas dos mortais. Mas, com todo o meu conhecimento, todos eles estão agora naqueles corredores subterrâneos e...”.

Naquele momento, o mundo estremeceu! Um ruído de despedaçar o cérebro parecia quebrar o céu com seu incrível chamado; casas cambaleavam e se espatifavam em ruínas; um enorme pilar de fumaça e chamas irrompeu da terra e, sobre suas asas, grandes massas de entulho voaram para o céu. Uma nuvem negra de fumaça, poeira e vigas cadentes envolveu o mundo, um trovão prolongado parecia ribombar para o alto, desde o centro da terra, como se as paredes e tetos caíssem; e em meio ao rebuliço e gritaria, caí e não tive mais conhecimento de nada.

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Re: Contos de Howard - Rosto de Caveira (Originalmente publicado em Weird Tales 1929).

Mensagem por Rogerio Rocha em Ter Jan 10, 2012 9:10 pm

21) O Quebrar da Corrente

“E, como uma alma atrasada,
Que não pertence ao céu nem ao inferno,
Abatida por nuvem e névoa,
Saiu da escuridão matinal”.
(Swinburne)


Há pouca necessidade de me demorar nas cenas de horror daquela terrível manhã de Londres. O mundo está familiarizado e conhece quase todos os detalhes resultantes da grande explosão, a qual varreu um décimo daquela grande cidade, com um resultado de perdas de vidas e propriedades. Para tal acontecimento, um pouco de razão deve ser dada; a história da construção abandonada vazou, e muitas histórias extravagantes foram divulgadas. Finalmente, para acalmar os rumores, foi declarado, pública e não-oficialmente, o relato de que aquela construção havia sido o ponto de encontro e fortaleza secreta de uma quadrilha de anarquistas internacionais, os quais haviam abarrotado o porão com fortes explosivos e que supostamente os haviam acendido de forma acidental. De certo modo, foi uma boa forma de lidar com esta história, como você sabe, mas a ameaça que se escondia lá transcendia, e muito, qualquer anarquista.

Tudo isto me fora contado, pois, quando caí inconsciente, Gordon, atribuindo minha condição à exaustão e a uma necessidade de haxixe, ao uso do qual ele achou que eu estava viciado, me ergueu e, com a ajuda dos assombrados policiais, me levou para seus aposentos antes de retornar ao cenário da explosão. Em seus aposentos, ele encontrou Hansen, e Zuleika algemada à cama como eu a havia deixado. Ele a soltou e deixou cuidando de mim, pois toda Londres estava num terrível tumulto, e precisavam dele em outro local.

Quando finalmente voltei a mim, ergui meu olhar para seus olhos luminosos e fiquei quieto, sorrindo para ela. Ela caiu sobre meu peito, aconchegando minha cabeça em seus braços e cobrindo meu rosto de beijos.

- Steephen! – ela soluçava repetidas vezes, enquanto suas lágrimas se esparramavam quentes sobre meu rosto.

Eu mal tinha forças para pôr meus braços ao redor dela, mas consegui, e ficamos assim por um tempo, em silêncio exceto pelos soluços duros e torturados da jovem.

- Zuleika, eu te amo. – murmurei.

- E eu amo você, Steephen. – ela soluçou – Oh, é tão difícil me despedir agora... mas estou indo com você, Steephen; não consigo viver sem você!

- Minha cara menina. – disse John Gordon, entrando subitamente na sala – Costigan não vai morrer. Daremos a ele haxixe suficiente para lhe satisfazer o vício e, quando ele estiver mais forte, vamos tirá-lo gradativamente desse mesmo vício.

- Você não entende, senhor; não é de haxixe que Steephen precisa. É algo que só o Mestre conhecia, e agora que ele morreu ou fugiu, Steephen não pode obtê-lo e irá morrer.

Gordon me lançou um olhar rápido e incerto. Seu rosto delicado estava contraído e desfigurado, suas roupas escurecidas e rasgadas devido ao seu trabalho entre os escombros da explosão.

- Ela está certa, Gordon. – eu disse languidamente – Estou morrendo. Kathulos acabou com meu vício por haxixe com uma mistura à qual ele chamou de elixir. Eu me mantive vivo com um pouco da substância que Zuleika roubou dele e me deu, mas bebi tudo na noite passada.

Eu estava consciente de não ter nenhum tipo de necessidade; nem sequer desconforto físico ou mental. Todo o meu organismo estava rapidamente ficando lento; eu havia passado do estágio onde a necessidade do elixir iria me rasgar e dilacerar. Senti apenas um grande cansaço e uma vontade de dormir. E eu sabia que, no momento em que fechasse os olhos, eu morreria.

- Uma droga estranha, aquele elixir. – eu disse, com languidez crescente – Queima e congela, e depois finalmente o vício mata facilmente e sem tormento.

- Costigan, dane-se isso – disse Gordon desesperadamente –; você não pode partir assim! Aquele frasco que peguei da mesa do egípcio... o que há nele?

- O Mestre jurou que aquilo me libertaria de minha maldição, e provavelmente me mataria também. – murmurei – Esqueci dele. Deixe-me tomá-lo; ele não pode fazer mais do que me matar, e eu agora estou morrendo.

- Sim, rápido, deixe-me pegá-lo! – Zuleika exclamou ferozmente, pulando até o lado de Gordon com as mãos ardentemente estendidas. Ela retornou, com o frasco que tirara do bolso dele, e se ajoelhou ao meu lado, colocando-o em meus lábios, enquanto murmurava gentil e suavemente para mim, em sua própria linguagem.

Bebi, esvaziando o frasco, mas sentindo pouco interesse em tudo. Minha perspectiva era puramente impessoal, diante da maré baixa que era minha vida, e não consigo sequer me lembrar qual o sabor da substância. Só me lembrava de sentir um curioso fogo indolente queimar fracamente ao longo de minhas veias, e a última que vi foi Zuleika agachada sobre mim, seus olhos grandes fixos em mim com intensidade ardente. Sua mão pequena e ansiosa descansava dentro da blusa e, lembrando-me de seu voto de tirar a própria vida se eu morresse, tentei erguer uma de minhas mãos e desarmá-la; tentei falar para Gordon tomar a adaga que ela havia escondido em suas vestes. Mas a fala e a ação me falharam, e eu me desgarrei num curioso mar de inconsciência.

Daquele período, eu não me lembro de nada. Nenhuma sensação incendiou meu cérebro adormecido, a ponto de transpor o golfo no qual eu vagava. Dizem que fiquei durante horas como um homem morto, mal respirando, enquanto Zuleika pairava sobre mim, sem sair de meu lado por um instante, e lutando como uma tigresa quando alguém tentava convencê-la a dormir. A corrente dela estava quebrada.

Assim como carreguei a visão dela para aquela terra obscura da inexistência, os olhos dela foram a primeira coisa que saudou o retorno de minha consciência. Percebi uma fraqueza maior do que eu achava possível um homem sentir, como se eu tivesse sido um inválido durante meses, mas a vida em mim, apesar de fraca, era saudável e normal, sem nenhum estímulo artificial como causa. Sorri para minha garota e murmurei fracamente:

- Jogue sua adaga fora, minha pequena Zuleika. Vou viver.

Ela gritou e caiu de joelhos ao meu lado, chorando e rindo ao mesmo tempo. Mulheres são realmente seres estranhos, de emoções misturadas e fortes.

Gordon entrou e agarrou a mão que eu não conseguia erguer da cama.

- Você agora é um caso para um médico comum, Costigan. – ele disse – Até um leigo como eu pode dizer isso. Pela primeira vez, desde que eu lhe conheci, seu olhar está completamente são. Você parece um homem que teve um colapso nervoso total, e precisa de quase um ano de descanso e tranqüilidade. Grande céu, homem, apesar do que passou, você está pronto para durar toda uma vida.

- Diga-me primeiro – eu falei –: Kathulos morreu na explosão?

- Não sei. – Gordon respondeu sombriamente – Aparentemente, todo o sistema de passagens subterrâneas foi destruído. Sei que minha última bala... a última bala que havia no revólver que arranquei de um de meus atacantes... acertou seu alvo no corpo do Mestre, mas se ele morreu do ferimento, ou se uma bala pode feri-lo, não sei. E se, em sua agonia mortal, ele acendeu as toneladas de fortes explosivos que estavam armazenadas nos corredores, ou se os negros o fizeram sem querer, nós nunca saberemos.

“Meu Deus, Costigan, você já viu tal labirinto de túneis? E não sabemos quantas milhas em cada direção as passagens alcançavam. Agora mesmo, os homens da Scotland Yard estão esquadrinhando as passagens subterrâneas e subsolos da cidade, em busca de aberturas secretas. Todas as aberturas conhecidas, tais como aquela por onde viemos e a de Soho 48, foram obstruídas por paredes que caíram. A repartição de trabalho foi simplesmente transformada em átomos”.

- E quanto aos homens que atacaram Soho 48?

- A porta na parede da livraria foi fechada. Encontraram o chinês que você matou, mas vasculharam a casa em vão. Sorte para eles, também; do contrário, eles sem dúvida estariam nos túneis quando ocorreu a explosão, e morreriam com as centenas de negros que devem ter morrido nela.

- Todos os negros de Londres deveriam estar lá.

- Ouso dizer. Muitos deles cultuam o vodu no fundo do coração, e o poder que o Mestre exercia era incrível. Eles morreram, mas e quanto a ele? Foi reduzido a átomos pelo material que ele armazenava secretamente, ou esmagado quando as paredes de pedra desabaram e os tetos desmoronaram?

“Não há meios de procurar entre aquelas ruínas subterrâneas, eu suponho”.

- Absolutamente nenhum. Quando as paredes cederam, as toneladas de terra sustentadas pelos tetos também caíram, enchendo os corredores com sujeira e pedra quebrada, bloqueando-os para sempre. E, na superfície da terra, as casas sacudidas pela vibração foram transformadas em pilhas de ruínas. O que aconteceu naqueles corredores terríveis continuará sendo um mistério para sempre.

Minha história chega a um final. Os meses seguintes se passaram sem acontecimentos importantes, exceto pela crescente felicidade, a qual para mim era um paraíso, mas que lhe entediaria se eu lhe contasse. Mas um dia, Gordon e eu discutimos novamente os acontecimentos misteriosos, que tiveram seu começo sob a mão sombria do Mestre.

- Desde aquele dia – disse Gordon –, o mundo ficou quieto. A África se acalmou, e o Leste parece ter voltado ao seu antigo sono. Só pode haver uma resposta: vivo ou morto, Kathulos foi destruído naquela manhã, quando seu mundo se espatifou sobre ele.

- Gordon – eu disse –, qual a resposta para esse maior de todos os mistérios?

Meu amigo encolheu os ombros:

- Eu cheguei a acreditar que a humanidade sempre paira sobre as orlas dos oceanos secretos, dos quais nada se sabe. Raças viveram e desapareceram, antes que a nossa raça se erguesse do limo da primitividade; e outras igualmente viverão sobre a terra depois que a nossa desaparecer. Os cientistas há muito apoiavam a teoria de que os atlantes possuíam uma civilização superior à nossa, e em linhas muito diferentes. Certamente o próprio Kathulos foi uma prova de que nossa própria cultura e conhecimento eram nada, ao lado daquela temível civilização que o gerou.

“Os simples procedimentos dele com você embaraçaram todo o mundo científico, pois nenhum deles foi capaz de explicar como ele conseguiu remover aquele vício por haxixe, lhe estimular com uma droga infinitamente mais poderosa, e depois produzir outra droga que apagasse totalmente os efeitos da anterior”.

- Devo agradecer a ele por duas coisas – eu disse lentamente –: a recuperação de minha virilidade perdida... e Zuleika. Kathulos, então, está morto, tanto quanto qualquer coisa mortal pode morrer. Mas, e quanto aos outros... esses “antigos mestres”, que ainda dormem dentro do mar?

Gordon estremeceu:

- Como eu disse, talvez a humanidade ande devagar nas bordas dos desfiladeiros impensáveis de horror. Mas uma frota de canhoneiros está agora mesmo patrulhando discretamente os oceanos, com ordens de destruir instantaneamente qualquer coisa estranha que possa ser encontrada flutuando... destruí-la e ao seu conteúdo. Se minha palavra tiver qualquer peso com o governo inglês e as nações do mundo, os mares serão patrulhados até que o dia do juízo desça sua cortina nas raças de hoje.

- À noite, eu às vezes sonho com eles – murmurei –, dormindo em seus caixões envernizados, os quais pingam estranhas algas, lá no fundo entre as ondas verdes... onde espirais profanas e torres estranhas se erguem no oceano escuro.

- Estivemos face a face com um antigo horror – disse sombriamente Gordon –; com um medo obscuro e misterioso demais para o cérebro humano se opor. A sorte esteve conosco; ela pode não favorecer novamente os filhos dos homens. É melhor que estejamos sempre prevenidos. O universo não foi feito apenas para a humanidade; a vida passa por diferentes fases, e o primeiro instinto da natureza para as espécies diferentes é uma destruir a outra. Sem dúvida, parecemos tão horrendos para o Mestre quanto ele pareceu para nós. Nós mal abrimos o cofre de segredos que a Natureza armazenou, e estremeço em pensar o que esse cofre pode conter para a raça humana.

- É verdade – eu disse, me alegrando intimamente devido ao vigor que começava a percorrer minhas veias assoladas –; mas os homens sempre enfrentarão obstáculos quando eles vierem, assim como os homens sempre se ergueram para enfrentarem-nos. Agora, estou começando a conhecer o valor total da vida e do amor, e nem todos os demônios do abismo podem me deter.

Gordon sorriu:

- Este valor está chegando a você, velho companheiro. A melhor coisa é esquecer todo este interlúdio sombrio, pois nessa direção fica a luz e a felicidade.


FIM



1) Argonne: Floresta francesa, onde os Aliados ganharam a Primeira Guerra Mundial (Nota do Tradutor).

2) Sikh: Membro de uma seita hindu do Panjab (N. do T.).

3) Natal: Província da União Sul-Africana (idem).

4) East-End: Bairro do extremo leste de Londres, onde Jack, O Estripador, fez suas cinco vítimas em 1888 (ibidem).

5) Zenana: Parte reservada para as mulheres, em casas de países muçulmanos do sul da Ásia, como Índia e Paquistão (ibid).

6) Afridi: Nome dado a tribos pachtuns (Nota do Tradutor).

7) Fez: Barrete turco (N. do T.).

Cool Levantino: Oriundo do Levante, ou Oriente Médio (idem).

9) Franz Anton Mesmer (1734 - 1815) foi um médico e magnetizador suábio, que curava doenças com o uso do magnetismo animal (ibidem).

10) Teocalli: Nome dado às pirâmides do México pré-colombiano, as quais eram cercadas por templos (ibid).

Fonte: http://www.donaldcorrell.com/reh/103.html

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Re: Contos de Howard - Rosto de Caveira (Originalmente publicado em Weird Tales 1929).

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