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Contos de Howard - A Voz de El-Lil (Originalmente publicado em 1930)

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Contos de Howard - A Voz de El-Lil (Originalmente publicado em 1930)

Mensagem por Rogerio Rocha em Ter Jan 10, 2012 9:00 pm

A Voz de El-Lil
(por Robert E. Howard)

Originalmente publicado em Oriental Stories, outubro e novembro de 1930.


Mascate, como muitos outros portos, é um abrigo para andarilhos de muitas nações, os quais trazem consigo seus costumes tribais e peculiaridades. Turcos se misturam com gregos, e árabes discutem com hindus. As línguas de metade do Oriente ressoam no bazar ruidoso e fedorento. Por isso, não pareceu particularmente incongruente ouvir, ao me inclinar sobre um balcão atendido por um eurasiático de sorriso afetado, as notas musicais de um gongo chinês, soando claramente através do zumbido indolente do tráfego nativo. Certamente, não havia nada de tão assustador naqueles tons suaves, para que o enorme inglês ao meu lado se sobressaltasse, praguejasse e derramasse seu uísque com soda na manga de minha camisa.

Ele se desculpou e censurou sua falta de jeito com imprecações francas, mas vi que ele estava abalado. Ele me interessava, como seu tipo sempre faz: com bem mais de 1m80 de altura, ombros largos, quadris estreitos e membros pesados – o lutador perfeito, de rosto moreno, olhos azuis e cabelos claros. Sua raça é antiga na Europa, e o próprio homem me trazia à mente vagas figuras lendárias – Hengist, Hereward, Cerdic –, viajantes e lutadores natos do molde anglo-saxônico original.

Percebi, além disso, que ele estava com humor para conversar. Eu me apresentei, pedi bebidas e esperei. Meu espécime me agradeceu, murmurou para si mesmo, bebeu seu licor apressadamente e falou de forma abrupta:

- Você está se perguntando por que um homem adulto ficaria tão subitamente perturbado por uma coisa tão pequena... Bem, eu admito que esse maldito gongo me deu um susto. É esse idiota do Yotai Lao, trazendo seus repugnantes pagodes orientais e budas a uma cidade decente... por meio peni, eu subornaria algum muçulmano fanático para cortar aquela garganta amarela e afundaria seu amaldiçoado gongo no golfo. E lhe contarei por que odeio aquela coisa.

“Meu nome”, disse meu saxão, “é Bill Kirby. Foi no Djibuti, no Golfo de Adem, que conheci John Conrad. Era um jovem magro e de olhos agudos, procedente de Nova Inglaterra – era professor, também, apesar de jovem. Era vítima de uma obsessão, também, como a maioria dos da sua espécie. Era um estudante de insetos, e era um inseto em particular que o havia trazido para a Costa Leste; ou melhor, a esperança de encontrar o bicho, pois ele nunca o havia encontrado. Era quase sobrenatural ver o rapaz trabalhar num ardente entusiasmo, quando falava de seu assunto favorito. Sem dúvida, ele poderia ter me ensinado muitas coisas que eu deveria saber, mas insetos não estão entre meus interesses; e ele falava, sonhava e pensava em poucas coisas mais...”.



Bem, saímos juntos desde o início. Ele tinha dinheiro e ambições, eu tinha um pouco de experiência e um pé andarilho. Conseguimos juntos um safári pequeno e modesto, porém eficiente, e nos aventuramos juntos para dentro do país negro da Somália. Hoje você ouve falar que aquela região havia sido explorada exaustivamente, e posso provar que aquela afirmação é uma mentira. Encontramos coisas com as quais nenhum homem branco havia sonhado.

Havíamos viajado por quase um mês, e adentramos uma parte do país, a qual eu sabia ser desconhecida por um explorador comum. As savanas e florestas de espinhos deram lugar ao que se aproximava de verdadeira selva, e os nativos que víamos eram de uma raça de lábios grossos, testa baixa e dentes de cães – nada parecidos com os somalis. Mas continuamos perambulando, e nossos bagageiros e soldados começaram a murmurar entre si. Alguns dos acompanhantes negros tinham intimidade com eles, e lhes contaram histórias que lhes davam medo de seguirem adiante. Nossos homens não queriam falar disso comigo ou com Conrad, mas tínhamos um criado no acampamento – um mestiço chamado Selim – e eu disse a ele para ver o que pudesse averiguar. Naquela noite, ele veio à minha tenda. Havíamos montado acampamento numa espécie de grande clareira e construído uma cerca de espinhos, pois os leões estavam fazendo uma boa algazarra nos arbustos.

- Amo – ele disse, no inglês hibrido, do qual tanto se orgulhava –; os negros está assustando os bagageiros e soldados com conversa de má ju-ju. Eles falar de uma poderosa maldição ju-ju na região para onde vamos, e...

Ele parou bruscamente, ficou pálido e minha cabeça se sacudiu. Dos labirintos escuros de selva do sul, saiu sussurrando uma voz assombrosa. Era como o eco de um eco, mas estranhamente distinta, profunda, vibrante e melodiosa. Saí de minha tenda e vi Conrad de pé, diante de uma fogueira, tenso como um cão de caça.

- Você ouviu isso? – ele perguntou – O que teria sido?

- Um tambor nativo. – respondi; mas sabíamos que não era verdade. O ruído e tagarelar de nossos nativos, ao redor de suas fogueiras de cozinhar, havia parado como se todos tivessem morrido de repente.

Não ouvimos mais nada naquela noite, mas, na manhã seguinte, havíamos sido abandonados. Os jovens negros haviam levantado acampamento com toda a bagagem que puderam levar. Conrad, Selim e eu celebramos um conselho de guerra. O mestiço estava morto de medo, mas o orgulho de seu sangue branco fez com que seguisse adiante.

- E agora? – perguntei a Conrad – Temos nossas armas, e comida suficiente para nos dar uma chance digna de alcançar a costa.

- Ouça! – ele ergueu a mão. Do outro lado da região das moitas, palpitou novamente aquele sussurro apavorante – Vamos prosseguir. Não descansarei até saber o que produz aquele som. Nunca antes ouvi nada parecido no mundo.

- A selva recolherá nossos ossos. – eu disse. Ele sacudiu a cabeça.

- Escute! – ele disse.

Era como um chamado. Entrava em seu sangue. Arrastava-lhe como a música de um faquir atrai uma naja. Eu sabia que era loucura. Mas não discuti. Escondemos quase toda a bagagem e começamos a seguir. A cada noite, construíamos uma cerca de espinhos e nos sentávamos dentro dela, enquanto os grandes felinos uivavam e grunhiam do lado de fora. E, à medida que adentrávamos cada vez mais profundamente os labirintos da selva, ouvíamos mais claramente aquela voz. Era profunda, suave e musical. Ela lhe fazia sonhar com coisas estranhas; estava carregada por uma idade vasta. As glórias perdidas da antiguidade sussurravam em seu ribombar. Em sua ressonância, ela reunia todo o anseio e mistério da vida; toda a alma mágica do Leste. Acordei no meio da noite para escutar seus ecos sussurrantes, e dormi para sonhar com minaretes que se erguiam até o céu; com longas fileiras de adoradores de pele morena, se curvando; com tronos de pavão com dosséis púrpuras, e trovejantes carruagens douradas.

Conrad havia finalmente achado algo que rivalizava com seus insetos infernais, em seu interesse. Ele não falava muito; caçava insetos de forma alheia a tudo. O dia inteiro, ele parecia estar em atitude de escuta e, quando as profundas notas douradas rolavam pela selva, ele ficava tenso como um cão de caça que farejava, enquanto em seus olhos se movia furtivamente um olhar estranho para um professor civilizado. Por Júpiter, é curioso ver uma influência antiga e primordial deslizar pelo verniz da alma de um cientista de sangue frio, e tocar o fluxo vermelho da vida sob ele! Era algo novo e estranho para Conrad; aqui havia algo que ele não conseguia explicar com sua psicologia moderna e fria.

Bom, nós vagamos naquela busca louca – pois a maldição do homem branco é a de ir até o Inferno para satisfazer sua curiosidade. Então, na luz cinza do início de um amanhecer, o acampamento foi atacado. Não houve luta. Fomos simplesmente inundados e submergidos pelos números. Eles devem ter se esgueirado e nos cercado por todos os lados; pois, quando me dei conta, o acampamento estava cheio de figuras fantásticas e havia meia-dúzia de lanças apontadas no meu pescoço. Irritava-me terrivelmente me render sem dar um só tiro, mas não havia nada a ser feito e eu me amaldiçoei por não ter mantido uma vigilância melhor. Deveríamos ter esperado algo do tipo, com aquele repicar diabólico do sul.

Havia pelo menos 100 deles, e tive um calafrio quando os olhei de perto. Não eram jovens negros e não eram árabes. Eram homens magros, de estatura mediana, pele marrom levemente amarelada, com olhos escuros e narizes grandes. Não usavam barba e suas cabeças eram totalmente raspadas. Vestiam uma espécie de túnica, amarrada à cintura por um largo cinto de couro, e sandálias. Também usavam um tipo estranho de elmo de ferro, com ponta no alto, aberto na frente e que lhes caía quase até os ombros, atrás e pelos lados. Traziam grandes escudos reforçados com metal, quase quadrados, e estavam armados com lanças de lâmina estreita, arcos e flechas de estranho feitio e curtas espadas retas, como eu nunca tinha visto antes – ou depois.

Amarraram a mim e a Conrad – pés e mãos –, e mataram Selim ali mesmo: cortaram sua garganta, como se fosse um porco, enquanto ele chutava e uivava. Uma visão de dar náuseas; Conrad quase desmaiou, e ouso dizer que empalideci um pouco. Então, partiram na direção que seguíamos, fazendo-nos andar entre eles, com nossas mãos amarradas às costas e suas lanças nos ameaçando. Carregavam nosso escasso equipamento, mas, pela forma como carregavam as armas, não creio que soubessem para que serviam. Mal trocavam palavras entre si e, quando ensaiei vários dialetos, só tive como resposta a espetada da ponta de uma lança. O silêncio deles era um pouco fantasmagórico e totalmente horrível.

Eu não sabia o que pensar deles. Tinham aparência oriental, mas não do Oriente com o qual eu estava familiarizado, se é que você me entende. A África é do Leste, mas não é o mesmo. Eles não se pareciam mais africanos do que um chinês. É difícil de explicar. Mas direi isto: Tóquio é oriental e Benares também, mas Benares simboliza uma fase diferente e mais antiga do Oriente, enquanto Pequim representa ainda outra, e mais antiga. Estes homens eram de um Oriente que eu nunca conhecera; faziam parte de um Leste mais antigo que a Pérsia, mais antigo que a Assíria; mais antigo que a Babilônia! Senti algo como uma aura ao redor deles, e estremeci ao pensar nos abismos de Tempo que simbolizavam. Mas aquilo também me fascinava. Sob as arcadas góticas de uma selva antiqüíssima, atravessada por silenciosos orientais de uma espécie esquecida por Deus sabe quantos eons, um homem pode ter pensamentos fantásticos. Eu quase me perguntava se aqueles indivíduos eram reais, ou somente os fantasmas de guerreiros mortos há quatro mil anos!

As árvores começaram a ficar esparsas, e o chão se inclinou para o alto. Finalmente chegamos a uma espécie de penhasco e vimos uma imagem que nos fez ofegar. Olhávamos para um grande vale, totalmente cercado por rochedos altos e íngremes, através dos quais vários riachos haviam aberto estreitos desfiladeiros para alimentar um lago de bom tamanho no centro do vale. No centro daquele lago havia uma ilha e, naquela ilha, um templo; e, do outro lado do lago, uma cidade! E não era nenhuma aldeia nativa de barro e bambu. Parecia ser feita de pedra, de cor marrom-amarelada.

A cidade era murada e consistia em casas quadradas e de teto plano, algumas aparentemente com três ou quatro pavimentos. Todas as margens do lago tinham plantações, e os campos eram verdes e florescentes, alimentados por regos artificiais. Eles tinham um sistema de irrigação que me impressionou. Mas a coisa mais impressionante era o templo da ilha.

Ofeguei, fiquei boquiaberto e pisquei os olhos. Era a Torre de Babel tornada realidade! Não tão alta nem grande quanto eu a imaginara, mas com uns dez andares de altura, sombria e imensa como nas gravuras, e com a mesma impressão intangível de maldade pairando sobre ela.

Então, enquanto estávamos lá, daquela imensa pilha de alvenaria saiu flutuando, através do lago, aquele profundo ribombar ressonante – agora próximo e claro – e os próprios penhascos pareciam tremer com as vibrações daquele ar carregado de música. Olhei de relance para Conrad; ele parecia totalmente perdido. Ele pertencia àquela classe de cientistas que têm o universo classificado e arquivado, e tudo em seu local apropriado. Por Júpiter! Eles ficam mais estarrecidos quando se defrontam com o paradoxal-inexplicável-que-não-deveria-existir, do que homens comuns como você e eu, que não têm muitas idéias pré-concebidas das coisas em geral.

Os soldados nos fizeram descer numa escadaria talhada na rocha sólida dos penhascos, e atravessamos campos irrigados, onde homens de cabeça raspada e mulheres de olhos escuros interrompiam suas tarefas para nos olhar com curiosidade. Levaram-nos a um grande portão, reforçado com ferro, onde um pequeno destacamento de soldados, equipados como nossos captores, lhes pediu a senha; e, após breve conversa, fomos escoltados para dentro da cidade. Parecia muito com qualquer outra cidade oriental – homens, mulheres e crianças indo e vindo, discutindo, comprando e vendendo. Mas, no geral, ela tinha aquele mesmo efeito de isolamento, de vasta antiguidade. Eu não conseguia classificar a arquitetura mais do que podia entender o idioma. A única coisa na qual eu conseguia pensar, ao encarar aquelas construções atarracadas e quadradas, era nas cabanas que certos povos mestiços de classe baixa ainda constroem no vale do Eufrates, na Mesopotâmia. Aquelas cabanas deviam ser uma evolução degradada da arquitetura naquela estranha cidade africana.

Nossos captores nos levaram diretamente à maior construção da cidade e, enquanto avançávamos ao longo das ruas, descobrimos que as casas e paredes não eram de pedra, mas de uma espécie de ladrilho. Fomos levados para um salão de imensas colunas, diante do qual se estendiam filas de soldados silenciosos, e para diante de um estrado sobre largos degraus. Havia guerreiros armados, atrás e de cada lado do trono; um escriba em pé ao lado deste, jovens vestidas com plumas de avestruz se reclinando nos largos degraus e, sobre o trono, se sentava um demônio de olhos sombrios, o qual era o único homem daquela cidade fantástica a usar cabelos longos. Tinha barba negra, usava uma espécie de coroa e tinha o rosto mais altivo e cruel que eu já vira num homem. Um sheik árabe ou um xá turco era um cordeiro ao lado dele. Ele me lembrava algumas concepções artísticas de Belzhazzar ou dos faraós: um rei que era mais que um rei ante seus próprios olhos e os de seu povo; um rei que era ao mesmo tempo rei, sumo-sacerdote e deus.

Nossa escolta prontamente se prostrou diante dele, batendo suas cabeças na esteira, até ele dirigir uma palavra lânguida ao escriba, e esta pessoa fazer sinal para que eles se erguessem. Eles se levantaram, e o líder começou a fazer um grande discurso sem nexo para o rei, enquanto o escriba escrevia feito um louco numa tabuleta de barro, e Conrad e eu permanecíamos de pé como um par de jovens burros, nos perguntando o que significava aquilo tudo. Então, ouvi uma palavra repetida continuamente e, a cada vez que ele a repetia, apontava para nós. A palavra soava como “acadiano”, e subitamente meu cérebro deu voltas com as possibilidades que indicava. Não podia ser – e, no entanto, tinha que ser!

Sem querer interromper a conversa e talvez perder minha maldita cabeça, eu nada disse e, finalmente, o rei gesticulou e falou, os soldados se curvaram novamente para ele e, nos agarrando, afastaram-nos rudemente, aos empurrões, da presença real, em direção a um corredor com colunas, através de um enorme salão e para dentro de uma pequena cela, onde nos enfiaram e trancaram a porta. Ali só havia um banco pesado e uma janela, fortemente gradeada.

- Céus, Bill – exclamou Conrad –; quem imaginaria algo igual a isto? É como um pesadelo... ou um conto das Mil e Uma Noites! Onde estamos? Quem é esta gente?

- Você não vai acreditar em mim – eu disse –, mas... já leu sobre o antigo império da Suméria?

- Sem dúvida; ele floresceu na Mesopotâmia, há uns quatro mil anos. Mas o que... por Júpiter! – ele exclamou, me encarando com os olhos arregalados ao entender a relação.

- Deixo à sua imaginação o que os descendentes de um reino da Ásia Menor possam estar fazendo no Leste da África – eu disse, procurando às cegas meu cachimbo –; mas tem que ser... os sumérios construíam suas cidades com tijolos secos ao sol. Vi homens fazendo tijolos e amontoando-os para secarem ao longo da beira do lago. O barro é extraordinariamente igual àquele que você encontra no vale do Tigre e Eufrates. Provavelmente, foi por isso que essa gente se estabeleceu aqui. Os sumérios escreviam em tabuletas de barro, riscando a superfície com uma ponta afiada, exatamente como aquele homem fazia na sala do trono.

“E veja suas armas, roupas e fisionomias. Já vi a arte deles entalhada em pedra e cerâmica, e me perguntava se aqueles narizes grandes eram parte de seus rostos ou capacetes. E veja o templo no lago! Uma pequena réplica do templo erguido ao deus El-Lil, em Nippur, o qual provavelmente originou o mito da Torre de Babel.

“Mas o que arrebata é o fato deles terem se referido a nós como acadianos. O império deles foi conquistado e subjugado por Sargão de Acad em 2750 a.C. Se eles forem descendentes de um grupo que fugiu de seu conquistador, é natural que, enclausurados nestas terras interiores e separados do resto do mundo, eles chamem todos os forasteiros de acadianos, assim como nações orientais isoladas chamam todos os europeus de francos, em memória aos guerreiros de Martel, que os expulsaram em Tours”.

- Por que acha que não foram descobertos até agora?

- Bom, se algum homem branco esteve aqui antes, eles tiveram o cuidado de não o deixarem sair para contar a história. Duvido que eles se aventurem para muito longe; provavelmente, pensam que o mundo exterior está infestado de acadianos sanguinários.

Naquele momento, a porta de nossa cela se abriu para deixar entrar uma jovem esguia, vestida apenas com uma cinta de seda e placas douradas nos seios. Ela nos trouxe comida e vinho, e notei o quão longamente ela olhava para Conrad. E, para nossa surpresa, ela falhou conosco em claro Somali.

- Onde estamos? – perguntei a ela – O que eles farão conosco? Quem é você?

- Sou Naluna, a dançarina de El-Lil. – ela respondeu... e parecia ágil como uma pantera – Lamento vê-los neste lugar; nenhum acadiano sai vivo daqui.

- Que gente amigável. – grunhi, embora estivesse feliz de encontrar alguém com quem pudesse falar e entender – E qual o nome desta cidade?

- Aqui é Eridu. – ela disse – Nossos ancestrais vieram para cá há muitas eras, desde a antiga Suméria, muitas luas a Leste. Eles foram expulsos por um grande rei cruel: Sargão, dos acadianos... um povo do deserto. Mas nossos ancestrais não queriam ser escravos, como seus parentes, de modo que fugiram, milhares deles, num grande grupo, e atravessaram muitas regiões estranhas e selvagens antes de chegarem a esta terra.

Além daquilo, o conhecimento dela era muito vago e misturado com mitos e lendas improváveis. Conrad e eu discutimos isso depois, nos questionando se os antigos sumérios desceram a costa ocidental da Arábia e cruzaram o Mar Vermelho, mais ou menos onde hoje fica Moca, ou se passaram pelo Canal de Suez e vieram pelo lado da África. Estou inclinado a esta última opinião. Provavelmente, os egípcios os encontraram quando vinham da Ásia Menor e os perseguiram até o sul. Conrad achou que eles poderiam ter feito a maior parte da viagem pela água, porque, como ele disse, o Golfo Pérsico chegava a quase 50 km a mais de distância do que hoje, e a Antiga Eridu era uma cidade com porto marítimo. Mas, naquele exato momento, outra coisa me veio à mente.

- Onde aprendeu a falar Somali? – perguntei a Naluna.

- Quando eu era pequena – ela respondeu –, me aventurei para fora do vale e selva adentro, onde um bando de incursores negros me capturou. Eles me venderam a uma tribo que vivia próxima à costa, e passei minha infância com eles. Mas, quando fiquei moça, eu me lembrei de Eridu, e um dia roubei um camelo e cavalguei por muitas léguas de savana e selva, e assim retornei à minha cidade natal. Em toda Eridu, só eu sei falar uma língua que não seja minha, exceto pelos escravos negros... e eles não falam nada, pois cortamos suas línguas ao capturá-los. O povo de Eridu não se aventura além das selvas, e não trafica com os povos negros, que às vezes nos atacam, exceto para capturar alguns escravos.

Perguntei a ela por que mataram o criado de nosso acampamento, e ela disse que era proibido negros e brancos se casarem em Eridu, e ao filho de tal união não era permitido viver. Eles não gostaram da cor do coitado.

Naluna poderia nos contar um pouco da história da cidade, desde sua fundação, à parte dos eventos que haviam acontecido em sua própria memória – os quais tinham a ver, principalmente, com ataques esporádicos de alguma tribo canibal que vivia nas selvas ao sul; intrigas triviais da corte e do templo, coisas diferentes e semelhantes. O alcance da vida de uma mulher no Leste é muito parecido, seja no palácio de Akbar, Ciro ou Assurbanipal. Mas descobri que o nome do governante era Sostoras, e que ele era tanto sumo-sacerdote quanto rei – exatamente como foram os governantes da antiga Suméria, há quatro mil anos. El-Lil era seu deus, o qual morava no templo do lago; e o profundo ribombar que havíamos escutado era, segundo Naluna, a voz do deus.

Ela finalmente se ergueu para partir, lançando um olhar ansioso para Conrad, o qual estava sentado como um homem em transe – pelo menos uma vez, seus malditos insetos foram tirados de seu pensamento.

- Bem – eu disse –, o que acha disso, meu bom jovem?

- É incrível. – ele disse, sacudindo a cabeça – É absurdo... uma tribo inteligente vivendo aqui durante quatro mil anos, sem avançar mais que seus ancestrais.

- Você foi picado pelo inseto do progresso. – eu disse cinicamente a ele, enchendo meu cachimbo com fumo – Você está pensando no crescimento rápido de seu próprio país. Não consegue generalizar sobre um oriental de um ponto de vista ocidental. O que me diz do famoso longo sono da China? Quanto a esses homens, você esquece que eles não são uma tribo, mas os remanescentes de uma civilização que durou mais tempo que qualquer uma posterior. Alcançaram o pico de seu progresso há milhares de anos. Sem nenhum intercâmbio com o mundo exterior, e sem sangue novo para suscitá-los, esta gente está lentamente afundando. Aposto que sua cultura e arte são bem inferiores às de seus ancestrais.

- Então, por que não caíram no barbarismo completo?

- Talvez tenham, para todos os propósitos práticos. – respondi, começando a tragar meu velho cachimbo – Eles não me dão a impressão de serem os descendentes apropriados de uma civilização antiga e honrosa. Mas lembre-se que eles cresceram lentamente, e seu retrocesso tem que ser igualmente lento. A cultura suméria era extraordinariamente viril. Sua influência é sentida na Ásia Menor até hoje. Os sumérios já tinham sua civilização quando nossos ancestrais primitivos lutavam com ursos das cavernas e tigres dentes-de-sabre, por assim dizer. Pelo menos, os arianos não haviam atravessado os primeiros fatos importantes na estrada do progresso, quaisquer que fossem seus vizinhos animais. A antiga Eridu já era um porto marítimo importante em 6500 a.C. De então até 2750 a.C., é bastante tempo para qualquer império. Qual outro império durou tanto quanto o sumério? A dinastia acadiana, estabelecida por Sargão, durou 200 anos, antes de ser derrotada por outro povo semita: os babilônios, que tomaram sua cultura emprestada, exatamente como mais tarde os romanos roubaram a sua da grega; a dinastia kassita dos elamitas suplantou os babilônios originais, e logo vieram os assírios e caldeus; bom, você conhece a rápida sucessão de dinastias na Ásia Menor, um povo semita derrotando outro, até os verdadeiros conquistadores avultarem do horizonte leste: os medos arianos, ou persas, que estavam destinados a durar um pouco mais que suas vítimas.

“Compare cada reino fugaz com o longo reinado fantástico dos antigos sumérios pré-semíticos! Nós achamos que a Era Minóica de Creta foi há muito tempo, mas o império sumério de Erech já estava começando a decair diante do poder ascendente da Nippur suméria, antes que os ancestrais dos cretenses tivessem emergido da Era Neolítica. Os sumérios tinham algo que sucessivos hamitas, semitas e arianos não possuíam. Eram estáveis. Cresceram lentamente e, se fossem deixados sós, teriam decaído tão lentamente quanto estes homens o estão. Ainda assim, notei que esses sujeitos fizeram um progresso – percebeu as armas deles?

“A Antiga Suméria estava na Idade do Bronze. Os assírios foram os primeiros a usarem ferro para algo diferente de ornamentos. Mas estes rapazes aprenderam a trabalhar o ferro – provavelmente por uma questão de necessidade. Não há cobre por aqui, mas está cheio de minério de ferro, ouso dizer”.

- Mas o mistério da Suméria continua. – Conrad interrompeu – Quem são eles? De onde vieram? Algumas autoridades sustentam que eram de origem dravidiana, parentes dos bascos...

- Isso não me pega, rapaz. – eu disse – Mesmo aceitando uma possível mistura de sangue ariano ou turaniano nos descendentes dravidianos, posso ver, num piscar de olhos, que esta gente não é da mesma raça.

- Mas sua linguagem... – Conrad começou a argumentar, o que é uma boa forma de passar o tempo, enquanto está esperando ser colocado na panela, mas não serve para muita coisa, exceto reforçar suas próprias idéias originais.

Naluna veio novamente, por volta do pôr-do-sol, com comida, e desta vez se sentou ao lado de Conrad e o observou comer. Vendo-a sentada assim, com os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos, devorando-o com os grandes olhos brilhantes, eu disse ao professor em Inglês, para que ela não entendesse:

- A garota está apaixonada por você; jogue com ela. Ela é nossa única chance.

Ele corou como uma colegial:

- Tenho uma noiva nos Estados Unidos.

- Dane-se sua noiva. – eu disse – É ela quem irá conservar nossas cabeças idiotas sobre nossos malditos ombros? Eu lhe digo que esta garota está louca por você. Pergunte a ela o que farão conosco.

Ele o fez, e Naluna disse:

- Seus destinos estão no colo de El-Lil.

- E no cérebro de Sostoras. – murmurei – Naluna, o que aconteceu com as pistolas que eles tomaram de nós?

Ela respondeu que estavam penduradas no templo de El-Lil, como troféus de vitória. Nenhum dos sumérios conhecia sua utilidade. Eu a perguntei se os nativos, com os quais às vezes lutavam, haviam usado pistolas, e ela disse que não. Eu pude facilmente acreditar naquilo, já que havia muitas tribos selvagens, naquelas terras interiores, que mal tinham visto um homem branco. Mas parecia inacreditável que alguns dos árabes que haviam feito incursões na Somália, durante mil anos, nunca tivessem se deparado com Eridu e dado tiros. Mas era verdade – apenas mais um daqueles peculiares caprichos do destino, como os lobos e gatos selvagens que você ainda encontra no estado de Nova Iorque; ou aqueles estranhos povos pré-arianos que você encontra em pequenas comunidades, nas colinas de Connaught e Galway. Estou certo de que grandes incursões escravistas passaram a poucas milhas de Eridu, mas os árabes nunca a encontraram nem lhe deixaram gravado o significado de armas de fogo.

Assim, falei a Conrad:

- Jogue com ela, seu tolo! Se conseguir convencê-la a nos dar uma arma às escondidas, teremos uma chance.

Então, Conrad tomou coragem e começou a falar com Naluna de uma forma nervosa. Não sei como conseguiu, pois ele não era nenhum Don Juan, mas Naluna se aninhou a ele, deixando-o desconcertado, e escutou seu Somali vacilante com a alma nos olhos. O amor floresce súbita e inesperadamente no Oriente.

No entanto, uma voz imperiosa, do lado de fora da cela, fez Naluna dar um salto e sair correndo; mas, enquanto saía, ela apertou a mão de Conrad e lhe sussurrou algo no ouvido, que não conseguimos entender; mas aquilo soou bastante apaixonado.

Logo depois que ela partira, a cela se abriu novamente e apareceu uma fila de silenciosos guerreiros de pele morena. Uma espécie de chefe, a quem o resto chamava de Gorat, gesticulou para que saíssemos. Então, descemos um longo e escuro corredor, cheio de colunas, em perfeito silêncio, exceto pelo suave roçar de suas sandálias e o pisar de nossas botas nos ladrilhos. Uma tocha ocasional, lampejando nas paredes ou num nicho das colunas, iluminava vagamente o caminho. Por fim, saímos nas ruas vazias da cidade silenciosa. Nenhuma sentinela percorria as ruas ou os muros, e nenhuma luz saía de dentro das casas de teto plano. Era como andar nas ruas de uma cidade-fantasma. Se toda noite em Eridu era assim, ou se o povo ficou dentro de suas casas porque aquela era uma ocasião especial e terrível, não tenho idéia.

Descemos as ruas, em direção ao lado onde ficava o lago na cidade. Ali, atravessamos um pequeno portão no muro – sobre o qual, eu notei com um leve tremor, havia uma sorridente caveira entalhada –, e nos encontramos fora da cidade. Um largo lance de escadas descia até a margem da água, e as lanças em nossas costas nos fizeram descê-las. Um bote nos esperava lá – uma coisa estranha, de proa alta, cujo modelo original deve ter percorrido o Golfo Pérsico nos dias da Antiga Eridu.

Quatro negros descansavam sobre seus remos e, quando abriram suas bocas, vi que suas línguas haviam sido cortadas. Fomos colocados dentro do bote, nossos guardas entraram e começamos uma estranha viagem. Sobre o lago silencioso, nós nos movíamos como num sonho, cujo silêncio era interrompido apenas pelo suave murmúrio dos longos e finos remos trabalhados a ouro pela água. As estrelas pintavam o abismo azul-escuro do lago com pontos prateados. Olhei para trás, e vi a cidade de Eridu dormindo sob as estrelas. Olhei à frente e vi o vulto escuro do templo assomar contra as estrelas. Os desnudos negros mudos puxavam seus remos brilhantes e os guerreiros silenciosos se sentavam diante e atrás de nós, com suas lanças, elmos e escudos. Era como o sonho de alguma cidade fabulosa, do tempo de Harun al-Rashid, ou de Salomão filho de Davi, e pensei o quão incongruentes eu e Conrad parecíamos naquele local, com nossas botas e esfarrapadas roupas cáqui.

Desembarcamos na ilha, e vi que ela era cercada por alvenaria – a qual se erguia da beira d’água em largos lances de degraus, os quais circulavam toda a ilha. O conjunto parecia mais velho até do que a própria cidade – os sumérios devem tê-lo construído assim que encontraram o vale, antes de construírem a própria cidade.

Subimos as escadas, que estavam bastante desgastadas por incontáveis pés, até um conjunto de portas de ferro no templo, e lá Gorat abaixou sua lança e escudo, e se prostrou, batendo sua cabeça coberta pelo elmo na grande soleira. Alguém devia estar observando de alguma seteira, pois, do alto da torre, soou uma profunda nota dourada, e as portas se abriram silenciosamente para mostrar uma entrada escura, iluminada por tochas. Gorat se ergueu e caminhou à frente, nós o seguindo com aquelas malditas lanças espetando nossas costas.

Subimos um lance de escada e saímos numa série de galerias, construída no interior de cada piso e subindo em espiral. Olhando para o alto, o local parecia bem maior e mais alto do que parecia visto de fora; e aquela escuridão meio iluminada, o silêncio e o mistério me faziam estremecer. O rosto de Conrad reluzia pálido na semi-escuridão. As sombras de eras passadas se aglomeravam sobre nós, caóticas e aterrorizantes, e me senti como se os fantasmas de todos os sacerdotes e vítimas, que haviam caminhado naquelas galerias por quatro mil anos, seguissem nossos passos. As enormes asas de deuses escuros e esquecidos pairavam sobre aquela pilha horrível de antiguidade.

Chegamos ao andar mais alto. Havia três círculos de colunas altas, um dentro do outro – e devo dizer que, apesar de serem colunas feitas de tijolos secos ao sol, elas eram curiosamente simétricas. Mas não havia nada da graça e indisfarçada beleza de, por exemplo, a arquitetura grega. Aquilo era sombrio, taciturno e monstruoso – semelhante à arquitetura egípcia; não tão imensa, mas ainda mais formidável na inflexibilidade: uma arquitetura simbolizando uma era em que os homens ainda estavam nas sombras do alvorecer da Criação, e sonhavam com deuses monstruosos.

Sobre o círculo interno de colunas, havia um teto curvo – quase uma cúpula. Como a construíram, ou como chegaram a antecipar os arquitetos romanos em tantas eras, não sei dizer, pois era uma divergência surpreendente do restante de seu estilo arquitetônico, mas lá estava. E, daquele teto em forma de domo, pendia uma coisa grande, redonda e brilhante que capturava a luz das estrelas numa rede prateada. Percebi, então, que havíamos sido seguidos por muitas e enlouquecedoras milhas! Era um grande gongo: a Voz de El-Lil. Parecia de jade, mas hoje não tenho certeza. Mas, o que quer que fosse, era o símbolo no qual se apoiava a fé e o culto dos sumérios – o símbolo do próprio deus. E sei que Naluna estava certa, quando nos contou que seus ancestrais o trouxeram com eles naquela viagem longa e cansativa, eras atrás, quando fugiram dos cavaleiros selvagens de Sargão. E, durante quantos eons antes daquela era obscura ele deve ter ficado pendurado no templo de El-Lil em Nippur, Erech ou na Antiga Eridu, bramindo suas suaves ameaças ou promessas sobre o vale fantástico do Eufrates, ou através da espuma verde do Golfo Pérsico!

Eles nos colocaram dentro do primeiro círculo de colunas e, das sombras, como se ele mesmo fosse uma sombra do passado, saiu o velho Sostoras, o rei-sacerdote de Eridu. Ele estava vestido num longo robe verde, coberto por escamas como a pele de uma serpente, o qual ondulava e tremeluzia a cada passo. Sobre sua cabeça, ele usava um capacete de plumas ondulantes e, em sua mão, segurava uma marreta dourada de cabo longo.

Ele bateu levemente no gongo, e ondas douradas de som fluíram sobre nós como uma vaga, sufocando-nos em sua doçura exótica. E então Naluna veio. Eu nunca soube se ela veio de trás das colunas, ou se emergiu de alguma abertura no chão. Num momento, o espaço diante do gongo estava vazio; no outro, ela estava dançando como um raio de lua sobre um poço. Ele estava vestida com um tecido leve e tremeluzente, que mal cobria seu corpo sinuoso e membros flexíveis. E ela dançava diante de Sostoras e da Voz de El-Lil, como as mulheres de sua raça haviam dançado na antiga Suméria, há quatro mil anos.

Nem consigo começar a descrever aquela dança. Ela me fez congelar, tremer e queimar por dentro. Ouvi a respiração de Conrad ficar ofegante, e ele tremia como um junco ao vento. De algum lugar, vinha música que já era antiga quando a Babilônia era jovem; música tão elemental quanto o fogo nos olhos de uma tigresa, e tão desalmada quanto uma meia-noite africana. E Naluna dançava. Sua dança era um redemoinho de fogo, vento, paixão e todas as forças elementais. De todos os fundamentos básicos e primordiais, ela absorvia os princípios fundamentais e os combinava num movimento giratório. Ela estreitava o universo ao significado de uma ponta de adaga, e seus pés ágeis e corpo tremeluzente entrelaçavam os labirintos daquele Pensamento central. Sua dança aturdia, exaltava, enlouquecia e hipnotizava.

Enquanto rodopiava e girava, ela era a Essência elemental; uma e parte de todos os impulsos poderosos, e poderes ativos ou adormecidos – o sol, a lua, as estrelas, a cega ascensão de raízes ocultas até a luz, o fogo da fornalha, as faíscas da forja, a respiração do cervo novo, as garras da águia. Naluna dançava, e sua dança era Tempo e Eternidade, o anseio da Criação e o anseio da Morte; nascimento e dissolução em um só, idade e infância combinadas.

Minha mente atônita se recusou a conservar mais impressões; a jovem se fundia num rodopiante tremular de fogo branco diante de meus olhos aturdidos; então, Sostoras bateu uma leve nota na Voz de El-Lil, e ela caiu aos pés dele, uma sombra branca e trêmula. A lua acabava de começar a brilhar sobre os penhascos a Leste.

Os guerreiros agarraram Conrad e eu, e me amarraram a uma das colunas externas. A ele, arrastaram até o círculo interno e amarraram a uma coluna diretamente à frente do grande gongo. E vi Naluna, branca ao brilho crescente, olhar preguiçosamente para ele e depois lançar um olhar cheio de significado para mim, enquanto sumia de vista entre as escuras colunas soturnas.

O velho Sostoras fez um gesto e, das sombras, saiu um mirrado escravo negro, o qual parecia incrivelmente velho. Ele tinha as feições murchas e o olhar vago de um surdo-mudo, e o rei-sacerdote entregou a marreta dourada a ele. Então Sostoras recuou e ficou ao meu lado, enquanto Gorat se curvava e dava um passo para trás, e os guerreiros também se curvavam e recuavam mais ainda. De fato, eles pareciam bastante ansiosos para se afastarem o máximo possível daquele sinistro anel de colunas.

Houve um momento tenso de espera. Eu olhava para fora, através do lago, em direção aos penhascos altos e sombrios que cingiam o vale, e para a cidade silenciosa que ficava sob a lua que se erguia. Parecia uma cidade morta.

Todo o cenário era bastante irreal, como se Conrad e eu houvéssemos sido transportados para outro planeta, ou de volta a uma era morta e esquecida. Então, o negro mudo bateu no gongo.

A princípio, era um sussurro baixo e suave que fluía de baixo da firme marreta do negro. Mas ele cresceu rapidamente em intensidade. O som suportável e crescente se tornou torturante – insuportável. Era mais que um mero som. O mudo evocou uma qualidade de vibração que adentrava todos os nervos e os despedaçava. Ficou cada vez mais alto, até eu achar que a coisa mais desejável do mundo seria a surdez total, ser como aquele mudo de olhos vazios, o qual nem ouvia nem sentia a perdição de som que criava. Mesmo assim, eu via o suor lhe brotar da testa simiesca. Certamente, algum trovão daquele cataclismo de despedaçar o cérebro repercutia em sua própria alma. El-Lil falava conosco, e a morte estava em sua voz. Certamente, se algum dos terríveis deuses negros de eras passadas pudesse falar, ele falaria exatamente naquela língua! Não havia misericórdia, piedade nem fraqueza em seu rugido. Tinha a confiança de um deus canibal, para quem a humanidade era apenas um brinquedo e marionete, para dançar em sua corda.

O som pode ficar grave demais, estridente demais ou alto demais para o ouvido humano registrar. Isso não ocorria com a Voz de El-Lil, a qual foi criada em alguma era inumana, quando magos escuros sabiam como despedaçar cérebro, corpo e alma. Sua profundidade era insuportável e seu volume era insuportável, mas o ouvido e a alma estavam intensamente vivos para sua ressonância, e não ficavam piedosamente entorpecidos nem anulados. E sua terrível doçura estava além da resistência humana; ela nos sufocava numa onda asfixiante de som que, no entanto, estava farpada por presas douradas. Eu arfava e me debatia em agonia física. Atrás de mim, eu sabia que até mesmo o velho Sostoras tapava os ouvidos com as mãos, e Gorat se arrastava pelo chão, esfregando o rosto contra os tijolos.

E, se aquilo afetava a mim, que estava logo dentro do círculo mágico de colunas, e àqueles sumérios que estavam do lado de fora do círculo, o que estaria fazendo a Conrad, que estava dentro do anel mais interno e sob aquele teto abobadado, o qual intensificava cada nota?

Até o dia em que morrer, Conrad nunca estará mais perto da loucura e morte do que esteve então. Ele se contorcia sob as amarras, como uma cobra com as costas quebradas; seu rosto estava horrivelmente contorcido, seus olhos arregalados e a espuma lhe salpicava os lábios pálidos. Mas, naquele inferno de som dourado e angustiante, eu não conseguia ouvir nada – só conseguia ver sua boca aberta e seus espumantes lábios flácidos se afrouxarem e contraírem como os de um imbecil. Mas eu sentia que ele uivava feito um cão moribundo.

Oh, a adaga sacrifical dos semitas era piedosa. Até mesmo a medonha fornalha de Moloch era mais confortável que a morte prometida por esta vibração rascante e cortante, a qual armava ondas de som com garras envenenadas. Senti meu próprio cérebro ficar tão quebradiço quanto vidro congelado. Eu sabia que, mais alguns segundos daquela tortura, e o cérebro de Conrad iria se despedaçar como uma taça de cristal e ele morreria num negro delírio de loucura total. Então, algo me arrebatou de volta dos labirintos nos quais eu entrara. Era o firme agarrar de uma pequena mão na minha, atrás da coluna à qual eu estava amarrado. Senti uns puxões em minhas cordas, como se a lâmina de uma faca estivesse sendo passada por elas, e minhas mãos estavam livres. Senti algo ser pressionado dentro de minha mão, e uma exultação feroz me invadiu. Eu reconheceria a culatra axadrezada de minha Webley 44 entre mil!

Agi numa rapidez que pegou todo o bando de surpresa. Pulei para fora da coluna e derrubei o negro mudo com uma bala em seu cérebro, girei e baleei o velho Sostoras na barriga. Ele caiu, vomitando sangue, e disparei uma descarga diretamente sobre as fileiras aturdidas dos soldados. Naquela distância, eu não poderia errar. Três deles caíram, e o resto reagiu e se dispersou como um grupo de pássaros. Num segundo, o local estava vazio, exceto por Conrad, Naluna e eu, assim como os homens sobre o chão. Era como um sonho, os ecos dos tiros ainda reverberando, e o cheiro acre de pólvora e sangue apunhalando o ar.

A garota soltou Conrad, e ele caiu ao chão, choramingando como um idiota moribundo. Eu o sacudi, mas ele tinha o olhar desvairado e espumava como um cão louco, de modo que eu o puxei para cima, deslizei um braço sob ele e parti em direção à escada. Ainda não havíamos saído da confusão por uma longa distância. Descemos por aquelas galerias largas, sinuosas e escuras, esperando ser emboscados a qualquer momento; mas aqueles sujeitos deveriam estar ainda muito apavorados, pois saímos daquele templo infernal sem qualquer interferência. Do lado de fora dos portais de ferro, Conrad desfaleceu e eu tentei falar com ele, mas ele não podia ouvir nem falar. Eu me voltei para Naluna:

- Você pode fazer algo por ele?

Os olhos dela relampejaram ao luar:

- Não desafiei meu povo e meu deus, nem traí meu culto e raça por nada! Roubei a arma de fumaça e fogo, e lhe soltei, não? Eu o amo e não o perderei agora!

Ela correu para dentro do templo, e logo saía de lá com um jarro de vinho. Ela afirmou que ele tinha poderes mágicos. Não ceio nisso. Acho que Conrad estava simplesmente sofrendo de uma espécie de trauma, devido à grande proximidade daquele ruído pavoroso, e que a água do lago lhe faria tão bem quanto o vinho. Mas Naluna derramou um pouco de vinho entre os lábios dele, e um pouco sobre a cabeça de Conrad, e logo ele gemia e praguejava.

- Veja! – ela gritou triunfante – O vinho mágico dissolveu o feitiço que El-Lil pôs nele! – E ela lançou os braços ao redor do pescoço dele, e o beijou vigorosamente.

- Meu Deus, Bill! – ele grunhiu, sentando-se e segurando a própria cabeça – Que tipo de pesadelo é este?

- Consegue caminhar, velho amigo? – perguntei – Acho que mexemos num maldito ninho de vespas, e é melhor sairmos daqui.

- Tentarei.

Ele se ergueu cambaleante, com Naluna o ajudando. Ouvi um sussurro na boca negra do templo, e julguei que os guerreiros e sacerdotes lá dentro estivessem reunindo coragem para correr atrás de nós. Descemos degraus em grande pressa, até o local onde ficava o bote que nos trouxera para a ilha. Nem mesmo os remadores negros estavam lá. Havia um machado e um escudo dentro dele, e eu agarrei o machado e abri buracos nos fundos dos outros botes que estavam amarrados perto dele.

Enquanto isso, o grande gongo havia começado a soar novamente, e Conrad gemeu e se contorceu, como se cada entonação lhe raspasse os nervos à flor da pele. Era uma nota de alarme desta vez, e eu vi luzes se acenderem na cidade e ouvi um súbito zumbido de gritos flutuar através do lago. Algo assobiou suavemente pela minha cabeça e cortou a água. Uma rápida olhada me mostrou Gorat na porta do templo, curvando seu pesado arco. Pulei dentro do bote, Naluna ajudou Conrad a entrar, e nos afastamos apressadamente ao som de várias outras setas do encantador Gorat, uma das quais arrancou uma mecha do cabelo da linda cabeça de Naluna.

Eu me ocupei com os remos, enquanto Naluna guiava o timão, e Conrad se estirava no fundo do bote e estava violentamente enfermo. Vimos uma frota de barcos sair da cidade e, quando nos viram ao brilho da lua, ergueu-se um de fúria concentrada que congelou o sangue em minhas veias. Estávamos nos dirigindo à extremidade oposta do lago, e levávamos uma boa vantagem em relação a eles; mas, daquela forma, éramos obrigados a contornar a ilha e mal havíamos deixado a popa, quando, de algum esconderijo, saiu um longo bote com seis guerreiros; vi Gorat na proa, com aquele seu maldito arco.

Eu não tinha cartuchos sobrando, de modo que remei com toda a minha força, e Conrad, com o rosto um tanto esverdeado, pegou o escudo e o fixou na popa, o que foi nossa salvação, porque Gorat estava a um tiro de flecha de nós por todo o caminho através do lago, e ele deixou aquele escudo tão cheio de flechas, que lembrava um viçoso porco-espinho. Você pensaria que eles teriam o suficiente após o massacre que fiz entre eles no teto, mas eles estavam atrás de nós, como cães atrás de uma lebre.

Tínhamos uma boa vantagem em relação a eles, mas os cinco remadores de Gorat disparavam seu bote através da água como um cavalo de corrida e, quando desembarcamos na margem, eles estavam a menos de meia-dúzia de passos atrás de nós. Enquanto saíamos com dificuldade, eu vi que ou lutávamos ali e seríamos derrubados de frente para eles, ou seríamos derrubados como coelhos enquanto corríamos. Pedi a Naluna que corresse, mas ela riu e puxou uma adaga – aquela garota era uma mulher para um homem!

Gorat e seus folgazões vinham rapidamente ao desembarque, com um clamor de gritos e um remoinho de remos – eles se aglomeravam sobre o lado, como um bando de piratas sanguinários, e a batalha estava travada! A sorte estava com Gorat na primeira investida, pois eu errei o disparo e matei o homem atrás dele. O martelo bateu numa concha vazia, soltei a Webley e ergui o machado quando eles se aproximaram de nós. Por Júpiter! Ainda me agita o sangue em pensar na fúria perigosa daquela luta! Com a água nos joelhos, nós os enfrentamos mão a mão, peito a peito!

Conrad arrebentou os miolos de um com uma pedra que tirou da água e, com o rabo do meu olho, enquanto lançava um golpe em direção à cabeça de Gorat, vi Naluna saltar como uma pantera sobre o outro, e eles caíram juntos num remoinho de membros e num relampejar de aço. A espada de Gorat estocava em busca de minha vida, mas eu a desviei com o machado, ele perdeu seu equilíbrio e caiu... pois o fundo do lago ali era de pedra sólida, e traiçoeiro como o pecado.

Um dos guerreiros investiu com uma lança, mas ele tropeçou sobre o companheiro a quem Conrad matara, seu elmo lhe caiu da cabeça e eu lhe esmaguei o crânio antes que ele pudesse recuperar seu equilíbrio. Gorat havia se levantado e vinha em minha direção, e o outro girava sua espada com ambas as mãos para dar um golpe fatal, mas ele nunca golpeou, pois Conrad pegou a lança que havia sido largada e o estocou por trás.

A lâmina de Gorat me raspou as costelas, ao me buscar o coração; eu girei para um lado e seu braço esticado se quebrou como um galho podre sob meu golpe, mas salvou sua vida. Ele era valente – todos eram valentes; do contrário, nunca teriam se lançado em direção à minha pistola. Ele saltou como um tigre louco por sangue, golpeando em direção à minha cabeça. Eu me esquivei e evitei a força total do golpe, mas não consegui evitá-lo completamente, e ele me abriu o couro cabeludo num corte de 7 centímetros, expondo o osso – aqui está a cicatriz como prova. O sangue me cegou, e contra-ataquei, como um leão ferido, cega e terrivelmente, e por pura sorte acertei em cheio. Senti o machado afundar em metal e osso, o cabo se lascou em minha mão, e lá estava Gorat morto aos meus pés, numa horrível mistura de sangue e miolos.

Sacudi o sangue dos meus olhos e olhei ao redor, em busca de meus companheiros. Conrad ajudava Naluna a se erguer, e me parecia que ela cambaleava um pouco. Havia sangue em seu peito, mas ele parecia vir da adaga vermelha, a qual ela segurava numa mão manchada até o pulso. Deus! Era um pouco repugnante pensar nisso agora. A água onde nos encontrávamos estava cheia de cadáveres e horrivelmente vermelha. Naluna apontou para o outro lado do lago, e vimos os barcos de Eridu se movendo em nossa direção – a uma boa distância ainda, mas vinha rapidamente. Ela nos guiou a uma fuga desde a beirada do lago. Meu ferimento sangrava, como só um ferimento no escalpo pode sangrar, mas eu ainda não estava enfraquecido. Sacudi o sangue dos meus olhos, vi Naluna cambalear enquanto corria e tentei pôr meu braço ao seu redor para sustentá-la, mas ela se desvencilhou de mim.

Ela se dirigia aos penhascos, e nós os alcançamos sem fôlego. Naluna se inclinou sobre Conrad e apontou para cima com uma mão trêmula, respirando em grandes ofegos soluçantes. Entendi o que ela queria dizer. Uma escada de cordas levava para o alto. Eu a fiz ir primeiro, com Conrad a seguindo. Segui atrás dele, recolhendo a escada de mão atrás de mim. Havíamos subido a metade do caminho, quando os barcos chegaram à terra e os guerreiros correram praia acima, lançando suas flechas enquanto corriam. Mas estávamos na sombra dos penhascos, o que dificultava a pontaria, e a maioria das setas caíam sem alcançar o alvo ou se espatifavam na parede do penhasco. Uma me atingiu o braço esquerdo, mas eu a arranquei e não parei para felicitar o atirador por sua pontaria.

Uma vez sobre a beirada do penhasco, puxei a escada para cima e a soltei, e então me voltei para ver Naluna oscilar e desabar nos braços de Conrad. Nós a deitamos delicadamente sobre a grama, mas até um homem com meia-visão poderia perceber que ela estava nas últimas. Limpei o sangue do peito dela e arregalei os olhos, horrorizado. Só uma mulher com muito amor conseguiria correr e escalar os penhascos daquele jeito, com um ferimento igual ao que aquela garota tinha no coração.

Conrad deitou a cabeça dela no colo e tentou balbuciar algumas palavras, mas ela o abraçou fracamente no pescoço e puxou-lhe o rosto para o dela.

- Não chores por mim, meu amor. – ela disse, enquanto sua voz se enfraquecia até um sussurro – Tu já foste meu anteriormente, assim como serás de novo. Nas cabanas de barro do Velho Rio, antes que a Suméria existisse, quando cuidávamos dos rebanhos, éramos como um. Nos palácios da Antiga Eridu, antes que os bárbaros viessem do Leste, amamos um ao outro. Sim, neste mesmo lago, flutuamos em eras passadas, vivendo e amando, tu e eu. Por isso, não chore, meu amor, pois o que é uma pequena vida, quando conhecemos tantas e conheceremos muito mais? E, em cada uma delas, tu és meu e eu sou tua.

“Mas não deves demorar. Ouça! Eles clamam por teu sangue lá embaixo. Mas, uma vez que a escada está destruída, só há outro caminho pelo qual eles podem subir os penhascos – o caminho pelo qual te trouxeram para dentro do vale. Depressa! Eles voltarão através do lago, escalarão os penhascos lá e te perseguirão, mas tu escaparás deles se fores rápido. E, quando ouvires a Voz de El-Lil, lembre-se que, viva ou morta, Naluna te ama com um amor maior que qualquer deus.

“Mas te suplico um favor”, ela sussurrou, com as pálpebras pesadas se fechando como as de uma criança com sono. “Aperte, eu te imploro, teus lábios nos meus, meu senhor, antes que as sombras me envolvam totalmente; depois, deixe-me aqui e vá; e não chores, oh meu amor, pois o que é... uma... pequena... vida... para... nós... que... nos... amamos... em... tantas...”.

Conrad chorou como um bebê, e eu também o fiz, por Judas; e eu esmagarei a cabeça piolhenta do imbecil que me censurar por isso! Nós a deixamos com os braços cruzados no peito e um sorriso em seu lindo rosto, e, se existir um paraíso para os cristãos, ela está lá com os melhores deles, eu juro.

Bem, nós nos afastamos cambaleantes sob o luar, meus ferimentos ainda sangravam e eu estava quase acabado. Tudo o que me manteve indo foi uma espécie de selvagem instinto animal para viver, eu imagino, pois, se eu já estive alguma vez prestes a cair e morrer, foi naquela ocasião. Havíamos avançado talvez uma milha, quando os sumérios jogaram seu último ás. Acho que eles perceberam que havíamos escapado de suas garras e levávamos vantagem demais para sermos pegos.

De qualquer forma, aquele maldito gongo havia repentinamente começado a retumbar. Tive vontade de uivar feito um cão raivoso. Desta vez, era um som diferente. Nunca vi ou ouvi um gongo, antes ou depois, cujas notas pudessem transmitir tantos significados distintos. Era um chamado traiçoeiro – uma insistência sinistra, mas uma ordem imperiosa para retornarmos. Ameaçava e prometia; se sua atração havia sido grande antes de estarmos na torre de El-Lil, e sentimos seu poder total, ela agora era quase irresistível. Era hipnótica. Agora sei como um pássaro se sente quando é encantado por uma serpente, ou como a serpente se sente quando os faquires tocam suas flautas. Não consigo começar a lhe fazer entender o magnetismo irresistível daquele chamado. Ele lhe fazia querer se contorcer, cortar o ar e correr de volta, cego e guinchando, como uma lebre que corre para dentro das mandíbulas de um píton. Tive que combatê-lo, como um homem que luta por sua alma.

Quanto a Conrad, o chamado o tinha nas garras. Ele parava e tremia como um bêbado.

- É inútil. – ele murmurava roucamente – Ele me agarra as fibras do coração; acorrentou meu cérebro e minha alma; reúne toda a sedução maligna de todos os universos. Devo voltar.

E ele começou a cambalear de volta pelo caminho de onde viera – em direção àquela mentira dourada que flutuava até nós sobre a selva. Mas pensei na jovem Naluna, que tinha dado sua vida para nos salvar daquela abominação, e uma estranha fúria me dominou.

- Escute! – eu gritei – Não pode fazê-lo, seu maldito idiota! Você está fora de si! Não consentirei, está me ouvindo?

Mas ele não prestou atenção, me empurrando com olhos iguais aos de um homem em transe, e então tive que bater nele... um bom gancho de direita na mandíbula, que o deixou estirado e inconsciente. Eu o lancei por cima do meu ombro e segui meu caminho, cambaleante, e se passou quase uma hora antes que ele recuperasse os sentidos, completamente lúcido e agradecido a mim.




- Bem, nós não vimos mais o povo de Eridu. Não tenho nem idéia se nos seguiram. Não podíamos ter fugido mais rápido do que fizemos, pois fugíamos do assombroso e horrível sussurro harmonioso que nos perseguia desde o sul. Finalmente, chegamos ao local onde havíamos escondido nossas bagagens, e então, armados e minimamente equipados, iniciamos a longa jornada para a costa. Talvez você tenha lido, ou ouvido, algo a respeito de dois andarilhos macilentos, que foram recolhidos por uma expedição de caçadores de elefantes na região atrasada da Somália, atordoados e incoerentes pelos sofrimentos. Bom, nós estávamos quase mortos, eu admito, mas estávamos perfeitamente lúcidos. A parte incoerente foi quando tentamos contar nossa história, e os malditos idiotas não quiseram acreditar nela. Davam tapinhas em nossas costas, falavam num tom suave e nos davam uísque com soda. Logo calamos nossas bocas, ao ver que só seríamos estigmatizados como mentirosos ou lunáticos. Eles nos levaram de volta ao Djibuti, e nós ficamos fartos da África por um tempo. Embarquei para a Índia, e Conrad foi à direção oposta... ele não via a hora de voltar à Nova Inglaterra, onde eu espero que ele tenha se casado com aquela mocinha americana e esteja vivendo feliz. Um amigo maravilhoso, apesar de todos os seus malditos insetos.

“Quanto a mim, não posso ouvir qualquer tipo de gongo hoje, sem me sobressaltar. Naquela longa e cansativa viagem, eu nunca respirei tranqüilo até ficarmos longe do som daquela Voz medonha. Você não consegue imaginar o que uma coisa como aquela pode fazer com sua mente. Ela faz um estrago enorme em todas as idéias racionais.

“Às vezes, ainda ouço aquele gongo infernal em meus sonhos, e vejo aquela cidade silenciosa e horrendamente antiga naquele vale de pesadelo. Às vezes me pergunto se ele continua me seguindo ao longo dos anos. Mas isso é bobagem. De qualquer forma, esta é a história e, se você não acredita em mim, não lhe censurarei de modo algum”.

Mas eu prefiro acreditar em Bill Kirby, pois conheço sua raça desde Hengist, e sei que ele é como todo o resto: sincero, agressivo, profano, inquieto, sentimental e direto; um verdadeiro irmão dos errantes, lutadores e aventureiros Filhos dos Arianos.

Fonte: http://gutenberg.net.au/ebooks06/0608121h.html

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